A Imitação do Amanhecer - I.19


O esforço fabuloso que a alma doente faz

para tornar-se música, é sempre um exagero,

mas é todo o seu bem, conquanto guarde o cheiro

da obsessão mais acre e o sabor que o fugaz


vai colocando tudo. É um ladrão contumaz,

um assassino lento, esse esforço estrangeiro

à harmonia do ser __ ao coração primeiro,

ao instinto em seguida, à carne e a tudo mais


do humano, eu sei, eu sei. No entanto, esse demente,

a alma que se esbate contínua e cegamente

contra as migalhas da visão que tem nos braços,


forçando-se a arrancar um todo a seus pedaços,

anda aos abraços com um fantasma impenitente,

assassino e ladrão, sombra entre o chão e os passos.


Bruno Tolentino



Tolentino trata aqui da alma doente por não conseguir enxergar o mundo real, impedida que está pelas camadas que escondem a realidade. O esforço fabuloso que faz é a busca pela sabedoria, pela verdade, única forma de remover estas camadas. Este é o verdadeiro bem dos homens, embora nesta procura estamos sujeitos ainda aos efeitos da ilusão.


Da ilusão do mundo surgem as tentações, o pecado, sempre agindo contra à harmonia do ser. Primerio este chamado chega aos nossos corações, depois ao instinto e finalmente à carne. A alma se debate com estas epinfanias, estes vislumbres da realidade, tentando formar um quadro maior através destes pedaços. É um embate contínuo pois o homem está abraçado por toda estes efeitos, com a falsidade, a "sombra entre o chão e os passos".

u© MARCOS JUNIOR 2013