Festival de genialidade


Uma das coisas que tenho feito nessas férias é aproveitar para assistir filmes do Eric Rohmer. O interessante é que se tornou um vício, cada vez que vejo um dos seus filmes, mas tenho vontade de ver o próximo. Minha meta foi terminar a série dos 6 contos morais, o que consegui esta semana. Mas antes, vi um da série comédias e provérbios.

Um Bom Casamento (Le Beau Mariage) – 1982

Pode alguém evitar construir castelos no ar?

A partir desse provérbio, Rohmer constrói outro belo filme. Sabine está insatisfeita com seu relacionamento com um famoso pintor casado e toma uma decisão definitiva: se separa dele e vai se casar. O problema é que ainda não conhece o futuro marido, mas através de uma amiga, encontra Edmund e resolve que vai se casar com ele. Impaciente, e convencida que ele gostou dela, assume a iniciativa, sem perceber que o interesse dele pode não coincidir com o seu.

Rohmer aborda o problema da insatisfação com a vida real, que leva muitas pessoas a criar ilusões como forma de lidar com a realidade, criando os citados castelos no ar. Sabine decide pelo casamento e passa a viver em função dessa ilusão, recusando-se a ver os aspectos da realidade que contradiz a imagem que criou, deixando de perceber o desinteresse de Edmund.


A Padeira de Monceau (La Boulangérie de Monceau) – 1963

Um homem, estudando para uma prova de advocacia, se interessa por uma jovem que passa por ele eventualmente quando vai jantar. Depois se apresentararem, e abrir caminho para se conhecerem mais, ela não aparece mais. Ele passa a rondar o lugar todos os dias na esperança de vê-la novamente, passando a diariamente comer biscoitos em uma padaria onde percebe o interesse de uma jovem atendente.

Este curta de 23 minutos, primeiro filme da série de contos morais, já apresenta o esquema que Rohmer exploraria nos demais 5 filmes. Um homem comprometido com uma mulher sai da rotina e percebe o interesse de uma outra, normalmente o oposto da primeira. Seu dilema é se aproveita a ausência da mulher com que é comprometido para uma aventura ou se retorna para o conforto de sua situação definida.


A Carreira de Suzanne (La Carriere de Suzanne) – 1963

Um estudante divide-se entre a possibilidade de um romance com Sophie, por quem se interessa, e a certeza de um romance com Suzanne, que não o atrai. Além disso, tem que lidar com um amigo aproveitador e acabam por se aproveitar financeiramente de Suzanne, deixando-a em séria dificuldade financeira.

Depois do curta da padeira de Monceau, Rohmer realiza um filme completo, explorando o esquema que definiu para seus contos morais. Dos seis filmes, esse é o que a situação é mais ambígua, pois o narrador se relaciona com Suzanne antes de estabelecer qualquer laço com Sophie, ficando na verdade entre o interesse de quem não quer e a tênue esperança de conquistar Sophie.


Minha noite com Maude (Me Nuit chez Maud) – 1969

O narrador, católico praticante, se interessa por uma jovem com quem se depara constantemente na missa. Para ele, ela reuniria o que deseja para uma futura esposa, tanto no aspecto físico quanto na fé religiosa, que considera essencial. Ao mesmo tempo, conhece Maud, o oposto da jovem, uma mulher divorciada, atraente e atéia.

Nesse, que talvez seja o melhor filme da série, Rohmer deixa claro uma de suas inspirações, a aposta de Pascal. Através de brilhantes diálogos entre o narrador e um antigo amigo, marxista, fica explícito não só a questão da aposta em relação a existência de Deus, ou na possibilidade de um sentido para a História, no caso do amigo, como a aplicação para a situação concreta do narrador, pois tem que optar por uma possibilidade muito grande de sucesso, embora não seja realmente o que deseja, ou uma possibilidade bem menor com a jovem, mas que lhe daria a felicidade infinita.


Janeiro, 2012

u© MARCOS JUNIOR 2013