Ariano Suassuna

Romance D’A Pedra do Reino

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O nome de Ariano Suassuna ficou ligado, no Brasil, ao teatro. Suas peças se tornaram sucesso e  as adaptações para a televisão, especialmente do Auto da Compadecida, consagraram sua dramaturgia, a ponto de surpreender a muita gente que tenha sido também um romancista. Chega a ser curioso pois não se trata de uma obra menor, um complemento ao seu teatro. Ao contrário, o teatro talvez seja apenas a preparação para sua maior expressão, a prosa. O Romance da Pedra d'Reino não só é sua melhor obra, como também pode ser considerado o grande romance brasileiro. 

Baseando-se em alguns fatos reais que ocorreram no sertão nordestino na década de 30, Suassuna construiu uma obra que incorpora elementos da literatura ibérica, especialmente dos romances de cavalaria, à cultura popular do interior do nordeste, justamente a mais afastada da influência direta da cultura européia. Dessa forma, as idéias do além mar chegam sempre de forma distorcida, adaptadas para uma realidade toda particular. O sertão povoa-se de reis, cavaleiros, símbolos, misticismo, batalhas épicas e até mesmo distorções no tempo e espaço levando Tróia até Canudos, Homero até o personagem principal do livro, Dom Pedro Dinis Quaderna, ou Pedro IV, o decifrador. Dinis é o auto-intitulado herdeiro do Reino do Sertão, descendente do rei português Dom Sebastião, que desapareceu no século XVI durante uma batalha. Um reino de origem religiosa, como explica no trecho a seguir:

No Reino, domina um Catolicismo meio-maçônico e sertanejo, baseado no qual nossa família começa a assaltar os gados, as terras, as fazendas, as pastagens e os dinheiros dos proprietários ricos, para distribuí-los com os súditos pobres e fiéis do Reino, juntamente com Cartas-patentes e Cartas-de-brasão. 

Em um mundo que vive apartado do Estado e da civilização, Quaderna cria sua própria realidade, levando suas fantasias ao extremo. Seu objetivo, simplesmente se tornar o autor do grande romance epopéico brasileiro, o que significa necessariamente o maior do mundo, pois o mundo se confunde com o próprio Brasil e este com o sertão. Como Quaderna explica, quando Manoel Odorico traduz Homero, ele se apropria da obra do grego e Tróia se torna uma epopéia brasileira que apenas é contada em grego por Homero. O único problema é que Quaderna não consegue escrever e é através de um longo depoimento a um corregedor que ele constrói seu grande romance.

Usando uma técnica literária ousada, usando de inversões do tempo, narrativas por cordel, inventando obras literárias e discutindo-as, Suassuna mostra as qualidades que somente os melhores romancistas possuem, capaz de revelar o elemento humano por trás do regionalismo. Ao mesmo tempo que compreendemos a alma do sertanejo, sua enorme capacidade de se influenciar misticismo profético, característica que demonstra até hoje, percebemos também que traços desse comportamento se revelam por todo o Brasil, como mostra a espera de um salvador da pátria que resolva todos os problemas do mundo. Esse salvador deve ter algo teor místico e simbólico, fazendo que o homem simples se identifique como o novo messias. Suassuna identifica muito bem as raízes dessa característica no cristianismo distorcido que chegou na alma do povo, confundindo a política mundana, a figura do salvador do mundo, como a segunda vinda do próprio Cristo. Para o sertanejo da década de 30, o cristianismo se realiza na imanência, nas coisas do mundo. Esse traço ainda existe no espírito brasileiro e muito explica dos tempos atuais.

Suassuna tinha concebido o Romance como a primeira parte de uma trilogia. O problema é que o nível de perfeição foi tamanha que a obra, apesar de incompleta, se tornou definitiva. Chegou a escrever a segunda parte, mas ele mesmo reconheceu que não estava à altura. Desistiu da terceira. Nem o próprio gênio criador do Romance da Pedra d'Reino poderia continuá-la. Estava assim escrita sua obra-prima, talvez a obra-prima do romance brasileiro, tamanha a força de sua estrutura narrativa e da hiponotizante história narrada por seu alter ego, um inesquecível Dinis Quaderna, o grande gênio da literatura brasileira. 



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