Eça de Queirós

Os Maias

Como é possível considerar O Primo Basílio como a obra-prima de Eça de Queirós? Não tem nem como comparar, "Os Maias" é simplesmente uma obra monumental. Agora entendo porque Machado de Assis, que entendia do riscado infinitamente mais do que eu, disse que Basílio era um cópia menor de Eugene Grandet (ou seria da Bovary?, ou das duas?). Mas deixemos Basílio de lado e vamos a "Os Maias".

A sociedade portuguesa retratada por Eça é uma aristocracia decadente, uma cópia inferior da inglesa, que lhe servia de inspiração. O autor reforçou bem este ponto usando palavras inglesas constantemente por seus personagens, principalmente os que almejavam se fazer notar na sociedade, como Dâmaso. Uma nova ordem começava a surgir inspirada pelos ideais de democracia e pela influência socialista que conquistava cada vez mais corações. Ao longo do livro, Eça retrata várias reuniões políticas em que aristocratas tentavam defender a velha ordem diante dos ideais que surgiam com Proudhome, Taine, Michelet e outros.

Carlos Maia vive nesta pertubação de querer abraçar o novo mas sem abandonar o velho. É uma aristocrata rico que tenta se convencer que pertence a nova ordem que se forma em Portugal. Tenta clinicar como médico, escrever um livro de medicina, tudo sem muito sucesso. Aos poucos vai assumindo seu papel na sociedade.

O abandono dos valores morais é evidente pelo afastamento de Deus e pela amoralidade de Carlos e seus amigos que divertem-se seduzindo mulheres casadas. Justificam seus atos ridicularizando os traídos. Em um momento impagável, João da Ega justifica a sedução da filha de uma padre casada com um homem rico dizendo que seu ato era, desta forma, duas vezes meritórios, pois atingia o clero e a aristocracia.

Eça consegue tanta realidade com seus personagens que não é difícil reconhecer várias situações que estivemos presentes ou vimos de perto. O asco que Carlos começa a sentir com a Condessa de Gouvarinho depois de terem se tornado amantes é um destes momentos. Assim como a sua tentativa de colocar toda a responsabilidade nas costas da amante que se tornara indesejada.

Acaba por imitar a tragédia de seu pai, adora pelo lado oposto. De reviravolta em reviravolta Carlos vai se confrontando com suas próprias escolhas e quando tudo parecia superado, até mesmo seus próprios preconceitos, é arrastado para um desfecho que jamais poderia imaginar. O leitor é arrastado com ele e perplexos aprendem que todo ato tem conseqüências.

A forma como Eça mudou o ponto de vista de Carlos para Ega nos momentos cruciais da trama foi de uma inspiração fenomenal. Perdemos a companhia de Carlos e assistimos de mãos atadas ao desespero de João em tentar ajudar o amigo e descobrindo que nada podia fazer.

Eça de Queirós escreveu uma obra genial, que merece constar como uma das obras-primas da literatura mundial. O seu domínio da linguagem e da estória que criou é fantástico e nos arrebata totalmente para aquela decadente Lisboa do fim do século XIX.


O Primo Basílio

Depois falou muito de Paris; contou-lhe a moderna crônica amorosa, anedotas, paixões chia. Tudo se passava com duquesas, princesas, de um modo dramático e sensibilizador, às vezes jovial, sempre cheio de delidas. E, de todas as mulheres de que falava, dizia recostando-se: Era uma mulher distintíssima; tinha naturalmente o seu amante...O adultério aparecia assim um dever aristocrático. De resto a virtude parecia ser, pelo que ele contava, o defeito de um espírito pequeno, ou a ocupação reles de um temperamento burguês...


Enfim li o grande romance de Eça de Queirós, dentro de meu projeto de ler os 19 livros escolhidos pela revista Época. Republico a lista no post a seguir.

 A descrição e crítica social que Eça faz da pequena burguesia de Lisboa no século XIX é sublime. O uso da língua então... coisa de quem sabe, e muito. Utiliza os personagens para mostrar os tipos que circulavam na sociedade.

Mas é sobretudo uma obra que expõe a falta de vontade moral e ética que envolve estes personagens.

Luísa sabe que sua traição é injustificada, e pior, sabe que ama o marido. Deixa-se levar por Basílio, pela ociosidade, pela ausência de Jorge, pela luxúria e a emoção de viver uma aventura. No íntimo, sabe que o primo está a se divertir com ela; muitas vezes esboça uma atitude mais firme, mas invariavelmente um pequeno gesto é suficiente para abrandá-la. Ela sabe qual é o norte moral, mas falta-lhe disciplina para superar as tentações.

E esta é uma das mensagens de Eça. A vida moral exige disciplina, exige sacrifícios, nem todos são virtuosos por natureza, a maioria de nós precisa fazer um esforço para levar uma vida de acordo com a própria consciência.

O próprio Basílio, o personagem mais amoral da história, tem leves rompantes da moralidade, mas afasta-os como se tivesse medo que prosperassem e fosse obrigado a segui-los. O seu comportamento na última narrativa do livro é um retrato duro de uma pessoa que não tem absolutamente nenhum apreço pelo ser humano.

Juliana é outra personagem significativa. Reflete a dureza que sofre do mundo a ponto de se formar um círculo vicioso. Quanto mais o mundo lhe é desagradável, mas se torna desagradável com o mundo. A inveja a corrói, destruindo suas chances de um dia conseguir a felicidade. As atitudes da patroa lhe causam raiva, mas quando consegue se colocar no lugar desta, comporta-se da mesma maneira.

Eça mostra também o dever e a moral. É seu personagem Sebastião, que não julga, não inveja, que acredita nas pessoas. Ele é um contra-ponto aos personagens que desfilam de forma irônica e realista pelas páginas do livro.

Um livro maravilhoso, que marcou o realismo português e uma das obras primas do idioma. Para ler e refletir sobre nossas escolhas morais e a influência dessas escolhas nas pessoas que nos cercam, como, por fim, entendeu Luísa.

(Novembro 2007)


u© MARCOS JUNIOR 2013