Gustavo Corção

Lições de Abismo


Arrumei os livros escolhidos, ajeitei as rosas na jarra, e pus em ordem o armário de roupas, sentindo nisso o prazer do solteirão que se instala e um pouco do viajante que inventaria seu beliche. E agora, correndo os olhos em volta, a verificar ainda se alguma coisa destoa, sentei-me na poltrona, para esperar com decência, com ordem, a visitante anunciada pelo Dr. Aquiles.

Gustavo Corção foi um pensador, católico, que muito escreveu sobre o homem, principalmente sobre sua moral. Cientista, perdeu e encontrou sua fé, conforme descreveu no livro A Descoberta do Outro. Por seu pensamento divergir frontalmente das esquerdas e do progressismo, foi sepultado pelos editores brasileiros e hoje sua obra só pode ser encontrada em sebos.

Lições de Abismo(1950) é seu único romance. Conta a estória de José Maria, um professor universitário, em seus 50 anos, abandonado pela esposa há mais de dez anos, sem contato com o filho há dois. Após uma visita ao médico, o Dr. Aquiles, descobre que está com leucemia e restam-lhe não mais do que 3 meses de vida.

Narrado na forma de um diário, a obra apresenta as reflexões do professor, sua busca por algo em que se apegar para o momento que se aproxima. Vive só, afastado de todos, tem apenas suas lembranças e seus pensamentos para fazer-lhe companhia. Pouco narra de sua doença e seus efeitos, o foco está na observação do mundo, nas descobertas, na filosofia.

O que é o homem? O que é a morte? Existe sentido para tudo isso? O que nos define? São perguntas que atravessam as páginas reflexivas de José Maria, que dá voz aos pensamentos de Corção sobre a metafísica. O professor é um cético, como o autor um dia foi, lembra Kierkegaard "quanto mais me demonstrarem a imortalidade da alma menos creio nela".

Muitos temas são atuais como nunca. Passeando por uma praça, o narrador se depara com um bêbado, que exclama:

__ O petróleo é nosso!

Assim narra José Maria mais adiante:

"Mal dei conta da tese nacionalista que o meu homem com tanto ardor sustentava. Já tenho observado que os bêbados são quase sempre nacionalistas. Não sei por quê."

Comenta sobre a hipocrisia de um vizinho, um ministro, ao receber caminhões de flores por seu aniversário.

Mas se assim é, como se explica a satisfação do homem de Estado diante de tão feio espetáculo? Ele sabe, evidentemente, e até por experiência própria, que a bajulação é uma coisa feia, uma coisa abjeta. Melhor do que ninguém o homem de Estado conhece o exato valor da lisonja. Como se pode então compreender seu gordo sorriso satisfeito diante de tão repuguinante significação que as rosas escondem?

Apresenta o coletivismo como um grande mal: "Ah! como eu o detesto, esse câncer que estrangula a humanidade! (...) é a teoria do ajuntamento sem unidade; é a tentativa de encontrar significado na multidão, já que não se consegue descobrir o significado de cada um; é a conspiração dos que se ignoram; a união dos que se isolam; a sociabilidade firmada nos mal-entendidos; o lugar geométrico dos equívocos".

Em outra passagem interessante refere-se ao universo como a construção de dois princípios. O primeiro, de ordem e economia, a busca pela solução ou o caminho mais fácil para os problemas. O outro, de natureza diversa, o da desordem, o da aventura. Não entender ou desprezar essa segunda, estaria na raiz do pensamento dos racionalistas, deterministas, essencialistas.

Para o racionalista, tudo se explicaria pela lei do menor esforço, da economia. "A imprensa, por exemplo, foi inventada para poupar esforço; o que só é verdade depois de reconhecer a extravagante loucura que leva o homem a ler, e sobretudo a escrever". Sobre o marxismo: "é uma grande aventura que tem por objetivo purgar a história do homem do espírito de aventura. Será a última aventura para acabar com a aventura, o último ímpeto de fervor para matar o fervor, o último esforço de heroísmo para liquidar o heroísmo".

Já no fim, em uma conversa com o médico comenta que "a psicanálise não serve para um moribundo, justamente porque o moribundo, mais do que ninguém, precisa saber um sentido absoluto na vida".

Corção escreveu um romance em que o homem se prepara para a morte inevitável, mas trata o tempo todo de seu oposto, a vida. Uma obra tocante, que nos faz pensar, escrita com poesia, com lirismo, que exige um leitor atento às várias nuances e metáforas. Um livro que merecia ser sempre re-editado e lido, para lembrar-nos que a morte está logo ali, e que estamos vivendo, construindo nossa própria estória.

(Original de novembro de 2007)


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