Inglês de Sousa

Contos Amazônicos

Quanto mais eu leio a literatura brasileira, mais dou valor aos poucos bons escritores que tivemos. É muito ufanismo falar de uma suposta riqueza das nossas letras, querer colocar nossos autores acima do que realmente são e fazer com que se passem por algo que não são. É preciso ter a coragem de reconhecer que temos pouco do que se orgulhar e este pequeno livro de contos do paraense Inglês de Sousa é uma de nossas boas obras.

Lançado em 1893, essa coletânea mostra um pouco o que era viver no interior da Amazônia no final do século XIX. Misturando situações rotineiras, fantasia e uma pitada de crítica social, Inglês de Sousa faz um interessante mosaico desta região tão desconhecida para a maioria dos brasileiros, ainda nos dias de hoje. Para tornar tudo ainda melhor, sua prosa é interessante e de rara beleza. Consegue envolver o leitor e fazê-lo acreditar que a tragédia que parecia inevitável não irá se concretizar, para depois cair do cavalo. Coisa de mestre.

Tem um pouco de tudo. Um jovem pescador que vive com uma velha mãe e acaba recrutado a força como “voluntário da pátria”; um tenente positivista que resolve colocar à prova uma velha feiticeira; um vaqueiro que conta a vez que não conseguiu apanhar um rebanho em uma missão que parecia fácil até demais; um baile com um estranho cavalheiro que não tirava o chapéu, o expectativa e explosão de violência de uma quadrilha famosa e lendária; um mulato, ex-rebelde da revolução pernambucana que vive um dilema moral entre seus ideais e a honra em plena cabanada.

Aliás, este último conto é na verdade uma pequena novela, e um tapa na cara de muito esquerdista de miolo mole que acha que o mais fraco sempre tem razão e que uma causa nobre justifica qualquer violência.

nós não matávamos os velhos e as crianças, nem roubávamos os bens alheios. Se derrubávamos sangue foi em combate, expondo a nossa vida sempre em número inferior ao das tropas legais. E os cabanos que fazem, que querem? Dizem que são brasileiros, mas roubam e matam brasileiros. Dizem que são religiosos e tementes a Deus, mas matam padres, mulheres e crianças. E querem comparar-se conosco? Então a onça traiçoeira pode comparar-se ao cachorro que ataca de frente? Que vieram vocês buscar aqui? Não sou tão brasileiro como o melhor cabano? E que valentia é essa vir assim tanta gente atacar o sítio de uma pobre velha, viúva de um brasileiro que os marinheiros do Pará mataram de desgostos?


Um discurso que poderia ser proferido no meio da guerra civil espanhola ou em uma peça de Shakespeare. Uma lição para quem acredita que os fins justificam os meios.

Contos Amazônicos é um dos melhores livros de contos que já li, incluindo os grandes da literatura universal. Se estiver certo e realmente tivermos poucas obras para nos orgulhar, essa é uma delas. Com toda certeza.



u© MARCOS JUNIOR 2013