Lima Barreto

O Triste Fim de Policarpo Quaresma

Triste Fim de Policarpo Quaresma

O Nosso Dom Quixote

Edmundo Burke foi o autor de uma das frases célebres da História: "o patriotismo é o último refúgio do canalha". Não se referia ao sentimento que nos deveria ligar à nossa pátria, um sentimento baseado no desejo de fazer parte de um passado comum, de uma história, de uma tradição, algo que não conseguimos explicar, mas que nos deixa volta e meia comovidos por um feito de um compatriota ou uma meta alcançada por nosso país. Referia-se a uma deformação desse sentimento natural de patriotismo. 

Houve uma época recente que bastante desiludido com o que acontecia no meu país, tentei renunciar a qualquer espécie de patriotismo e me desligar de qualquer sentimento de nacionalidade. Tentei de tudo, a raiva, a indiferença. No fim, acabava comovido com os acordes do hino ou uma medalha olímpica por parte de um de nossos atletas. Por que isso? Se a razão me apontava que não havia absolutamente nada para ter orgulho no país, por que não conseguia me livrar destes laços?

Foi quando o livro Ortodoxia caiu em minhas mãos. No Capítulo V, A Bandeira do Mundo, Chesterton trata de duas formas de patriotismo que não levam a nada. Na primeira, o homem não ama porque não vê razão para amar, só vê defeitos, tudo é tremendamente errado, é um pessimista. Na segunda forma, o homem sabe exatamente a razão para amar, é um otimista. Nenhum dos dois será capaz de mudar o objeto do seu amor, o primeiro por desprezá-lo e o segundo por achá-lo bom como está.

Uma pessoa que odeia tudo no Rio de Janeiro, que odeia a cidade, nada fará para melhorá-lo. Tentará ir embora o mais cedo possível ou passará a vida lamentando o fato de ter que morar na cidade. Por outro lado, uma pessoa que ama a cidade por diversas razões, como a praia e o clima, por exemplo, nada fará enquanto ninguém mexer na praia e no clima. Está satisfeito com o que vê.

Então quem é capaz da mudança? Segundo Chesterton, aquele que ama sem razão. Aquele que vê qualidades, defeitos e não entende porque ama o Rio de Janeiro. "O homem mais capaz de destruir o lugar que ama é exatamente aquele que o ama por uma razão. O homem que vai melhorar o lugar é aquele que o ama sem uma única razão.” Foi neste pensamento simples de Chesterton que encontrei a paz em meu patriotismo. Não consigo ver um motivo para amar meu país, e nem tento mais, mas tenho por ele amor sem razão nenhuma além de ter nascido aqui. De certa forma, sou aquele que ama sem razão.

Policarpo Quaresma era um otimista. Amava o Brasil e passou a vida estudando as razões para amá-lo. Seu amor só fazia sentido pela idéia da perfeição: o Brasil era melhor que qualquer outro país em todos os aspectos. Chegou ao ufanismo, passou a rejeitar qualquer contribuição de outra cultura, defendeu a adoção do tupi como língua oficial do país e chegou ao ponto de se recusar usar fertilizantes em suas terras pois teria que admitir que estas terras não eram férteis. Assim, Lima Barreto criou seu Dom Quixote brasileiro para fazer sua crítica à sociedade de sua época. Uma sociedade assustadoramente atual.

Quando Policarpo propõe o tupi como língua oficial é ridicularizado pelos jornais e se torna uma celebridade. Seus colegas de burocracia se revoltam contra ele, não pelo ato em si, mas pela audácia de fugir da mediocridade da repartição e atingir alguma glória, mesmo que negativa. Um dos traços que identifico em boa parte dos brasileiros é a inveja do sucesso alheio. Em todos os sentidos.

Interessante também que Quaresma, depois de internado como louco, resolve mudar-se para o interior e tornar-se agricultor para provar que o futuro do país passava pela agricultura. Sua saga mostra bem a dificuldade de ser um empreendor no Brasil. O município vive uma luta política entre o prefeito e o presidente da câmara e Quaresma recusa-se a tomar partido. Acaba tendo seus negócios perseguidos por ambos, através de multas e punições mostrando a dependência do empreendimento privado em relação ao poder político. São tantas as leis que qualquer empreendimento sempre estará cometendo alguma ilegalidade e através desta ilegalidade o poder político mantém o controle da sociedade civil. Nada mais atual.

Por fim, acaba envolvendo-se na Revolta da Armada onde descobre a verdadeira natureza de Floriano Peixoto, o Marechal de Ferro. Condenado à morte, acaba abandonado por todos e desiludido com suas próprias decisões mostrando como pode ser brutal o mergulho na realidade.

Policarpo é o retrato ampliado dos brasileiros que hoje dão suporte ao rumo que o país assumiu. Atrás de um patriotismo equivocado, é incapaz de ver a realidade e acredita estar sendo dirigido por um grande estadista que na verdade é apenas um velhaco preguiçoso que quer ganhar o suficiente para atender seus próprios interesses.

Lima Barreto não descreveu o Brasil do início da República.

Descreveu o Brasil do século XXI.


Junho, 2010

Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá

Lima Barreto não retratou apenas o Brasil do início do século XX; foi muito além: retratou o Brasil do início do século XXI e acabou dando uma demonstração cabal de como é difícil mudar uma cultura.

Em "Recordações do escrivão Isaías Caminha" ele mostra a corrupção moral da redação de um jornal e evidencia a ignorância dos jornalistas, coisa evidente em praticamente qualquer jornal brasileiro hoje; em "O Triste Fim de Policarpo Quaresma" seu alvo é o ufanismo tolo, baseado em uma falsa noção de patriotismo, que cega completamente o homem para a realidade das coisas; e, em "Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá", ele mostra não só a perplexidade e desprezo pela sabedoria, como a mediocridade da classe média brasileira por excelência, o funcionarismo público.

Gonzaga de Sá é um perfeito burocrata, exceto por um detalhe; possui uma curiosidade inquietante pela realidade das coisas e, ao seu modo, é um verdadeiro filósofo na concepção clássica, pois sua busca pela sabedoria está centrada da existência real. É a partir dos dramas e acontecimentos do dia-a-dia que busca a reflexão e o conhecimento. Não possui desejo de reconhecimento ou busca títulos pomposos, não quer ser doutor, apenas que ver o mundo e pensar sobre ele. Lima Barreto mais uma vez evidencia sua crítica pelo excessivo apreço do brasileiro pela titulação, uma constante nas três obras citadas; para ele não é na Academia que se obtém o verdadeiro conhecimento, pelo contrário: enfurnado nas Universidades o pseudo-intelectual gasta seu tempo produzindo abstrações inúteis e alienando-se do mundo.

Não é por acaso que Gonzaga de Sá gosta de passar seu tempo percorrendo as ruas do Rio de Janeiro. Atento à arquitetura, aos acontecimentos, aos tipos humanos que atravessam nosso dia-a-dia, muitas vezes sem serem notados de fato. Buscava na cidade sua própria memória, tentar tomar posse de um tempo que passou e que deixou suas marcas. Boa parte das respostas que procuramos já tínhamos em nossa infância, em nossa mocidade; em algum lugar ela se perdeu ao sermos absorvidos e mediocrizados pela sociedade tecnicista que surgia. A repartição pública era talvez o maior exemplo do mal que é feito do espírito humano dentro de uma existência burocrática.

O livro é narrado por Machado, que por acaso conhece um já velho Gonzaga de Sá no desconhecido Ministério dos Cultos. Espanta-se por encontrar uma mente tão vívida e inquieta em uma repartição pública e torna-se seu amigo e admirador. O pouco tempo que convivem é o suficiente para escrever uma bibliografia sobre uma pessoa tão rica e ao mesmo tempo tão anônima na insípida máquina estatal.

 Gonzaga e Machado passeiam pela cidade e analisam acontecimentos banais como o passeio das damas da sociedade, os passageiros de um trem de subúrbio, um funeral, uma parada cívica. Gonzaga sempre tem um olhar agudo para as contradições das novas tendências que chocavam-se com as tradições em uma grande cidade de sua época. Fala sobre aristocracia, democracia, feminismo, racismo, patriotismo e até sobre as linhas topográficas do Rio de Janeiro. Tudo sob a perspectiva humana, colocando o homem como o centro da experiência existencial. Através dos diversos diálogos de Machado e Gonzaga vamos tomando consciência da vida de ambos e recebemos um convite para mergulharmos no mundo real e buscar nele o ponto de partida para a reflexão sincera que pode nos levar a conhecer um pouco mais de nós mesmos e o mundo.

O clímax do livro é o desabafo que Gonzaga faz diante da mediocridade de sua repartição. Só então o leitor compreende que o velho torturou seu próprio espírito para conviver com a ignorância e a mesquinharia e o arrependimento de quem deixou de formar uma família para dedicar-se ao estudoe para só então compreender que não basta ver o mundo, é preciso vivê-lo, experimentá-lo.

"O que tenho de fato, é aborrecimento, é tédio; sofro em me sentir só; sofro em me ver que organizei um pensamento que não se afina com nenhum... Os meus colegas me aborrecem... Os velhos estão ossificados; os moços, abacharelados... pensei que os livros me bastassem, que eu me satisfizesse a mim próprio... Engano! As noções que acumulei, não as soube empregar nem para a minha glória, nem para a minha fortuna... Não saíram de mim mesmo... Sou estéril e morro estéril... "


O desalento de Gonzaga é por se aproximar do fim da vida e perceber que nada realizou, que passou quarenta e um anos em uma repartição girando em torno de si mesmo e vivendo horas cercado de imbecis.

Lima Barreto não foi um pintor de paisagens sociais, foi um observador atento da alma humana. Por isso, talvez sua obra seja tão atual e nunca perca a força. São problemas existenciais que não se limitam ao Brasil, que se reproduzem diariamente em qualquer parte do mundo pois são problemas humanos. A morte está aí para cada um de nós e a pergunta que Gonzaga se deparou e que o autor coloca para nós é o que fizemos efetivamente com nossa vida. Temos a coragem suficiente para parar, olhar para nós mesmos e nossa relação com o mundo e tentar respondê-la?



u© MARCOS JUNIOR 2013