Thomas Mann

Morte em Veneza


Aschenbach, de sua posição alta, reconheceu-o antes mesmo de vê-lo propriamente, e ia pensar algo como: 'Tadzio, aí também está você de novo!' Mas no momento sentiu como esta saudação negligente desfalecia e silenciava perante a verdade de seu coração __ sentiu o entusiasmo de seu sangue, a alegria, a dor de sua alma, e reconheceu que por causa de Tadzio a despedida se tornara tão pesada para ele.

Morte em Veneza é um destes livros que possuem camadas.

A primeira camada é a estória de um velho escritor que resolve viajar e deixa Munique com destino à Veneza. No hotel em que está hospedado existe um jovem polonês de 14 anos que personifica seu ideal de beleza, e aos poucos vai se apaixonando. Praticamente não há diálogos, tudo é mostrado do ponto de vista do escritor (Aschenbach), o máximo que acontece de concreto são discretas trocas de olhar. Quem leu esta camada deparou-se com um livro chato, nada acontece.

Mas existe uma segunda camada. Esta camada mostra um conflito entre um homem vivido, burguês, conservador, escritor famoso. Um homem que reprova comportamentos que mostram a degradação do europeu. Primeiro, em um viajante que vê em Berlin e depois em um velho que encontra-se no mesmo navio que ele na viajem à Veneza. O comportamento deste último, que procura parecer mais jovem do que é o revolta. "Mas era nojento de se ver em que estado, na falsa comunidade com a juventude, tinha ficado o velho janota". A descrição de sua viagem até encontrar o jovem Tadzio é sombria, assim como suas próprias reflexões.

É instigante sua chegada à Veneza. Depara-se com um portal que atravessa de gôndola. "Estava quente ali no porto, com um toque morno do sopro do siroco (...) 'A viagem será curta', pensou ele; 'gostaria que durasse para sempre!'". Percebe que o gondoleiro é uma figura sinistra, passa a supor que poderia ter caído nas mãos de um criminoso. O diálogo é bastante significativo, quando pergunta o preço da viagem o gondoleiro apenas responde: "o senhor pagará". Quando chega aos destino e vai trocar dinheiro em um hotel e volta para a gôndola não encontra-a mais. Um velho avisa "Ele deu o fora. Um homem mau, um homem sem concessão, prezado senhor. É um único gondoleiro que não tem concessão".

O que queria dizer? Seria este gondoleiro uma alegoria de Creonte, o barqueiro do inferno? Seria o portal uma representação da entrada no reino inferior? O fato é que o escritor nunca mais sairia de Veneza apesar de uma tentativa neste sentido. Tudo aparece como uma premonição.

No hotel Aschenbach conhece Tadzio, na verdade nunca chegaram a ser apresentados ou mesmo se falar. No início admira a beleza do rapaz, compara com o belo que sempre procurara em seus escritos. As referências do classicismo são constante, o velho se apaixona. Mann narra sua queda, a perda de sua própria individualidade. Torna-se o mesmo velho que lhe causara repulsa no navio ao procurar parecer mais jovem. A beleza o cega para tudo a sua volta e passa a viver para sua paixão. A narração deixa de ser sombria e o sol passa a ser uma constante. É o retrato de um homem que se apaixona e passa a viver um outro mundo.

O leitor que enxerga esta camada vê uma obra rica e sensível. Um retrato da paixão humana.

Há ainda uma terceira camada (teriam mais?). Mann escreveu este romance quando a Alemanha caminhava para o que viria a ser a I Guerra Mundial. O mundo estava inebriado pela beleza de uma Europa que dominava o globo, o niilismo tomava conta dos corações europeus.

Aschenbach percebe fatos estranhos. Turistas passam a deixar Veneza, autoridades e comerciantes passam a desconversar. Percebe que há um problema sério de saúde pública e acaba descobrindo. Há uma epidemia de cólera, recomendam que deixe a cidade o quanto antes. Inebriado por sua paixão o escritor reluta e acaba por ficar. Fecha seus olhos para a realidade e mergulha em sua paixão.

Não seria uma alegoria da Europa do seu tempo? Já haviam homens que previam que uma guerra estava a caminho, mas o europeu esta apaixonado por este destino. Os jovens ansiavam para mostrar sua bravura nos campos de batalha, não viam na guerra uma doença, mas uma forma de afirmação. O sonho do escritor já no fim do romance é bastante significativo.

Quem leu esta camada, leu um clássico.




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