Tomás Antônio Gonzaga

Marília de Dirceu



Mas tendo tantos dotes da ventura,

Só apreço lhes dou, gentil Pastora,

Depois que teu afeto me segura,

Que queres do que tenho ser senhora.

É bom, minha Marília, é bom ser dono

De um rebanho, que cubra monte, e prado;

Porém, gentil Pastora, o teu agrado

Vale mais q’um rebanho, e mais q’um trono.



Marília de Dirceu é uma das mais importantes obras da literatura brasileira do período colonial. Situada dentro do período do arcadismo, mas já com vislumbres do romantismo, Gonzaga utiliza a figura de um pastor para declarar seu amor por Maria Dorotéia, agora transformada em Marília.

A obra é dividida em três partes.

Na primeira, o centro é Marília. Gonzaga consegue com muita sensibilidade idealizar a figura amada e declamar seu amor. Dirceu apaixona-se por Marília e esquece um amor antigo, transformando-se em um outro homem. A referência constante a antiguidade greco-romana, principalmente pela atuação do cupido, é uma das características do arcadismo.


Topei um dia

Ao Deus vendado,

Que descuidado

Não tinha as setas

Na impia mão.

Mal o conheço,

Me sobe logo

Ao rosto o fogo,

Que a raiva acende

No coração.


Gonzaga também mostra a urgência de seu amor pois o tempo passa depressa, coisa que descobriria logo ao ser preso e exilado pelos acontecimentos da inconfidência mineira.


Que havemos de esperar, Marília bela?

Que vão passando os florescentes dias?

As glórias, que vêm tarde, já vêm frias;

E pode enfim mudar-se a nossa estrela.

Ah! Não, minha Marília,

Aproveite-se o tempo, antes que faça

O estrago de roubar ao corpo as forças

E ao semblante a graça.


Tomás também mostra seu recio da velhice que se aproximava:


Assim também serei, minha Marília,

Daqui a poucos anos;

Que o impio tempo para todos corre.

Os dentes cairão, e os meus cabelos,

Ah! sentirei os danos,

Que evita só quem morre.


A segunda parte Tomás escreveu provavelmente quando estava preso, e reflete a impossibilidade de estar junto com seu amor.


Nesta cruel masmorra tenebrosa

Ainda vendo estou teus olhos belos,

A testa formosa,

Os dentes nevados,

Os negros cabelos.


A exaltação do amor dá lugar a melancolia. Cada vez mais o poeta percebe que não verá mais sua amada e se concentra no seu próprio julgamento. Interessante perceber que Gonzaga não tinha simpatia por Tiradentes e não tinha participado ativamente do movimento, embora o tivesse apoiado. Por fim termina exilado.

Na segunda parte, Marília já mal aparece. Gonzaga já encontrava-se em seu caminho para Moçambique e reflete sobre temas mais abrangentes, principalmente nos sonetos.


Obrei quando o discurso me guiava,

Ouvi aos sábios quando errar temia;

Aos Bons no gabinete o peito abria,

Na rua a todos como iguais tratava.


Julgando os crimes nunca os votos dava

Mais duro, ou pio do que a Lei pedia;

Mas devendo salvar ao justo, ria,

E devendo punir ao réu, chorava.


Não foram, Vila Rica, os meus projetos

Meter em férreo cofre cópia d’ouro

Que farte aos filhos, e que chegue aos netos:


Outras são as fortunas, que me agouro,

Ganhei saudades, adquiri afetos,

Vou fazer destes bens melhor tesouro.


Marília de Dirceu é uma das obras mais editadas da língua portuguesa e tem escondido em suas poesias muitos segredos sobre a vida e a compreensão do mundo. Uma vez Bruno Tolentino afirmou que quando foi na Rússia na década de 50, o terceiro poeta mais lido naquele país era justamente Tomás Antônio Gonzaga. Mesmo naquele meio científico soviético, Gonzaga conseguira penetrar com o amor de um pastor. Se os soviéticos tinham admiração por Gonzaga, achei que era minha obrigação ler também!


(Janeiro, 2009)


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