William Faulkner

Uma Fábula

Existes livros que nos desafiam, nos instigam, exigem toda nossa capacidade e mais um pouco. Uma Fábula é um deles. Se tudo que desejam é um passatempo, fugir da realidade, viver uma fantasia, uma leitura ligeira; fujam desse livro como o diabo foge da cruz pois vão odiá-lo com todas as suas forças. Mas se quiserem ter uma dessas experiências que nos elevam, que nos fazem fechar o livro e nos perguntar o que o autor está tentando comunicar e finalmente ter aquela sensação indescritível de estar conseguindo entender partes de uma grande imagem que começa a se formar como um gigantesco quebra-cabeças, mesmo que com peças faltando, leiam esse obra brilhante. 

Faulkner ganhou o nobel da literatura _ de vez em quando eles acertam _ em 1950. Levou 9 anos para escrever e publicar este estranho livro que deixou os críticos da época perplexos. A grande maioria odiou-o; chegaram a reclamar de desleixo do autor. Hoje é estudado no detalhe e acredito quando dizem que não há nada fora do lugar nele e que tudo foi cuidadosamente planejado.

A história se passa na I Guerra Mundial, quando um regimento francês de 3000 homens se amotina, recusando-se a lutar. Perplexos, os alemães do outro lado não aproveitam a oportunidade para destruir o regimento e deixam de lutar. A coisa se espalha pelas trincheiras e logo ambos os lados estabelecem uma trégua inexplicável e não combinada. Os Generais ficam perplexos e começam a lidar com a situação. Estaria ali o sentido da fábula? É necessário que hajam dois exércitos para uma guerra?

Aos poucos vamos descobrindo os detalhes. No início, há apenas um desfile do regimento amotinado que chega prisioneiro à própria cidade em que foi recrutado. Em um caminhão, segue o grupo que liderou o motim, composto por 13 homens. O líder é um cabo e o desfile se dá em uma quarta-feira. O Marechal francês, comandante do Exército, descobre que este cabo é seu filho ilegítimo quando é confrontado por um grupo de mulheres, as duas irmãs e a esposa, uma prostituta, do cabo. A pena para o motim é a morte, e o cabo deve ser executado na sexta feira. Querem mais? Prestem atenção:

- um dos 12 havia traído o movimento, que no fundo tinha sido permitido pelo Marechal que planejou se utilizar dele para ascender  politicamente;

- outro dos 12 não pertencia ao grupo, tinha um documento para provar. Negou fazer parte do movimento.

- O Marechal leva o cabo para o alto de uma montanha e mostrando a cidade faz a ele três propostas para livrá-lo da morte;

- o cabo é executado amarrado a um poste de madeira, no meio de dois oficiais;

- Depois de enterrado, o local é bombardeado pelos alemães. As suas irmãs correm para o local e descobrem apenas pedaços do caixão. Nenhum sinal do corpo.

Perceberam a densidade da coisa? Os paralelos? E não pensem que a leitura é fácil. São verdadeiros fluxos de consciência em que diversos narradores, inclusive um onisciente, contam usando uma linguagem cuidadosamente ambígua histórias que se cruzam. A narrativa não é linear e existem frases que se estendem por inacreditáveis 12 linhas e parágrafos de 3 ou 4 páginas. 

Ler Uma Fábula parece coisa de masoquista, mas como muitas coisas na vida, o esforço tem sua recompensa. Um grito sufocado contra a guerra que ao invés de discursos vazios nos mostra imagens da irracionalidade da matança entre seres humanos. Cada imagem forma um imenso mosaico, um quadro terrível, e belo, da suprema irrealidade da guerra. Um quadro que não se torna nítido imediatamente, mas que vai se compondo aos poucos, a cada reflexão, a cada vez que pensamos na experiência que é ler essa verdadeira obra prima.

Simplesmente brilhante.



u© MARCOS JUNIOR 2013