A Bela e a Fera (1946)

Bem antes da Disney popularizar  A Bela e a Fera para as novas gerações, o cineasta francês Jean Cocteau apresentou essa adaptação para o cinema em 1946. Embora a história seja semelhante em ambos os filmes, a grande diferença da versão francesa é a atmosfera que foi criada _ o que surpreende especialmente pelos recursos disponíveis na época _ o filme francês traduz mais fielmente o espírito por vezes sombrio de um conto de fadas.

Chesterton chamou atenção para as diferenças de uma fábula e de um conto de fadas. Enquanto o primeiro se caracteriza pela presença de animais falantes que buscam isolar determinadas características humanas (como a esperteza, a rapidez ou a estupidez), os contos de fadas tratam da realidade, apenas usando uma atmosfera de fantasia para ressaltar o próprio carácter, e atos, dos personagens, bem mais complexos do que os das fábulas. 

Belle é filha de um comerciante à beira da falência e junto com duas irmãs, ambas fúteis e propotentes, além de um irmão irresponsável, que agrava ainda mais a situação do pai, vivem em um vilarejo na França. Avenant é um amigo da família, e pretendente à mão da moça, que recusa seu pedido de casamento. Retornando de um fracassado encontro de negócios, o pai se perde na floresta vizinha ao vilarejo, e encontra o castelo da Besta, como é chamado no filme. Come da sua comida, bebe de seu vinho, dorme em sua cadeira e por fim se apodera de um flor, lembrando de um pedido da filha.

Neste momento surge de forma ameaçadora a Besta, que o informa que vai lhe tirar a vida por este último ultraje. Ao saber que ele tem três filhas, faz um acordo. Permitirá que ele deixe castelo com a promessa de retornar em três dias, ou mandar uma de suas filhas em seu lugar, talvez imaginando que uma filha que aceite tomar o lugar de seu pai em uma condenação dessa espécie só pode ser uma boa moça.

É interessante como os juramentos feitos no filme são sempre cumpridos: nem passa pela cabeça do comerciante desonrar sua palavra; nem mesmo questionar a existência de tão terrível Besta, o que sugere que a irrealidade está muitas vezes na cabeça do espectador externo e não das pessoas envolvidas em determinada situação. Não é muito diferente do nosso espanto diante de determinadas uniões, daquelas que comentarmos entre risos irônicos que tem que ter algo por trás daquela situação.

A Besta é terrível. A fumaça em suas mãos surge sempre que mata e o tempo todo luta contra sua própria natureza. Não fica claro em nenhum momento porque  está naquela situação, apenas que trata-se de uma punição por ter feito pouco da magia.

Belle sente repulsa pela Besta, mas obrigada a conviver com ele, vai se deixando levar, ao mesmo tempo que a Besta tenta agradá-la de toda forma, mas sem muito jeito. 

Não se trata de aprender a amar a feiura, que pode ser um símbolo para um impedimento que nos colocamos, mas de superá-lo a ponto de não enxergá-lo mais. Acontece todos os dias quando uma pré-disposição é superada pela convivência e pela prova de amor. Muitas vezes se não houver uma força externa obrigando essa convivência, esse repúdio inicial não tem chance de ser superado. Uma dessas forças costumava ser os laços do casamento e não raro que ligações arranjadas, por ambas as partes, se transformassem em amor e cumplicidade. 

O final é de certa forma ambíguo e Belle, ao mesmo tempo que fica feliz com o surgimento do príncipe confessa que sente falta da Besta. E que gostava de Avenant. Tirar uma lição moral dessa conclusão é uma tarefa difícil, ou impossível. 

Tecnicamente é um belo filme, com um fotografia que consegue impregnar no espectador o ambiente mágico da fábula. Os recursos utilizados são engenhosos, como os braços nas paredes e a estátuas que mexem os olhos. Os diálogos são contidos, evitando que atrapalhe todo esse clima que foi criado. Mas o destaque é para a própria Besta, que consegue um certo grau de veracidade e nos faz esquecer que trata-se de uma fantasia, especialmente pelos olhares e a boca, um digno trabalho do ator que também faz Avenant.

A Bela e a Besta consegue recriar o ambiente do conto de fadas. Não é pouca coisa, especialmente considerando a tecnologia do cinema da época. Uma grande realização que infelizmente ficou em segundo plano diante do estrondoso sucesso da também excelente animação da Disney.


u© MARCOS JUNIOR 2013