A Liberdade é Azul (1993)

Superando a dor


Quem nunca pensou na possibilidade de perder as pessoas amadas? Quem em momentos de felicidade não teve um calafrio pensando na facilidade com que se pode perder a pessoa amada? Como superar? Como se libertar do fato que a pessoa querida não mais voltará? Uma tragédia pessoal, que custe a vida das nossas pessoas mais próximas, pode significar uma prisão emocional que pode durar por toda uma vida. Lembro que o ex-presidente Geisel jamais superou a perda do filho e para o resto de sua vida se recolhia a cada aniversário de sua morte e não falava com mais ninguém. Se a liberdade consiste em se livrar de uma situação transitória, como fazer quando essa situação é definitiva? Como voltar a ser livre?

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Julie perde o marido, um famoso compositor, e a filha de 5 anos em um desastre de automóvel. Apesar da dor, que se traduziu em uma tentativa de suicídio ainda no hospital, foi incapaz de derramar uma lágrima, retendo todo seu sentimento para si. Incapaz de lidar com seus sentimentos, termina por abandonar qualquer lembrança do passado. Abandona a casa, a composição por terminar, a possível relação com Olivier, que trabalhava com seu marido, os bens, enfim, tudo que a conecte com seu passado. Aluga um apartamento e inicia uma nova vida isolada de tudo e de todos.

Como Julie explica para uma vizinha, seu novo ideal de vida é não ter conexão com ninguém, pois estabelecer ligação é abrir a possibilidade da perda. A solução para se libertar da sua tragédia pessoal é simplesmente ignorá-la, ao mesmo tempo que se fecha para vida. Não quer nada que remotamente lembre seu passado, por isso exige um apartamento sem crianças próximas. Joga fora a composição que seu marido estava trabalhando, foge de Olivier para um destino ignorado. Sua intenção: fazer nada o resto da vida. Sem família, sem amigos, colegas de trabalho. Apenas tomar café com sorvete na esquina, nadar, passar o tempo.

O problema é que não somos uma ilha, como já ensinava o poeta. Querendo Julie ou não, é impossível viver apartada do mundo, assim como esquecer tudo que passou. Pequenos acontecimentos teimam em lembrar o passado, novos laços começam a se formar por mais que tente evitar. Até ratos aparecem para lembrar sua infância. Logo vai ficando evidente que não há como ignorar uma tragédia pessoal e fingir que não existiu, em algum momento é preciso enfrentá-la.

Um belíssimo filme do polonês Krzysztof Kieslowski, o primeiro de uma série que tem o lema da revolução francesa como tema, assim como suas cores. O azul aparece como símbolo da liberdade e não por acaso uma de suas aparições é a lembrança constante da pasta com a composição de seu marido. É através da posse de seu passado, com toda dor que estiver relacionada, que Julie pode se libertar do imenso sentimento de perda que a espreita. Mais do que fugir da dor, é preciso senti-la.

Uma atuação sensacional de Juliette Binoche, encantadora como Julie. É possível sentir sua desesperada tentativa de lidar com sua perda, e perceber sua ilusão. Não são preciso muitos diálogos para entender o que está passando, ao contrário, sua atuação é toda pautada por gestos e olhares. Reparem seus gestos no telefone ao falar com Olivier no final do filme.

Com esse filme, Kieslowski colocou seu nome definitivamente na história do cinema moderno. Com todos os méritos.


u© MARCOS JUNIOR 2013