A Moça com a Valise (1961)


Amizade e amor


Uma bela jovem, Aida Zepponi (Clauida Cardinale) é abandonada por um playboy que vive às custas de uma tia na cidade de Parma, no início da década de 60. Determinada a encontrá-la, ela consegue chegar onde ele mora, mas é enganada pelo irmão mais novo Lorenzo(Jacques Perrin) que finge não conhecer Marcello. Lorenzo tem 17 anos e passa a ajudar a moça, inclusive financeiramente.

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O primeiro amor é uma das etapas de nossas vidas. Alguns poucos irão com esse amor pela vida toda, mas a grande maioria experimentará desilusão e tristeza, especialmente como no caso de Lorenzo e Aida, que além da diferença de idade, há um gigantesco abismo cultural, a favor dele, e de experiência de vida, a favor dela. Dizer que se trata da iniciação de um garoto é uma grande bobagem pois o fruto tem duas vias: da mesma forma que Lorenzo cresce ao lado de Aida, o inverso também acontece.

Talvez seja na alma de Aida que a experiência seja mais intensa, ao contrário do que se pode pensar à primeira vista. Aida é uma cantora de cabaré, tentando aproveitar a vida com intensidade, mas acostumada a terminar abandonada e sozinha. Não espera nada melhor dos homens, apenas viver o momento. Troca um cinema com Lorenzo pelo jantar com um grupo de playboys apenas pela ostentação do jantar. Com Lorenzo, começa a entender que é possível alguém amá-la sem querer nada em troca, sem pedido de contrapartida. Ela sabe que o jovem a ama, mas de certa forma não o compreende, pois em nenhum momento ele tenta fazer jogo com ela ou se insinuar. Acostumada a esperar o avanço, a corte, ela espera em vão por uma ação de Lorenzo. 

O rapaz passa por um processo de amadurecimento e sai do mundo dos estudos para a vida real, misturando ingenuidade com a força moral que traz em seu espírito. Diversas vezes tem a coragem de agir e enfrentar as consequências, sem o espírito de revolta que começa a marcar a geração dos anos 60. Encara as proibições da tia e do padre com naturalidade, sem questioná-los. Ele sabe que estão certos, mas sabe também que por mais fadado ao fracasso que seja sua expectativa de romance, é algo que tem que passar. 

Valerio Zurlini filma com raro talento e mostra que a essência do amor está na amizade e é a partir dele que o amor de verdade se constrói. Antes de qualquer coisa é o querer bem entre Aida e Lorenzo que se estabelece como semente para a construção de sentimentos verdadeiros e perenes. Independente do desfecho, os dois terminarão melhor do que entraram, como só as relações autênticas de afeto conseguem produzir. 

 

u© MARCOS JUNIOR 2013