A Queda - As Últimas Horas de Hitler

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Assistir este excelente filme alemão que mostra os acontecimentos derradeiros do bunker onde Hitler se refugiou nos últimos dias de abril de 1945 e a desesperada defesa de Berlim foi uma experiência angustiante. Não é fácil contemplar a face humana da maldade, a convivência de sentimentos tão conflitantes e radicalmente opostos na mesma pessoa, e isso não vale só para Hitler.


É fácil querer considerá-lo uma espécie de demônio e exclui-lo da humanidade, uma solução confortável para uma alternativa difícil de lidar, de que um homem seja capaz das maiores atrocidades por um ideal. Este talvez seja o grande desconforto do filme, contemplar a mistura de um ditador capaz de ser gentil e cruel em medidas extremas nos faz perceber que o mal existe dentro do homem, qualquer um. Não estou dizendo que todo mundo seja capaz de chegar ao extremo que ele chegou, mas todos têm seus próprios demônios para lidar. Acreditar que não se pode cair é o primeiro passo para a queda, como já dizia Chesterton.


Naquele bunker reuniu-se os vários tipos de personalidades que tornaram possível o nazismo. Os fanáticos seguidores, como Goebbels e sua esposa; os totalmente alienados, como Eva Brawn, capaz de dar um baile no meio de um bombardeio; as pessoas boas que fecharam os olhos para o que estava acontecendo, como a secretária que "narra" os acontecimentos; o soldado alemão por excelência, que despreza o nazismo mas por um sentimento forte de pátria se obriga a defendê-lo, como Weidling; os oportunistas que rondam o poder, como Himmler. Todos estes fizeram parte da camarilha nazista e representam o povo alemão de sua época. A Junge real acerta no ponto principal em sua última fala do filme, era possível entender a real natureza do nacional-socialismo. Houveram aqueles que compreenderam e recusaram-se a participar, muitas vezes com o sacrifício das próprias vidas. Insistir que todos os alemãos foram culpados por sua desgraça é profundamente injusto com estes, dizer que foi um truque de Hitler é tirar a responsabilidade moral de todos estes personagens que aproveitaram-se de alguma forma deste rompimento com a realidade que tomou conta da sociedade alemão, uma sociedade que encontrava-se em profunda desordem espiritual.


Destaco no filme algumas caracterizações. Bruno Ganz dá uma ala de interpretação, um desempenho que honra as grandes atuações da história. Não falo aqui da semelhança física, algo que considero irrelevante e superestimado no cinema, mas na completa emoção que transmite ao interpretar um personagem tão rico em dicotomias. O mesmo vale para a atriz que faz Magda Goebbels; a cena em que mata calmamente seus seis filhos e depois vai jogar paciência é a mais chocante do filme. Consegue dar toda a intensidade deste momento da intensa imbecilidade que foi necessária para aceitar o nazismo.


A Queda é mais do que um retrato de Hitler em seu desespero em ter que aceitar a dura realidade do fracasso do seu sonho. É um retrato do que a sociedade alemão tinha de pior em sua época e que sem ela Hitler teria morrido como um veterano de guerra com idéias esquisitas. É um retrato da busca pelo heroísmo de um bando de covardes, a começar pelo ditador, todos cometendo suicídio para não ter que lidar com a responsabilidade de seus atos.


O filósofo alemão Eric Voegelin estava certo. O nazismo foi um movimento que rompeu com a realidade de uma forma nunca antes vista e as consequências foram funestras para a humanidade. A Alemanha nazista foi o resultado de uma nação de idiotas que se deixou liderar por um idiota homicida. O filme mostra o epílogo deste pesadelo.

u© MARCOS JUNIOR 2013