A Vida dos Outros (2006)

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O Triunfo da Mediocridade

Um aspecto pouco comentado nos governos totalitários é o triunfo das mediocridades. A ocupação do espaço público é feito principalmente pelo critério de fidelidade ao partido e mesmo assim sujeito ao jogo político pois um fiel pode se tornar uma ameaça a outro fiel mais importante. Não é segrego que muitas vítimas de perseguições comunistas também eram comunistas, especialmente depois que o poder se consolida. A ideologia fica de lado e ocorre uma burocratização de toda a estrutura. O bom membro do partido é agora um insípido, cumpridor fiel das ordens e diretrizes, de preferência que não demonstre muita ambição. 

Em A Vida dos Outros, filme alemão de 2006, o Capitão da Stasi Gerd Wiesler, se enquadra nessa descrição. Em 1984, um fiel membro do partido comunista alemão, que se destaca por seus métodos de interrogatório psicológico, começa a vigiar um dramaturgo, Georg Dreyman, não por suas supostas simpatias ocidentais, mas pelo desejo do Ministro da Cultura pela namorada de Dreyman, a bela Christa-Maria. Wiesler passa a vigiar através de escutas o apartamento de Dreyman, e escutar toda vida íntima do escritor. 

Wiesler é muito mais inteligente que seu chefe, o ambicioso Grubitz, e o medíocre Ministro da cultura Hempf. Fica evidente que um homem realmente inteligente e capaz só consegue sobreviver no partido se não demonstrar ambição política, o que o colocaria como ameaça. Ao longo do tempo isso leva ao triunfo das mediocridades, tão bem simbolizada pela dupla Grubitz e Hempf. 

O filme trata da consciência: Dreyman faz um contraponto a seu mentor, o diretor Albert Jerska, afastado por ter sido colocado na lista negra do partido. Dreyman tenta sobreviver jogando o jogo. Através de suas peças, e fazendo parte do establishment cultural, procura passar valores ocidentais de maneira disfarçada, ao contrário do Jerska que de maneira explícita tentou enfrentar o sistema. Qual a maneira mais eficaz de enfrentar um regime totalitário? Deve-se enfrentá-lo abertamente, arriscando-se ao martírio, ou de dentro, confiando justamente da mediocridade dos burocratas do estado? Depois do suicídio de Jerska, Dreyman deseja fazer algo de mais ativo em favor da liberdade, o que dá ao vigilante Wiesler motivos suficientes para prendê-lo.

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O problema é que Wiesler começa a ter sérios problemas de consciência. A arte é um instrumento poderoso do espírito humano; por seu carácter criador aproxima o homem de Deus e o coloca em outra dimensão. Assistindo a peça de Dreyman, acompanhando as discussões em seu apartamento, o capitão passa de um desprezo pelos artistas a uma admiração genuína. Aqueles homens e mulheres eram capazes de pensar de forma original e demonstravam uma paixão pelo que faziam que lhe lançou uma luz sobre sua própria vida. Uma cena marcante é a que Wiesler, depois de escutar um encontro amoroso de Dreyman e Christa-Marie, retorna à sua casa e convoca uma prostituta. O retrato de sua solidão depois do encontro é desolador. Ele não tem amigos. Deve-se lembrar que em um regime policial é impossível a amizade verdadeira pois todos desconfiam de todos. Ele próprio é tentado a denunciar um vizinho que ele nem conhece por conta de um comentário do filho deste, de dez anos, em um elevador. 

A Vida dos Outros é um filme muito sutil, que mostra muitos aspectos da condição humana. O Capitão Wiesler foi criado e educado para ser um fiel membro do partido e tudo a sua volta conspira para isso. Fosse verdade a teoria do homem como produto do meio, seu destino estaria traçado; mas através da observação da vida de Dreyman, o olhar de Wiesler começa a se voltar para si próprio e ele cada vez gosta menos do que vê. O contraste com o escritor é demais para ele, que começa a duvidar de seu papel naquele teatro da Alemanha comunista. A consciência humana é um guia mais poderoso do que qualquer regime de força e é na própria alma, no espírito do homem, que se encontra sua autenticidade. Qualquer regime que lute contra a liberdade fundamental do ser humano, de ser quem ele é, cedo ou tarde chegará ao fracasso pois a vida social se tornará impossível.

Depois da queda do muro, em um teatro, Dreyman se encontra com o ex-ministro Humpft. Segue um dos melhores diálogos do filme, em que Humpft confessa que ele esteve grampeado o tempo todo, e termina com uma observação vulgar sobre a relação dele com Christa-Maria. Ao invés de raiva, Dreyman responde com tristeza: “e pensar que pessoas como você já governaram um país”.

A Vida dos Outros vai muito mais além do que uma denúncia ao estado policial da Alemanha comunista, é uma ode ao espírito humano. Quanto mais um regime de força se prolonga no tempo, mais se deixa dominar pela mediocridade e pela pusilanimidade. Um filme que mostra que é preciso coragem para conhecer a si mesmo e ser fiel à verdade. Através da arte, e da sua liberdade criativa, Dreyman ajudou um bom homem a se libertar das amarras que o prendiam. Jung chamaria isso de libertar-se do papel social. Prefiro remeter à alegoria da caverna de Platão, quando o filósofo retorna para libertar seus colegas das correntes que o impedem de ver além das sombras. A decisão de aceitar a realidade sobre si mesmo é sempre pessoal e intransferível, e exige coragem pois muitas vezes significa o fim do conforto material, além do risco de perder até a vida. 


u© MARCOS JUNIOR 2013