Aguirre, a Cólera dos Deuses (1972)

A loucura do super-homen

Uma alegoria é uma história que possui dois sentidos. Um, o literal, é o direto, em que o nosso esforço é um tanto quanto passivo, especialmente no caso do cinema. O segundo exige um certo esforço intelectual, pois é preciso ligar a narrativa com outra história, que se conecta através de elementos chaves como  personagens e  acontecimentos. A grande força do teatro grego vinha daí, tanto que quando os atenienses perderam a capacidade de ir além a narrativa imediata e entender realmente do que o autor estava tratando, acabou a era das grandes peças. A analogia necessita um público atento e com alguma cultura para a partir de algumas poucas pistas conseguir entender a conexão. Uma última palavra, a título de introdução a esse review, é que nem sempre a analogia é intencional; ou seja, nem sempre o autor pensou que a história que estava contando se conectava a uma outra. Isso acontece porque algumas vezes o autor está tão próximo da verdade que outras histórias se conectam não por sua intenção, mas por também serem expressão da mesma verdade.

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Aguirre, a cólera dos Deuses, começa com a expedição de Francisco Pizarro ao Peru em 1561. Claramente a tropa está despreparada para andar na selva, com seus soldados com pesadas armaduras e carregando duas mulheres em liteiras. Percebendo que não chegará a lugar nenhum, Pizarro monta uma pequena expedição para tentar encontrar algum sinal de El Dourado, chefiada por Don Pedro Ursua e segundada por Aguirre. Destacam-se também um padre, cujo diário conduz a narrativa, e um representante da corte espanhola, Fernando de Guzman, além das duas mulheres, a esposa de Ursua e a filha de Aguirre. Pizarro ainda comenta que a vinda das duas mulheres era contra seu bom julgamento.

A expedição logo se mostra infrutífera e antes que Ursua inicia o regresso, recebe um golpe de Aguirre. Este assume o comando usando a violência e a intimidação, impondo pelo medo e inicia uma jornada quase suicida em uma balsa em busca de El Dourado. Levados pelo misto de sentimentos de medo e cobiça, a expedição segue Aguirre, e elege Fernando imperador das regiões conquistadas. Ursua é mantido como prisioneiro, graças a uma intervenção do próprio Fernando, após um julgamento forjado que condena o cavaleiro como traidor.

Se por um lado podemos assistir Aguirre como um filme que mostra a jornada sem esperanças de um grupo de conquistadores espanhóis no meio da selva peruana, por outro podemos entender como uma grande analogia com o que aconteceu com a Europa na modernidade, especialmente na chamada era das revoluções. 

Aguirre é uma das manifestações do super-homem de Nietzsche. Ele não se submete a nenhuma moral que se coloque entre ele e seu desejo por poder. Ursua é o cavaleiro medieval, ou o aristocrata, que é duplamente fiel, ao rei e à Igreja. Sua virtude se materializa na própria esposa, assim como a vontade de Aguirre na filha, cujo significado será revelado apenas no final. A vitória de Aguirre sobre Ursua é a substituição do cavaleiro nobre pelo revolucionário político. Com a revolução francesa se inaugurou a era da violência política, o que fica claro na cena que Aguirre, apenas com o olhar, conduz a votação que coloca Fernando no trono. Por que Aguirre não fez de si próprio o imperador? Porque é próprio dos revolucionários terem um títere para controlar, normalmente alguém ainda ligado ao antigo regime, promovendo uma espécie de transição. 

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Don Lope de Aguirre: I am the great traitor. There must be no other. Anyone who even thinks about deserting this mission will be cut up into 198 pieces. Those pieces will be stamped on until what is left can be used only to paint walls. Whoever takes one grain of corn or one drop of water... more than his ration, will be locked up for 155 years. If I, Aguirre, want the birds to drop dead from the trees... then the birds will drop dead from the trees. I am the wrath of God. The earth I pass will see me and tremble. But whoever follows me and the river, will win untold riches. But whoever deserts...

A jornada que Aguirre conduz seus homens é destinada ao fracasso, como logo fica patente para todos. Mesmo assim, ninguém se revolta, todos guardam para si a certeza da derrota. A esposa de Ursua pede ajuda ao monge, que apenas comenta laconicamente: a Igreja sobreviveu esses séculos todos se colocando ao lado dos vencedores. Trata-se de um patife, que sob o disfarce da fé quer apenas colocar a mão no ouro, que representa nada mais que a riqueza material. O monge Carvajal representa a corrupção da própria Igreja Católica que achou possível se aliar aos revolucionários materialistas em seu benefício. 

 A história das revoluções européias é marcada pela crença na riqueza material em contraste com a riqueza do espírito, justamente uma das interpretações para a cruel constatação de Nietzsche: Deus está morto. Tanto Aquirre como seus homens resolvem ignorar a realidade por um sonho de grandeza, justamente o cerne das ideologias políticas. Qualquer um que ouse lembrar do mundo real deve ser silenciado. 

É interessante observar que Ushua permanece o tempo todo em silêncio após sua prisão. Não quer enfrentar Aguirre, como se respeitasse a decisão daqueles homens em se submeter à vontade de poder. Ele sabe que estão todos condenados e seu único propósito é manter a dignidade até o final. É um homem de virtudes em uma época que se inicia marcada pelo niilismo, na ausência de qualquer virtude que não seja a própria vontade. Sua época passou. Não há como Aguirre compreender Ursua e este sabe que é inútil enfrentá-lo. Isso fica patente quando no início do filme vários homens ficam presos em uma balsa do outro lado do rio. Aguirre considera inútil tentar salvá-los, Ursua prossegue mesmo assim, talvez por saber que seus homens gostariam de vê-lo tentar. Antes que cheguem lá os homens são mortos por indígenas. Ursua quer resgatar os corpos mesmo assim, para enterrá-los. Aguirre explode a balsa com um tiro de canhão. Para ele são apenas cadáveres. 

O cineasta Werner Herzog é mais que um artista, é também um homem de cultura, um observador arguto da realidade e conhecedor da história. Ele sabe que o super-homem de Nietzsche, personificado por Aguirre, é apenas um louco perigoso, que pode ocupar um lugar que não deveria, mas mesmo assim um louco. Seu destino é a desgraça, mas não antes de arrastar outros consigo. A diferença para os demais é que Aguirre não quer o ouro por sua riqueza material, mas sim pelo poder e glória. Mais que isso, ele quer a criação de um novo homem purificado, e para isso leva sua própria filha. Não há limites para sua loucura, como não houve para outros homens iguais a ele como Lenin e Hitler. O caminho que conduz a expedição ao longo do rio é o caminho para o totalitarismo, que só pode durar por algum tempo pois é incapaz de vencer a forças da realidade, representada no filme pela selva e seus indígenas. 

u© MARCOS JUNIOR 2013