As Crônicas de Nárnia: O leão, a feiticeira e o guarda-roupa (2005)

Uma aventura cheia de simbolismos

Um filme de aventuras pode ficar apenas em um primeiro plano de entretenimento ou pode ser uma grande metáfora para a própria condição humana. Grandes autores costumam construir suas obras em camadas de significados, utilizando os símbolos para fazer referência para outras histórias, sejam de cunho mitológicas, religiosas ou da própria experiência humana. 

Baseado em um dos contos de C. S. Lewis, ou crônicas, o filme conta a história de 4 crianças, dois meninos e duas meninas, e isso é importante, que encontram um curioso armário que nada mais é que uma passagem para um outro mundo, Nárnia. Lá uma feiticeira governa com pulso firme e o inverno é eterno, simbolizando o governo do mal. A presença das quatro crianças cumpre uma profecia que atribuia a eles o papel de libertar este mundo das mãos da bizarra rainha, uma criatura que é o mal em estado absoluto, ou seja, que pratica o mal sem outra intenção do que a própria maldade.

A chegada das crianças à Narnia desperta um movimento que se consolida com o retorno de um antigo rei, o leão Aslan. Trata-se evidentemente do leão de judá, o próprio Cristo, que deve passar por uma experência de sacrifício no lugar de um pecador (Edmund). Aparece a figura do calvário, o corte simbólico da juba do leão e a ressurreição, inclusive com o simbolismo da pedra quebrada, retomando a gruta onde o corpo de Jesus foi deixado.

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Ainda não li o livro de Lewis. Propositalmente deixei para fazê-lo depois de ver o filme; portanto não vou fazer nenhuma comparação com a obra escrita, apenas me reporto ao filme em si, com sua existência própria e autônoma.

O leão, a feiticeria e o guarda-roupa vai satisfazer tanto o público que deseja uma boa história de aventura, o que de fato é, como um público que deseja algo mais, desde que tenha capacidade de captar os simbolismos, uns óbvios e outros nem tanto, e algumas nuances como o uso da argumentação lógica por parte do velho professor que recebe os meninos. A fantasia pode ser um escape da vida real, mas pode ser também uma mudança de perspectiva para observá-la melhor, em seus fundamentos.

Visulamente é um filme muito bonito, especialmente na parte gelada. Tilda Swinton nos entrega uma feiticeira de primeira grandeza, com um olhar entre a fúria e maldade. Já Neeson fica meio deslocado na figura de Aslan, tentando soar solene mas de alguma forma seu tom não combina com o do personagem.

Um bom filme, honesto em seus propósitos, que prende atenção e diverte, o mínimo que uma aventura deve ter. Ainda consegue dar um tom mítico e religioso, tornando-o mais interessante, adicionando-lhe alguma profundidade. Particularmente não gosto muito das cenas de guerras animadas por computação, mas pelo menos as batalhas não se arrastam em sequências intermináveis que tanto satisfazem uns e causam tédio em outros. Um filme que consegue agradar vários públicos, o que em si só já é uma virtude.

u© MARCOS JUNIOR 2013