Birdman (2013)

Até quando vamos continuar nos enganando?


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A psicologia cunhou o tempo papel social para descrever a forma como nos apresentamos na sociedade, geralmente escondendo nossa própria natureza para interpretar um papel esperado. Shakespeare, bem antes de Freud e Jung, imortalizou essa equação ao colocar atavés de um de seus personagens “ o mundo inteiro é um palco e nós apenas atores”. O resultado é uma sociedade marcada pela hipocrisia, em que ninguém é exatamente o que parece. Representamos papéis que se traduzem em esteriótipos, que são passados adiante através da indústria de produção cultural, tanto na cultura de massas, através principalmente do cinema, como na cultura mais restrita intelectualizada, como nos teatros. Birdman coloca esses dois aspectos da cultura em contato e revela o problema das aparências. 

O filme é centrado em Riggan, talvez o melhor papel de Keaton em sua carreira, um ator que atingiu a fama ao viver um popular super herói dos anos 90 mas que abandonou no auge por querer uma carreira mais séria _ uma evidente paródia ao próprio Keaton e Batman. Depois de 20 anos de fracasso, investe tudo em sua última tentativa, uma peça na Broadway que ele adaptou do escritor Raymond Carver. As partes centrais do estereótipo estão dadas, o ator de hollywood que quer ser respeitado por seu talento e não pela venda de ingressos. Ou seja, há um hierarquia de talento que caminha na direção inversa do sucesso, tendo Hollywood e Broadway colocados como os polos opostos.

A partir daí uma série de personagens-tipo surgem em sequência: a filha relegada e perdida; o ator dramático egocêntrico, o empresário que vive uma relação amor-ódio com o ator, a atriz sem confiança em si mesma, a ex-esposa que não suportou a fama, a crítica esnobe, etc. Todos desempenhando seus papéis e todos estranhamente falsos. É interessante como a representação fiel de um tipo abstrato nos causa estranhamento: no fundo eles são incompatíveis com a realidade.

O filme então conjuga humor, ironia e drama na medida certa, colocando em evidência esses confitos. Um exemplo é a relação entre Sam e Mike. No início, eles representam seus papéis com a competência de sempre, a filha desajustada e o ator egocêntrico, mas logo abaixam suas guardas e se mostram como são, humanos acima de tudo. Só assim surgem as condições para uma ligação verdadeira, sem espaço para a mentira e a hipocrisia. É a utilização de um jogo infantil que coloca os dois fora de seus papéis e os conduz a um processo de auto-conhecimento.

Caba ressaltar que o papel que desempenhamos não é só para o próximo, mas para nós mesmos. Riggan desconhece seu próprio talento e acredita que realmente é uma fraude, tanto que tenta sempre cancelar os ensaios abertos. Seus diálogos com a voz de Birdman mostram a relação de um homem com seu subconsciente, o como não queremos assumir a verdade sobre nós mesmos. Aparência e realidade estão constantemente em conflito e desse conflito podem surgir as tragédias.

O diálogo chave para o filme é o confronto de Riggins com a crítica Tabitha. Ele chega na verdade quando aponta que ela se acomodou, que não tem a disposição e coragem para fazer uma verdadeira crítica, que apenas busca classificar os elementos de uma peça em categorias pré-determinadas, utilizando termos já gastos pelo uso, símbolos vazios de uma realidade que já não lhe interessa. Sua atitude é superior e de desprezo para tudo que não representa um ideal de cultura superior, representada pela Broadway. É tudo que um ator popular gostaria de dizer a um certo tipo de crítico.

Talvez a síntese proposta por Inarritu seja que a cultura popular e alta cultura não sejam totalmente estanques como imaginamos, que há interseções entre elas, que um filme ou algum aspecto da alta cultura podem atingir as massas ou que os apreciadores de uma cultura mais refinada podem se deliciar com a banalidade. A arte é a expressão da criatividade humana e tem mais força quando é verdadeira, seja feita de modo refinado ou de modo cru e direto. Birdman foi o grande papel de Riggis e apenas quando for capaz de aceitar seu próprio sucesso poderá seguir adiante e se firmar como ator, seu grande sonho. Ao invés de brigar com seu alter ego, é preciso superá-lo. O filme é a expressão de como os diversos aspectos de uma cultura podem se comunicar e a alta cultura pode se transformar em cultura popular pois Inarritu consegue levar às massas, ao templo de Hollywood, um filme que trata dessas questões difíceis e mesmo assim ser apreciado, mesmo que a maioria do público não tenha consciência de todas as questões envolvidas. Os grandes artistas têm essa estranha capacidade de transmitir uma mesma mensagem em diversos planos, para diferentes públicos. Inarritu nos entregou um belo filme, que nos dá muito o que pensar sobre nós mesmos e nossa relação com a sociedade.  


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u© MARCOS JUNIOR 2013