Conto de Outono

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 Magali, viúva, com os filhos ausentes, dedica-se sozinha a levar uma pequena vinícula a frente. Isabelle, casada há 23 anos, prepara-se para o casamento da filha. São duas mulheres na faixa dos 40 anos que enfrentam os desafios da entrada na terceira idade, com tudo que tem de bom e de ruim.

Eric Rohmer fez aqui um filme de contrastes. Magali vive no campo, tem pela terra uma veneração, se ofende com as instalações industriais que tomam a paisagem e começa a sentir os efeitos da solidão. Isabelle vive na cidade, trabalha em uma loja de livros, dedica-se à família. Não por acaso o filme começa com uma reunião familiar, algo que não existe mais para Magali. O próprio filho, que mora próximo, faz questão de não encontrar com a mãe. Em nenhum momento do filme, eles dividem uma cena.

Outro contraste é com Étienne, a namorada do filho de Magali. Jovem sonhadora e inteligente, divide-se entre a relação com o namorado imaturo e um romance terminado com seu professor de filosofia. Este só consegue relacionar-se com alunas, fugindo de pessoas de sua idade.

Tanto Isabelle quanto Étienne resolvem ajudar Magali a conseguiu alguém para dividir a vida. O contraste de métodos e objetivos é nítido. Étienne vê a chance de resolver um dilema próprio, conseguindo manter o professor por perto e criando um muro entre eles através do possível relacionamento dele com a amiga. Isabelle, mais experiente, sabe que a amiga não aceitaria um romance armado e resolve conseguir um pretendente que se encontre com ela por acaso. Para isso, resolve se fazer passar por uma interessada e através de um anúncio de jornal conhece um candidato e através de uma série de encontros vai testando-o. Um jogo perigoso como ela própria reconhece no fim, pois passou a sentir a atração de viver um romance.

O filme é uma meditação sobre o amor na maturidade, focando as diversas possibilidades. Há a solidão, a tranquilidade do amor consolidado, o homem que procura uma mulher no mesmo nível de maturidade, outro que procura meninas. A vida não termina aos 40, pelo contrário, traz novos caminhos que se não possuem a inocência do primeiro amor, está repleto das experiências acumuladas da vida de cada um. 

Mais um filme de Rohmer que demonstra porque ele foi diferente e não se encontra no nível da esmagadora dos cineastas de sua época. Comparado com os de hoje chega a ser covardia. Ninguém mais do que ele foi capaz de captar os dilemas morais e espirituais do século XX.


u© MARCOS JUNIOR 2013