Dark Knight Rises (2012)

Batman, o anti-revolucionário

Russell Kirk identificou como primeiro princípio conservador, e mais importante deles, a crença em uma ordem moral duradoura. O assunto é antigo e vem desde as reflexões de Sócrates e Platão, passando pelo trabalho monumental de Santo Agostinho e chegando aos pensadores ingleses da modernidade. Existe uma ordem moral independente do espaço e tempo, que vale para todo o sempre e está acima das sociedades humanas. O revolucionário acredita que a ordem é um produto da sociedade e fonte de todas as injustiças. Para que um novo mundo de justiça se estabeleça, trazendo o paraíso cristão para a esfera do mundo, é necessário destruir esta ordem e implantar um novo sistema de valores, mais adequado ao novo homem renovado, produto da revolução.

ordem x caos

Neste sentido, o Batman de Christopher Nolan é o anti-revolucionário por natureza, o que fica bem explícito no filme The Dark Knights Rises, de longe o melhor filme do cavaleiro das trevas feito para o cinema, superando o já excelente The Dark Knight. Não por acaso o filme tem por inspiração o clássico de Dickens "O Conto de duas Cidades", primeira obra da literatura a mostrar a imagem verdadeira da revolução francesa.

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Oito anos depois dos acontecimentos do filme anterior, Bruce Wayne encontra-se recluso, em clara depressão. O Batman foi aposentado e sem ele o milionário não encontra sentido para continuar vivendo. Lembrando do conceito de Victor Frankl, o sentido da vida é aquilo que só  você pode fazer; para Wayne este sentido é Batman. Um homem que vive sem esta noção de missão pessoal é uma presa para melancolia e depressão. Esta situação é fruto da  mentira que se estabeleceu como base da Gotham que emergiu do conflito com o niilismo do Coringa, que Batman teria matado o grande promotor Harvey Dent. Alguém já disse que nenhuma sociedade consegue se estabelecer dentro de uma ordem a partir de falsos princípios; Gotham exemplifica essa constatação. Por causa do desaparecimento de Batman, Wayne perde interesse por seus próprios negócios e por causa disso os lucros das empresas Wayne despencam. E com ela todo produto econômico de suas atividades, incluindo a filantropia.

Esse ponto é muito importante para conectar com o que vivemos hoje. Sem lucro não há filantropia pois nada resta para investir, seja na própria empresa ou seja na ajudo a quem precisa. Sem a dinâmica das empresas Wayne, toda ajuda deve se concentrar nas estruturas do estado, que sempre serão insuficientes para atender a todos. O resultado é uma Gotham claramente decadente e ressentida, um ambiente propício para surgir um contestador da ordem.

Esse homem é Bane, que como ele diz no primeiro confronto com Batman, nunca teve nada; a sociedade sempre foi para ele um peso, um inimigo. Enquanto o Coringa, representante do niilismo, queria destruir a ordem para implantar o caos, Baine é bem mais perigoso, quer destruir a ordem para implantar uma nova que faça justiça a todos que estavam a margem da sociedade, sofrendo as suas consequências.

O símbolo da ocupação da bolsa de Gotham não é por acaso e não foi inspirada no movimento Occupy Wall Street, embora deixe claro a alienação  do movimento. A polícia se encontra reticente em invadir o prédio e se arriscar por causa do dinheiro dos ricos. Alguém lembra a eles que não se tratava do dinheiro dos ricos, mas de todos eles, inclusive da pensão dos policiais. Portanto, não se trata de uma luta contra os tais 1%.

Bane derrota Batman e toma o controle de Gotham, que nada mais é que New York, estabelecendo um estado revolucionário; trata-se nada mais e nada menos que a revolução francesa, inclusive com seus tribunais revolucionários, chefiados pelo espantalho, onde a condenação já está definida entes de qualquer processo. A tão falada ordem burguesa é subvertida e a polícia de Gothan, que representa esta ordem, é aprisionada nos esgotos, onde anteriormente estava o exército de Bane. Fica clara a inversão de papéis na nova ordem.

Bane: We take Gotham from the corrupt! The rich! The oppressors of generations who have kept you down with myths of opportunity, and we give it back to you...the people...Gotham is yours. None shall interfere, do as you please!

Achando que sabe tudo

A Mulher Gato é uma espécie de Robin Hood, roubando dos ricos que, segundo ela, possuem tudo enquanto a maioria nada tem. Por diversas vezes trai Batman, chegando a entregá-lo a Bane. Ela é como a imensidade de inocentes úteis, revoltados com a ordem existente e que anseiam por uma revolução, por colocar tudo de pernas por ar. Quando a revolução chega finalmente, descobre que a coisa não é tão bonita como achava que seria e trata de se mandar.

Agora, um aviso: quem não quiser saber o fim do filme, pule direto para a conclusão. A partir daqui continue por sua conta e risco.

catwoman

Finalmente temos a pessoa da Madame Defarge, no filme a executiva ambientalista Miranda Tate, que na verdade é Talia al Ghul. Ela está por trás de Bane e por baixo de seu suporto amor pela natureza está o ódio ao ser humano e seu desejo escatológico de vê-lo desaparecer do planeta. Parece familiar? Por trás de todo revolucionário existe um poder dentro da ordem, apenas querendo eliminar concorrência para se tornar absoluto.

Como em Um Conto de Duas Cidades, fica patente que todo o chamamento por justiça é apenas um jogo de palavras, o que o revolucionário quer é vingança contra todos que acredita ser causadores de seu sofrimento. Por isso o tribunal revolucionário é uma grande mentira, seus réus já estão condenados simplesmente por pertencerem a determinado agrupamento humano e não por seus atos efetivos. Alguns nobres acreditaram que poderiam se beneficiar da Revolução Francesa por estarem a favor do "povo"; terminaram na guilhotina junto com os demais. Assim com Robespierre, ou o Bane, na versão de Nolan.

Finalmente temos Batman, que como Sidney Carton, deve passar por uma verdadeira revolução íntima para entender que deve ser capaz do último sacrifício para combater o mal que se espalha com a subversão da ordem.  Para salvar Gotham, Batman vai precisar se sacrificar, como Carton. Isso fica claro no diálogo com a mulher gato:

Selina Kyle: Sorry to keep letting you down.Come with me. Save yourself. You don't owe these people anymore, you've given them everything.
Bruce Wayne/Batman: Not everything. Not yet.


Conclusão

Dark Night Rising é um film rico em significados e simbolismos, principalmente com sua fidelidade à realidade. O mundo fantástico retratado por Nolan é o espelho do mundo em que vivemos, onde forças revoltadas ameaçam a todo tempo destruir a ordem imemorial que existe na eternidade do tempo. Batmam é o símbolo que luta contra esta grande mentira, de que podemos criar uma nova ordem contrária a esta, pois sabe, instintivamente ou não, que o resultado será o caos, um mundo sem honra e virtudes verdadeiras.

O mundo dos revolucionários, conforme o construído por Bane em Gotham, não pode durar pois baseia-se no que a humanidade tem de pior, o ódio. Nada construído sobre o signo da mentira, ou seja, que rompa com o real, pode durar muito tempo na história e só gerará sofrimento enquanto durar. É produto de monstros morais, que desprezam o ser humano concreto, em nome de alguma idéia de novo homem renovado, fruto da revolução. Essa escatologia adaptada da escatologia cristã é a grande fonte do mal em nosso tempo e ainda continua presente no coração de muita gente que simplesmente não aceita o mundo como ele efetivamente é.

O problema é que os Batmans do mundo são cada vez mais raros e os revolucionários descobriram que podem subverter a ordem de dentro dela, sem rupturas dramáticas, apenas esvaziando a ordem de todo seu sentido verdadeiro. Mas esta é outra estória, ou outro filme.

Dark Night Rising, apesar dos exageros de um filme de ação, consegue se colocar bem acima de quase todos os filmes do tipo, a ponto de se questionar se é na verdade um filme de ação, pois consegue o que há mais de 2000 anos o sábio Aristóteles defendia no seu livro Poética. O sentido da arte é imitar a realidade e explorar os limites das possibilidades humanas. Coisa que Nolan fez com maestria.


u© MARCOS JUNIOR 2013