Downton Abbey - Série

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Downton Abbey é um retrato honesto de nossa humanidade e ao mesmo tempo de uma sociedade que já não existe mais. Sim, é um novelão, uma soap-ópera, com alguns dos exageros , mas de excelente qualidade, quase que revigorando todo um gênero. 

A literatura popular possui um aspecto aventuresco e farsesco que conferem um grau de realismo muito maior do que o próprio estilo que ficou conhecido por este nome. O valor da arte está em sua verossimilhança, sua capacidade de imitar o mundo extraindo suas verdades mais profundas. O realismo, por outro lado, traz um mundo sem cor e pessimista, o que pouco lembra nossa experiência comum.

Pode-se dizer que Downton é uma história de dois núcleos que dividem o mesmo espaço, o da aristocracia rural inglesa, e o dos seus criados. Convivem em paralelo, ocasionalmente se tocando, mas com uma separação bem definida, os que vivem nos andares superiores, da casa e da própria sociedade, e os que vivem "downstairs", termo bastante utilizado na série.

Em 1912, esta aristocracia vive seus últimos dias e as mudanças vão aos poucos chegando em Downton, seja por símbolos como o telefone ou atitudes como o envolvimento da filha mas nova com a política. Todos percebem que aquele arranjo não durará mais por muito tempo e existe uma nítida expectativa de qual face esta sociedade assumirá. A grande questão é a velocidade com que estas mudanças ocorrerão.

Os personagens, com uma exceção, são capazes tanto de praticar o bem quanto o mal, erram e acertam, se arrependem em sentem remorsos, e por vezes tomam atitudes inesperadas, superiores ao que esperaríamos, tal como acontece frequentemente na vida real. Um exemplo é a própria O'Brien, em uma das melhores cenas da série, ao se olhar no espelho e perceber que tinha ido longe demais em uma de suas maldades. Seu remorso silencioso, expresso apenas por seu olhar, a humanizou em segundos e nos faz pela primeira vez sermos capazes de nos conectarmos a ela. Apenas Thomas mostra-se o autêntico sociopata, incapaz de qualquer sentimento por seus semelhantes, tendo sua vida completamente centrada em sua própria pessoa. Exige coragem dos autores em fazerem dele personagem gay, especialmente em tempos de politicamente correto. A condição sexual não implica em superioridade moral, como se tenta vender na cultura moderna; Thomas é gay mas não é por isso que é um sociopata. A melhor definição vem da divertida cozinheira: Thomas é uma alma atormentada.

Downton Abbey mostra uma abordagem mais honestas da aristocracia rural inglesa pois se concentra no que temos em comum. Nem anjos, nem demônios, apenas humanos. Nobres e criados compartilham da essência de nossa humanidade, o uso da razão, acertos e erros. A série mostra como é artificial a descrição desta sociedade como um eterno conflito entre ricos e pobres. O Lorde Graham encara sua posição como um dever, tanto em relação a sua família como para todos que ali vivem. Seu sofrimento e desconforto ao ter que demitir um empregado é nítido, assim como sua tolerância com seus erros. Normalmente é capaz de tomar melhores decisões do que suas filhas, mostrando sua ponderação, mas nem sempre. Em geral os pais têm razão e muito a ensinar, mas não são perfeitos, esta é a mensagem.

Os criadores da série foram extremamente felizes ao rejeitar  a narrativa crivada pela luta de classes. Ao contrário, nobres e criados estão constantemente se ajudando e prevalesce um respeito mútuo. A verdadeira divisão dentro da mansão se dá por afinidades e não por posição social. Em geral os nobres se interessam e procuram ajudar os empregados da casa, muitas vezes assumindo riscos. O mesmo se dá no sentido inverso. As poucas vezes que se fazem alianças dentro da classe contra a outra, o resultado é espúrio, como acontece frequentemente nos planos da criada O'Brien e o "frontman" Thomas. 

Quando se descobre que a criada Gwen pretende ser uma secretária, causa estranheza e perplexidade nos patrões, mas não é diferente entre os demais criados, e até pior, mostrando que a incompreensão pode ocorrer em qualquer círculo. Acaba sendo ajudada igualmente por outra criada e por uma das patroas, mostrando que mais que a classe é a idéia de justiça de uma causa que aliam os seres humanos.

Downton Abbey pode mostrar um exagero de situações e reviravoltas, próprio da literatura popular, mas é verossímil porque estas situações são possibilidades reais e refletem nossas escolhas. Sua realidade está no fato que a e maioria das pessoas procura no fundo acertar e a ignorância, que nada tem a ver com nível educacional, é a principal fonte de erros.Em geral queremos nos ajudar e são alguns Thomas e O'Briens que por vezes chamam tanto a atenção que nos levam  a acreditar que no fundo somos todos ruins. A grande verdade é que somos criaturas tentadas pelo mal e normalmente conseguimos nos controlar, mas nem sempre.

Mesmo esses dois não são os causadores dos principais conflitos, estão mais para o lado burlesco da série do que para um centro de maldades que fazem da vida dos demais um inferno. Como na vida real, pessoas boas fazem mal umas as outras, normalmente por ignorância e muitas vezes com as melhores intenções. São estes conflitos que fazem a espinha dorsal de Downton Abbey, especialmente quando percebemos que tem por base a nossa desconfiança ao amar, a nossa incapacidade de confiarmos uns nos outros. 


(texto escrito após assistir a primeira temporada). 


u© MARCOS JUNIOR 2013