Gran Torino (2007)

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Walt Kowalski não consegue mais entender o mundo em que vive, sabe que não pertence a ele. Seu desconforto com a própria família fica evidente no funeral de sua esposa ao deparar-se com o desfile de uma classe média endividada, sem muita perspectiva e ainda assim orgulhosa. A neta, com seus piercings, chiclete e atitude desafiadora, aos seus olhos, só mostra a falta de personalidade de quem é levada pelos modismos da época. O velho veterano da Coréia só consegue ver a decadência de seu país espelhado em seus descendentes.

Clint Eastwood é um dos últimos gênios do cinema. Gran Torino é uma visão triste da corrupção moral que tomou conta de grande parte dos Estados Unidos. O bairro onde Walt viveu por toda sua vida empobreceu e foi tomado por asiáticos, a ponto dos novos moradores se perguntarem o que ele ainda faz ali. O veterano não quer confrontar ninguém, apenas que o deixem em paz, não pisem em seu jardim e, principalmente, não forcem uma intimidade que não está disposto a ter.

Observa os vizinhos, imigrantes do Laos, como bárbaros com seus costumes estranhos. Obrigado a conviver um pouco mais com eles logo percebe que no fundo eles são tradicionalistas e com forte laços de família. Walt vê em seus vizinhos a família que poderia ter tido, os herdeiros que poderia ter deixado. Vê nos imigrantes o que foi perdido em seu próprio país. Clint Eastwood ainda dá uma estocada na retirada do Vietnã (e do Iraque?) com uma frase da jovem oriental: nós lutávamos do lado de vocês até vocês terem desistido. Fugiram diante dos massacres dos comunistas vietnamitas. Foram para os Estados Unidos em busca da liberdade que perderam em seu país.

O Cineasta, observem a inicial maiúscula, não traz nenhuma solução. Não há uma mensagem de esperança no filme, não há uma lição a ser aprendida. Apenas a constatação que o mundo não é mais o que era e que este novo mundo pode não ser o progresso que se esperava. É impossível não pensar no Império Romano ruindo diante das invasões bárbaras. Não foram estes que o derrubaram, mas a própria decadência moral de Roma. Walt não soluciona o problema de ninguém; apenas tem o mérito de perceber o que está acontecendo e, principalmente, sua incapacidade de lidar com a nova realidade.

Outro ponto importante do filme é a relação de Walt com o jovem padre que prometeu a sua esposa conseguir sua confissão. Humilha de todas as maneiras o religioso, que vê apenas como mais um exemplo da juventude que aprendeu a desprezar. Como o tempo se rende ao senso de dignidade do padre e percebe que nem todos se deixam levar pela velocidade da descida ao abismo. Existem jovens que mantém uma ligação com o passado e conseguem visualizar o que vêem e resistir ao espírito da massa.

A angústia do filme vem da constatação que estas vozes são isoladas, sem conexão uma com as outras. A violência resultante de um mundo sem valores é mais forte e cíclica. As gangues continuarão impondo-se pelo terror, as pessoas continuarão preocupadas com seus próprios umbigos

Gran Torino é um filme que perturba pois apresenta a primeira realidade descrita por Musil e Voegelin, o mundo como ele é. Infelizmente as pessoas estão imersas na segunda realidade, o mundo que inventaram em suas cabeças para dar algum sentido e uma falsa esperança para a tristeza de nossa queda. Estes mundos entram em conflito constantemente. Muitos escolhem o caminho de Don Quixote e ignorar as evidências do real, viver no mundo que compreendem em suas mentes. Outras optam por moldar a primeira realidade de acordo com a segunda. Daí surge a violência em todas as suas formas, até mesmo a opressão mental. Clint Eastwood é uma das raras mentes do cinema que estão dispostas a descer ao abismo da compreensão verdadeira e subir mantendo a sanidade.

A maioria está preocupada apenas em fazer filmes sobre a segunda realidade e vendê-la como a primeira. E ganham Oscars por isso.


Quote:


Father Janovich: What can I do for you Walt?

Walt Kowalski: I'm here for confession.

Father Janovich: Holy Jesus, what did you do?


Walt Kowalski: The hardest thing a man has to live with about war isn't the things he does that he was ordered to do. It's the things he does that he wasn't ordered to.

u© MARCOS JUNIOR 2013