Lincoln (2012)


O que faz um líder



lincoln

Lincoln está longe de ser uma obra prima ou um grande filme histórico como Gandhi ou Os Últimos dias de Hitler, mas também não é um filme fraco. Trata-se de um bom filme que mostra a importância da liderança nos momentos cruciais da história, característica fundamental de Lincoln. Embora muitas vezes as circunstâncias sejam favoráveis, necessita-se de líderes para conduzir um movimento para efetivar a ação. De certa forma, Lincoln rebate a teoria das forças abstratas da história. Nada de poder econômico, o povo, a sociedade, o congresso, etc. O filme é sobre um presidente, Lincoln, e os representantes no Congresso, homens com suas convicções e medos, como todos nós. São eles que efetivamente fazem a história.

O filme retrata as semanas que antecederam a 13ª emenda à constituição americana, a que legalmente colocou fim à escravidão no país. Na verdade, alguns anos antes, em 1863, utilizando os poderes excepcionais de um presidente em guerra, Lincoln tinha decretado a emancipação dos escravos nos territórios confederados. E por que só lá? Porque o exército da união encontrava-se em guerra dentro do território sulista e a estratégia de Grant era o da guerra total, com o confisco e distribuição de propriedade. Para evitar que os negros escravos fizessem parte dos despojos de guerra, como propriedade, Lincoln tinha decretado sua liberdade.

Com o fim da guerra se aproximando, havia a expectativa que estes atos fossem anulados pela suprema corte, o que resultaria no retorno da situação de homens a condição de escravos. Mais ainda, Lincoln temia que a emancipação se tornasse um assunto delicado demais a ser tratado com o retorno dos estados do sul à união. Para ele, o momento era aquele, quando a confusão ainda estava formada. Para tanto, tinha que negociar com a câmara dos Deputados onde o Partido Republicano, apesar da maioria, não tinha os votos necessários para conseguir a aprovação. Além dos votos do partido, Lincoln precisava de 20 votos dos democratas.

Mais que histórico, é um filme político, em que Spielberg apresenta as muitas vezes tensas negociações que ocorrem entre os deputados e o governo. Não se trata propriamente dos bastidores, mas da própria essência do processo democrático. 

Lincoln é retratado como um líder que conduz o processo. Um líder extremamente moderno pois raramente se impõe ou se envolve pessoalmente nas negociações. Seu papel é o de orientar, dar a direção, e deixar que seus homens atuem em seu nome. Seu participação pessoal efetiva ocorre nos momentos decisivos ou quando esgota a capacidade de seus assessores em resolver a questão. Muitas vezes escuta mais do que fala, outra virtude que um líder deve cultivar.

As melhores cenas do filme para mim são justamente aquelas em que Lincoln está sentado enquanto debates acalorados ocorrem ao seu redor. As expressões de Daniel Day Lewis são perfeitas, revelando um homem com um ideal e a vontade de colocá-lo em prática. Quando a discussão está no auge, assume a palavra. E o que faz? Dá murro na mesa? Ameaça? Não. Simplesmente explica suas intenções e motivações. Seu papel é extremamente didático. Pacientemente explica porque a emenda tem que ser aprovada naquele momento, os riscos que está considerando, a estratégia que deve ser feita. 

Uma das características de um líder é conduzir um grupo de homens a um propósito comum. Os republicanos não foram convencidos por Lincoln a emancipar os escravos, a grande maioria já tinha esta convicção, alguns até mais radicais nesse aspecto do que o próprio presidente. O que faltava era alguém que organizasse a vontade dispersa em um esforço coordenado e voltado para o objetivo proposto. Justamente o que Lincoln faz.

E por que o filme não é excelente? Porque Spielberg cometeu dois pequenos pecados que poderiam ser simplesmente retirados do filme, tornando-o artisticamente superior.

O primeiro foi o foco nas tramas paralelas da vida pessoal de Lincoln como a relação com o filho e a esposa. Algumas poucas cenas bastariam para caracterizar seu lado familiar de forma bem mais sutil e eficiente. Aquele lenga à lenga de pai e filho já foi explorado à exaustão no cinema e não acrescenta nada a estória do filme. Ficou um melodrama de televisão perdido no veículo errado. O mesmo vale para Mary Lincoln e sua constante presença no balcão da câmara. Toda hora que Spielberg a mostra a impressão é que ela está no lugar errado, que não pertence aquele momento histórico. Sem contar a cena da briga doméstica do casal, sobre a pretenção do filhe mais velho, uma das piores do filme.

O segundo pecado foi o final do filme. Spielberg perdeu a mão na nora de terminá-lo e produziu uns dos minutos adicionais mais dispensáveis da história do cinema. O filme poderia perfeitamente terminar na aprovação da emenda e ponto. Tudo o que veio depois chega a ser constrangedor porque aborda superficialmente eventos profundos e importantes, como a rendição de Lee e a morte de Lincoln. 

Uma obra de arte tem que ter a medida certa, como ensinava Aristóteles. Lincoln é um bom filme, que vale o ingresso, mas que perdeu uma oportunidade de ser excelente pelo excesso de cenas e tramas paralelas. Tivesse ficado no essencial, a aprovação da 13ª emenda, teria sido um dos grandes momentos do cinema moderno. Pena que derrapou.


u© MARCOS JUNIOR 2013