Man of Steel (2013)

Superman é mais que um filme de super-herói, á a recriação mitológica de um grande conflito, da sociedade perfeita e racional e a da sociedade da imprevisibilidade, da possibilidade de falha. Trata-se de uma das maiores defesas do livre arbítrio, essência de nossa humanidade, já feita dentro da cultura de massa.  Um chute na cara dos coletivistas, nos que acreditam que vale a pena renuciar à liberdade para ter uma existência previsível e feliz.

Quando vi que o Christian Nolan estava envolvido no projeto, e que teria escrito  a história junto com David Goyer, autor do roteiro, apostei que viria coisa boa. Não me decepcionei. Man of Steel é o melhor filme já feito sobre o homem de aço, superando até os dois primeiros e bons filmes protagonizados por Christopher Reeve. Aos poucos, vários filmes de super-heróis vão se constituindo em grandes reflexões sobre a condição humana, como é próprio das mitologias. 

A história mistura conceitos dos dois primeiros filmes com Reeve. Conta e história da destruição de Krypton, a vinda do bebê para a terra, assim como a do General Zod, o líder militar que promove um golpe de estado pouco antes da destruição do planeta e termina exilado. Superman tem então que enfrentá-lo e impedir que transforme a Terra em uma nova versão de Krypton, que implicaria na destruição da raça humana.

Krypton

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Sociedade perfeita?

Krypton nada mais é do que a recriação da sociedade exposta por Platão em a República. Nela, os cidadãos são educados desde a infância para assumir papéis definidos na sociedade, especialmente os de guerreiros (Zod), filósofos _ na época de Platão não havia distinção acadêmica do cientist _ (Jor-el), e os liderados. O sistema de governo é um conselho de sábios, os reis filósofos, que tomam as decisões em um sistema democrático. Há elementos também do Admirável Mundo Novo de Huxley pois os bebês nascem todos fora da barriga das mães, através de processos de reproduzem as condições uterinas, implicando na provável  manipulação genética.

No meio do caos de uma destruição eminente, nasce Kal-el, o primeiro bebê nascido naturalmente em séculos no planeta. Confrontando Zod, Jor-el diz que o menino seria livre para determinar seu próprio destino, uma das questões essenciais do filme. Não pode haver liberdade sem escolha. O planeta representa o que acontece quanto a decisão individual deixa de existir em função de um interesse coletivo maior, justamente o que Platão apresenta em A República, e que foi entendido por muitos como uma defesa pelo filósofo de uma sociedade perfeita, a primeira utopia da história, ao invés da crítica de sua impossibilidade.

Um ponto interessante é que anos depois, quando Kal-el se depara com a consciência do pai e pergunta sobre o que deu errado com Krypton, a primeira reposta será que o controle populacional foi criado. Mais uma teoria racionalista que é criticada no filme. Jor-el complementa:

Your mother and I believe that Krypton could produce something more valuable. Element of choice. What if a child chose not to into what has determined by the community? What if a child chose to into something bigger?

É este elemento de escolha que nos faz humanos, como já advogava Santo Agostinho nos primeiros séculos da era cristã.

Kansas

Através de flashbacks, uma escolha inteligente, mostra-se mais que a infância e crescimento de Clark, mostra-se como as grades questões vão se colocando para ele. Em um dos primeiros diálogos em que aparece Jonathan Kent, o melhor papel de Kevin Costner em anos, ele diz ao assustado garoto que a sua existência levaria a humanidade a se perguntar o que significaria ser humano. Seu pai terreno sabe que sua existência seria um fardo, mas que acreditava que o menino estava lá por uma razão, mas que não era um Deus, que não poderia salvar toda a humanidade e teria que aceitar muitas vezes o papel do acaso em nossas vidas.

Ensina o garoto que ele geraria medo, pois a humanidade teme o que não conhece. Se sua constituição física vem de Krypton, é nos valores familiares do Kansas que Clark obtém suas lições preciosas de moralidade e distinção do certo ou errado. Seus poderes eram imensos, quase divinos, mas não poderia implicar em uma tutela da humanidade. Clark teria de entender que o ser humano precisa da liberdade para falhar e fazer decisões tolas, como se arriscar no meio de um furacão para salvar um cachorro que ficou preso dentro de um carro. 

You're weak, son of El. The fact that you possess a sense of morality and we do not gives us an evolutionary advantage. And if history has proven anything, it is that evolution always wins!

Faora estava errada, é justamente o senso de moralidade que fará a diferença para o Superman, que lhe dará a clareza de propósitos para escolher sempre o bem. A moralidade sobrevive aos homens, ela é atemporal, ao contrário do que pensam os relativistas. Sociedades em todas as épocas, e todas a religiões, sempre souberam que há algo profundamente errado em tirar a vida de outro ser humano, não foi preciso uma pedra no alto do sinai para ensinar isso à humanidade. Ela só lembrou o que o homem sempre soube.

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Homem ou Deus?

Nolan reforça em seu filme o paralelo da história do superman com a de Jesus Cristo. Ambos nascem em um parto especial, ambos são recebidos na terra por pais que recebem a intuição de criá-los até que o momento que sua aparição ao mundo aconteça. Por duas vezes no filme Clark revela sua idade, 33 anos. Mais explícito, impossível.

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Os novos centuriões

Todas as conversas de Jonathan com o filho podem ser imaginadas como conversas de um humildade carpinteiro, José, com seu filho, preparando-o para as provações que teria que enfrentar. E para um momento que deveria se sacrificar por toda a humanidade, se assim fosse seu destino. Quando Clark se entrega ao general americano, embora tivesse poder suficiente para romper todas as amarras, não é diferente de Cristo diante de Pilatos. Da mesma forma que os sacerdotes de Jerusalem não o aceitaram como salvador, os guerreiros de Krypton, representados por Zod, não aceita Clark como sua própria redenção.

Muita gente boa chegou a dizer que Man of Steel era a história de Cristo. Não é; ao contrário do Messias, ele é falível, toma decisões erradas, tem explosões de ódio e chega perto de machucar algumas pessoas, tendo que se controlar por diversas vezes. Se possui inegavelmente uma boa índole, ela não é perfeita. Ele não se coloca como a salvação da humanidade, mas como um símbolo de esperança.

Clark lembra ao homem que o poder é um instrumento, que pode ser usado para o mal, mas sobretudo pode ser usado para o bem. Que existe algo chamado responsabilidade moral, que temos que ser consequentes em nossos atos. Se um alienígena com poder imensurável é capaz de amar a humanidade, por que não seríamos capazes de fazer o mesmo?

Efeitos Colaterais

Uma das principais questões teológicas sobre o cristianismo tratada por diversos filósofos é se Deus é perfeito, por que permite o mal na terra? Por que ele simplesmente não impede que o mal seja praticado usando seu poder infinito? Muitos reputam nessa questão a grande fragilidade do cristianismo,  como a prova maior da não existência de Deus, pelo menos de um Deus de infinita bondade como afirmaram os cristãos ao longo dos séculos.

A resposta foi dado há muito tempo por Santo Agostinho, chama-se livre arbítrio. O homem é livre para escolher e essa é a essência de sua humanidade. Ser livre significa poder escolher entre o bem e o mal, poder errar. Se só pudesse optar pelo bem, o homem não seria livre e seu amor, tanto por Deus quanto ao próximo, seria sem valor, sem mérito. Quando o homem escolhe o mal ele gera efeitos para si e para o próximo; assim as coisas ruins acontecem. 

Quando o bem e o mal combatem, e são representados por forças descomunais, como Superman e Zod, os efeitos colaterais também são colossais. Nenhuma destruição no filme é por acaso, Metrópolis é arrasada pelo combate de ambos, com milhares de vítimas, porque esta é a estrutura da realidade. Inocentes são atingidos sempre que forças antagônicas se enfrentam, sejam guerras ou mesmo acomodações planetárias, com seus terremotos e furacões. São momentos em que a humanidade aturdida, incapaz de enfrentar o foco da destruição, não tem outra coisa a fazer do que ajudar uns aos outros e depois reconstruir o que foi perdido. Por que é assim? Esta é uma questão muito mais profunda, fora do alcance de um review ou até mesmo de uma especulação filosófica menos séria, talvez até fora do alcance da mente humana. 

Conclusão

Sometimes, you have to take a leap of faith. The trust part comes later.


Retomando ao ponto central do filme, a esperança, não por acaso uma das chamadas virtudes teologais segundo São Tomás de Aquino. No entanto o filme vai além e é possível identificar as outras duas virtudes, fé e caridade. Inseguro se deve se entregar aos militares para ser entregue a Zod, ele diz a um padre que não confia na humanidade. A resposta do religioso é direta: algumas vezes você deve deixar tudo com a fé, a confiança vem depois. A caridade é representada pela própria relação do homem de aço com a humanidade. No entendimento dos filósofos cristãos, e dos antigos gregos, ela se traduz no ato de amor para quem precisa, para quem é de alguma forma mais fraco. Justamente o que o Superman exemplifica por diversas vezes.

A cidade dos homens, na filosofia de Santo Agostinho, é a nossa sociedade, onde homens e mulheres tomam decisões durante todo o tempo, optando entre o bem e o mal. O resultado dessas decisões são as próprias escolhas da sociedade, ora se aproximando de Deus, ora se afastando. Krypton abriu mão de sua liberdade pela promessa de uma sociedade perfeita produzida pela própria razão, confiante em sua própria capacidade de moldar o seu destino. Ao ser destruída nada sobrou, pois a criação humana é falha à media que nós somos seres imperfeitos.

 Em Man os Steel, é a tradição cristã, o entendimento que precisamos de fé, esperança e caridade, que existem coisas que nos transcendem, e que não podemos definir o futuro de nossa própria civilização, que suplanta o falso sonho das ideologias, o da sociedade perfeita. Quando Superman entra no Planeta Diário, no fim do filme, como Clark Kent ele inverte toda a simbologia de um super-herói. Usualmente trata-se de um ser humano que adquire uma personalidade simbólica para enfrentar o mal. Superman é o contrário, trata-se de um verdadeiro super-herói que decide ser humano, e viver entre nós, como o Cristo que veio para vier na carne. Bruce Wayne era Bruce Wayne antes de se tornar o Batman. Superman era Superman antes de se tornar Clark Kent. Ao invés de salvar a humanidade, ele veio para se tornar parte dela e ajudá-la a seguir seu próprio caminho. O Superman sempre viverá a tensão entre ser Kal-el e Clark Kent, entre ser um Deus e um homem, em deixar que os homens tomem suas próprias decisões. 




u© MARCOS JUNIOR 2013