Manhattan (1979)

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 O primeiro filme que vi de Allen, lá pelos meus 14, 15 anos, foi "Tudo que você sempre quis saber sobre sexo...". Um título interminável que nem vale a pena citá-lo todo. Achei engraçado, até porque a idade era propício para isso. Vi "Noivo Neurótico, Noiva Nervosa" _ um dos grande exemplos de títulos imbecis para filmes estrangeiros _ ainda naquela época e desisti do cara. Era muito chato.

Alguns anos depois, assisti "Poderosa Afrodite" por causa do Oscar da Mira Sorvino, quando ainda ligava para esse tipo de coisa. Achei sem pé nem cabeça. Por fim, acho que ano passado, vi "Annie Hall" novamente e comecei a entender um pouco do cara. Na verdade, comecei a perceber que um bom filme começa com bons personagem, principalmente se forem reais. Exatamente o que tinha em Annie Hall.

Voltei à carga este ano e agora foi a vez de Manhattan, o filme em preto-e-branco que Allen filmou em 1979, ainda na esteira de Annie Hall. O personagem principal do filme é o do título. Nunca fui em Nova Iorque, talvez nunca vá, mas uma vez João Pereira Coutinho disse que ninguém nunca será capaz de enxergar a cidade como o cineasta. Nem a verdadeira Nova Iorque consegue rivalizar com a que Allen mostra em seus filmes.

Para mostrar Manhattan, uma série de personagens interessantes que retratam bem o período confuso que foi os anos 70. Ninguém estava satisfeito com ninguém, pelo menos até o momento que se separavam. A partir daí misturavam-se arrependimento e descoberta em uma confusa relação de sentimentos.

Isaac, personagem de Allen, é um narcisista. Não tem a mínima hesitação em concordar que é uma pessoa engraçada e culta. Não consegue entender porque a ex-esposa o trocou por outra mulher, tem uma namorada de 17 anos que dedica  tempo a "educá-la" e desfilar seu entendimento da vida. Não é por acaso que se sente pessoalmente atingido quando conhece Mary que não só é uma intelectual, como tem opiniões diversas da sua. O fato dela ter discordado dele, principalmente em frente da jovem Tracy, o tira do sério.

Mary é amante de seu melhor amigo, que também não está muito satisfeito com a esposa. Quando este resolve se livrar da amante, acaba empurrando-a para Allen que por sua vez termina com Tracy. O interessante é que Isaac lembra Tracy sempre para não se apaixonar por ele, da mesma forma que a ex-esposa dele também o avisara.

Começa o círculo dos arrependimentos. Invariavelmente os personagens se arrependem das escolhas que fizeram e procuram voltar aos relacionamentos que acabaram de deixar. No fundo, são pessoas perdidas em uma sociedade cada vez mais materialista e individualista. Tanto Yale quanto Isaac e Mary estão apenas preocupados com si mesmos e não conseguem se colocar no lugar das pessoas que supostamente amam.

Tracy, ainda uma adolescente, ao contrário, é extremamente madura para sua idade e sabe com clareza o que quer. Allen conseguiu ser habilidoso ao criar um romance entre um homem de 40 anos e uma menina de 17 sem chocar, justamente por mostrar a jovem como mais desenvolvida que o próprio Isaac.

O fim é muito criticado, mas pessoalmente acho que erraram o ponto. Era justamente o final mais coerente para um homem que apesar de muitas vezes cínico, narcisista e orgulhoso, tinha uma vontade sincera de ser uma boa pessoa, como atesta seu escrúpulo em não se envolver com a amante do seu melhor amigo, coisa que depois não foi retribuído.

No fundo, todo o sistema de defesa que Isaac tinha montado em relação a Tracy não era para protegê-la de um homem mais experiente e de sua própria inexperiência no amor. Era justamente o contrário, era para protegê-lo de apaixonar-se por alguém tão jovem.

Não sei se comecei a entender Woody Allen, mas acho que comecei a apreciar seus filmes. O que implica que tenho muita coisa pela frente para assistir. Ainda bem.

(Agosto, 2010)

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