Noites de Lua Cheia (1984)

Perdendo a razão



Quem tem duas mulheres, perde sua alma;

Mas quem tem duas casas, perde a razão.



Louise mora com o namorado, mas não consegue abandonar a vida de solteira. Gosta e sair, dançar, conhecer pessoas, da agitação de Paris. Remi gosta de ficar em casa, no subúrbio de Marne. Nenhum dos dois parece muito disposto a ceder em seus gostos pessoais para que os interesses sejam harmonizados. Finalmente, ela resolve manter um apartamento em Paris onde pode passar as sextas feiras como se fosse solteira, retornando apenas no sábado. Trata-se do sonho de muitos de ter uma vida  dupla, onde mais do que viver em dois lugares, tenha duas vidas independentes.

Parte da série Comédias e Provérbios, onde a partir de um provérbio Eric Rohmer constrói uma comédia, Noites de Lua Cheia explora os problemas de tentar ser duas pessoas ao mesmo tempo. Quem tem duas casas, perde a razão. Essa é a estória de Louise, uma mulher encantadora, cheia de admiradores, que acha que pode administrar racionalmente sua vida amorosa. Claro que se perde totalmente pois, na vida real, o relacionamento entre duas pessoas, não está sujeito a esse tipo de determinações. Interessante que ao comunicar sua decisão para Remi Louise faz uma lista de razões e condições para a nova situação, e todas vão sendo derrubadas ao longo do filme, quase que um roteiro da perda da razão do provérbio.

No fundo, o relacionamento de Remi e Louise parte de um sério problema, a pré-disposição de ambos em viver como viviam antes. Nenhum dos dois quer mudar suas atividades, seus hábitos, em função do outro, por amor ao outro. Falta o sentido de compromisso, de querer o que o outro quer, de ceder um pouco cada um, base de qualquer relacionamento duradouro. Ambos querem as benesses do relacionamento, mas não querem os custos, simbolizados pela intransigência dele com o jogo de tennis dos sábados pela manhã e dela pelas festas das sextas à noite.

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A vida tem muito de ilusões e decepções. Louise não consegue a vida de solteira que queria, muitas noites acaba sozinha no apartamento. Brinca perigosamente com o sentimento, como no relacionamento com o amigo Octave, ou no jogo de sedução com um jovem que conheceu em uma festa. Tentando agir racionalmente, procura conduzir sua própria vida. Mas quem disse que a vida pode ser controlada dessa maneira?

Não existem inocentes nessa estória de Rohmer, que expõe a geração dos trinta e poucos na década de 80, tentando harmonizar qualquer noção de compromisso com a promessa da liberdade total. Aliás, querem mais do que harmonizar, querem a liberdade total sem compromisso para si e o compromisso sem a liberdade para o próximo. No fundo, trata-se de uma fábula sobre o mais antigos dos temas da literatura, a vaidade e o egoísmo. Esses dois vícios que constantemente andam juntos, alimentando um ao outro, e que terminar por levar ao fracasso pessoal.


Julho, 2013

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