O Galante Mr Deeds (Mr Deeds Goes to Town, 1936)

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Meu cunhado disse outro dia que o capitalismo não pode estar certo. Retruquei que não era uma questão de estar certo pois o capitalismo não era uma ideologia que foi colocado em prática por grande parte dos países do mundo. Quando Adam Smith escreveu A Riqueza das Nações, ele não propôs um modelo econômico para o mundo, como Marx fez com o comunismo. Smith apenas retratou o que existia em comum entre as nações mais ricas de seu tempo e estas características ficaram conhecidas como capitalismo.


O capitalismo nada mais é do que a liberdade do homem aplicada à economia. Livre mercado, liberdade de dispor do próprio trabalho, liberdade para comprar e vender. Não é uma utopia a ser conquistada que redimiria o homem na terra, nada tem a ver com ética. O sistema capitalista reproduz o que o homem tem de melhor e pior, o que traduz sua força e também sua fraqueza. Uma sociedade doente apenas praticará um capitalismo doente pois o sistema leva para a economia o próprio homem.


Isso fica bem evidente neste clássico de Frank Capra. Longfellow Deeds é um homem simples, que nunca saiu de usa pequena cidade de Mandrake Falls, que de repente torna-se herdeiro de uma fortuna. Para cuidar de sua herança, é obrigado a ir para Nova Iorque onde passa a travar contato com uma série de aproveitadores interessados em seu dinheiro. Como fica evidente, o dinheiro é um meio para atingir um fim. Cabe ao homem decidir qual será este fim.


Capra rejeita a solução fácil de que o dinheiro corrompe o homem. Em nenhum momento isso acontece com Deeds, pelo contrário, sua honestidade e firmeza de caráter consegue trazer para o bem algumas das pessoas que trava contato mostrando que o bem também tem capacidade de se espalhar. Aliás, esta é a única forma de conversão que existe no filme, o chamado à virtude.


Deeds pode ser um simplório mas tem ao seu lado uma arma infalível, o bom senso. São regras básicas que o guiam em um mundo repleto de iniquidades e hipocrisia. Quando resolve desfazer de sua fortuna, ajudando fazendeiros que perderam suas terras, não se limita a dar dinheiro. Quer dar a eles uma oportunidade de produzir e superar a miséria por seus próprios esforços, dando terra, meios e um prazo para que provem ser merecedores do investimento. A caridade não pode vir sem a justiça, como evidenciou em sua última encíclica o papa Bento XVI.


Claro que é incompreendido. Para as pessoas guiadas pela ganância e amor ao dinheiro, suas atitudes só podem ser guiados por um louco. Deeds vai a julgamento onde tem de demonstrar sua sanidade, um espetáculo surreal apresentado por um grande diretor. Não é Deeds que está em julgamento ali, mas a capacidade do homem de dar sem esperar nada em troca.


Frank Capra nos presenteou com um filme sensível que ressalta o papel do homem, individualmente, em promover o bem. Por ter recebido uma grande herança, Deeds possui uma responsabilidade maior do que o homem comum e ele é o primeiro a entender. Não quer fazer nada com o dinheiro sem pensar muito pois precisar dar um fim digno ao que recebeu. Um sistema baseado na liberdade não é imperfeito por si próprio, mas sim pelo próprio homem em sua imperfeição. Curem o homem e curarão a sociedade. Esta é a principal mensagem que Capra quis no passar com este bonito filme.


Quote:


Longfellow Deeds: [to the Court] From what I can see, no matter what system of government we have, there will always be leaders and always be followers. It's like the road out in front of my house. It's on a steep hill. Every day I watch the cars climbing up. Some go lickety-split up that hill on high, some have to shift into second, and some sputter and shake and slip back to the bottom again. Same cars, same gasoline, yet some make it and some don't. And I say the fellas who can make the hill on high should stop once in a while and help those who can't. That's all I'm trying to do with this money. Help the fellas who can't make the hill on high.

u© MARCOS JUNIOR 2013