O Homem que Não Vendeu sua Alma (1966)

O poder de uma consciência


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A idéia de uma legitimação do poder político sempre existiu, mesmo nos governos mais despóticos. Seja na ligação com o divino, na representação do povo, uma constituição, ou mesmo num ideal, todo governante, por mais poder que reunisse em suas mãos, sempre buscou algo que justificasse esse poder. Henrique VIII, monarca absolutista inglês, não foi diferente.

Mas antes de chegarmos no rei, temos que tratar de um súdito muito especial, Thomas More. Advogado, More era muito respeitado por uma virtude essencial: a honestidade de propósitos. Em um reino não é preciso que sejam todos honestos, mas é preciso que alguns sejam. Tem que existir uma certa reserva moral na nação que diga se o governante está de acordo com princípio de legitimação do poder. Muitas vezes esse papel é ocupado por uma instituição, como o partido comunista soviético ou um exército nacional; outras, em um tipo de homens como os profetas de Israel; mas, por vezes, alguns indivíduos adquirem a capacidade de encarnar essa espécie de poder acima do poder, a voz capaz de dizer se o governante não está traindo o ideal que encarna.

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Henrique VIII tinha um problema, como declara a certa altura Thomas Cronwell, chefe do Ministério do rei. Casado com Catarina de Aragão, que falhava em lhe dar um herdeiro, ele queria que o Vaticano anulasse seu casamento para poder se casar com Ana Bolena, sua amante. A história é conhecida. Sem conseguir a aprovação do Vaticano, o rei promove uma cisão com Roma e se declara chefe da Igreja da Inglaterra, dissolvendo seu próprio casamento. Para ter legitimidade no reino, ele deseja a aprovação de todos os cavaleiros, mas esbarra na consciência de seu Lorde Chancelor, seu principal conselheiro, Sir Thomas More. Henrique VIII tenta convencê-lo de todas as formas, levando o próprio More a perguntar ao rei porque sua aquiescência era tão importante se tinha a de todos os outros. A resposta do rei define  a problemática do filme:

Because you're honest... and what is more to the purpose, you're KNOWN to be honest. There are those like Norfolk who follow me because I wear the crown; and those like Master Cromwell who follow me because they are jackals with sharp teeth and I'm their tiger; there's a mass that follows me because it follows anything that moves. And then there's you...

Rompido com a Igreja e cercado de interesseiros de toda espécie, Henrique VIII via em Thomas More a personificação da honestidade e por isso era a legitimidade que precisava, talvez até com sua própria consciência. Só que More era incorruptível. Mais que tudo, como católico fiel, ele temia perder sua própria alma.  Chesterton sempre chamou atenção que o homem que não se submete a Deus, que decide ser livre em relação ao divino, vive com medo dos outros homens; aquele que aceita se submeter, e teme a Deus, não teme nada mais. Thomas More teme profundamente Deus, e por isso é livre de temer os homens. Não há nada que possam fazer com ele que seja mais terrível do que se deixar corromper. O Conde Norfolk, um velho amigo, pede que ele assine o documento de apoio ao rei em nome da camaradagem que os une. More responde:

E quando você for para o paraíso, por ter seguido sua consciência, e eu para o inferno, por não ter seguido a minha, você me acompanhará, por camaradagem?

O filme mostra que um homem deve se agarrar a algum princípio que o transcende, sob pena de se tornar um passageiro de sua própria vida. Thomas More sabia que a lei não poderia ser violada nem por uma boa causa, muito menos pelo que considera uma traição. Em outro momento memorável, seu genro pede que mande prender Richard Rich, um cavaleiro inescrupuloso que só desejava subir na hierarquia do poder,, um tipo sempre atual.  More se recusa e diz que Richard não tinha violado nenhuma lei. Seu genro retruca, ele violara a lei de Deus. Pois Deus que o julgue, reponde More. Robert avança a grande tentação do político de ontem e de hoje, daria More a lei para proteger o demônio? A resposta de More vale um tratado de política:

Oh? And when the last law was down, and the Devil turned 'round on you, where would you hide, Roper, the laws all being flat? This country is planted thick with laws, from coast to coast, Man's laws, not God's! And if you cut them down, and you're just the man to do it, do you really think you could stand upright in the winds that would blow then? Yes, I'd give the Devil benefit of law, for my own safety's sake!

Ao se permitir violar a lei para uma causa que se julga justa, abre-se o caminho para que a lei possa ser violada no futuro por qualquer propósito. More explica que a lei é a proteção do homem comum contra o abuso do poder. Se este mesmo homem permitir que ela seja violada, nada o protegerá, no futuro, contra esse mesmo poder. É uma resposta do passado ao homem de hoje, que tantas vezes advoga a suspensão do estado de direito para se punir um criminoso. 

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A tragédia de Thomas More é ainda maior porque ele leva a sério seu juramento de defender o rei. Mas todo juramento no mundo está subordinado a um juramento maior. É  Antígona que nos fala novamente: a lei de Deus, ou lei natural, é maior que a lei dos homens. 

Thomas More é julgado por traição. Em seu julgamento tem que lidar com sua maior tentação: o orgulho. Recusa-se terminantemente a se tornar um mártir, um herói contra o despotismo de Henrique VIII. Advogado, evita produzir provas para sua condenação. Contido, recusa a verborragia. Busca de todas as formas uma brecha que lhe permita assinar o documento em favor de Henrique VIII, uma dubiedade suficiente para que não minha para sua própria consciência. Chega a dizer a sua filha Meg que isso seria um sinal de Deus para que ele não se martirizasse, de modo que restasse a Deus a última palavra quanto a seu destino.

Somente diante da certeza de sua condenação, quando fica claro que não escapará, que se permite tirar o peso dos ombros e dizer no tribunal o que realmente pensa do casamento de Henrique VIII. 

 Since the Court has determined to condemn me, God knoweth how, I will now discharge my mind concerning the indictment and the King's title. The indictment is grounded in an act of Parliament which is directly repugnant to the law of God, and his Holy Church, the Supreme Government of which no temporal person may by any law presume to take upon him. This was granted by the mouth of our Savior, Christ himself, to Saint Peter and the Bishops of Rome whilst He lived and was personally present here on earth. It is, therefore, insufficient in law to charge any Christian to obey it. And more to this, the immunity of the Church is promised both in Magna Carta and in the king's own coronation oath

[Cromwell calls More 'malicious']

Sir Thomas More: ... Not so. I am the king's true subject, and I pray for him and all the realm. I do none harm. I say none harm. I think none harm. And if this be not enough to keep a man alive, then in good faith, I long not to live. Nevertheless, it is not for the Supremacy that you have sought my blood, but because I would not bend to the marriage!

O filme, baseada em uma peça do próprio roterista, Robert Bolt, tem sua força nos diálogos. Esse é um dos filmes que gostaria de ter o roteiro. Trata-se de uma inspirada reflexão sobre os temas caros da política como a representação, legitimidade, papel das instituições, consciência, lei, limites do poder. Resta evidente que quando a sociedade é incapaz de colocar limites ao poder de um governo, ninguém mais está seguro. Thomas More pode não ter sido capaz de deter todo o poder de um reino, mas deixou um exemplo do que é seguir a própria consciência. Foi canonizado pela Igreja Católica e se tornou o santo protetor dos políticos. Faz sentido. 


u© MARCOS JUNIOR 2013