O Leitor (2008)

leitor07


Nós estamos tentando entender!

Assim Michael explode com um colega de seminário de direito, na Berlin de 1966, diante da sensibilidade exacerbada deste colega diante do julgamento de um grupo de mulheres, ex-guardas de campo de concentração, por crimes denunciados por uma sobrevivente. Michael demonstra o grande conflito que tortura sua alma, tentar entender como uma daquelas mulheres, que havia sido sua amante por um verão quando ele tinha 15 anos, podia ao mesmo tempo ser uma criminosa nazista.

Quase 10 anos antes, ele tinha se apaixonado por Hanna Schmitz e vivido um intenso caso de amor com uma peculiaridade, ela gostava que ele lesse para ela. Ao longo do verão, ele lia antes que fizessem amor e Hanna sentia intensamente as estórias que ele contava. Quando ela afirma que ele era muito bom leitor este ri, até então acreditava que não era bom em nada.

Uma paixão como esta, em um jovem adolescente, deixa marcas permanentes. Para o resto da vida, Michael teria uma necessidade de dormir sozinho e uma incapacidade de se abrir para outros, o que pode ter causado o fracasso no seu casamento e o afastamento da filha.

Quando ele escuta a voz da amada, em um tribunal de crimes nazistas, é atingido por um raio. Cada resposta de Hanna o deixa desconcertado. Não, ela não nega os crimes nem procura justificá-los. No entanto fica evidente que em sua visão não havia nada de errado, pessoas chegavam nos campos, era preciso abrir lugar para elas. Chega perguntar ao juiz visivelmente perturbado: O que o senhor faria?

Para Eric Voegelin o problema das ideologias era o enfrentamento da realidade. A realidade traz um intenso desconforto porque geralmente nos desafia, mostra que não temos a verdade como gostaríamos. Nesta hora podemos fazer o mergulho na realidade, como dizia Ortega Y Gasset ou ignorá-la em um processo de alienação.

Hanna Schmitz não era uma ideóloga nazista, apenas uma moça muito estranha que tinha uma vergonha gigantesca de ser analfabeta. Diante a ameaça de uma promoção na Siemens, o que provavelmente a obrigaria a escrever relatórios, achou o emprego perfeito como guarda da SS. Lá não precisava ler nada e ainda encontrava pessoas para ler para ela. Diante do crime que fazia parte procurou o refúgio da alienação. Ela não estava escolhendo pessoas para morrer, estava abrindo vagas para as novas que estavam chegando.

Hanna prefere ser condenada a prisão perpétua do que admitir que não sabia escrever. Michael, de posse da informação que poderia salvá-la, prefere guardá-la para si. Chega a tentar visitá-la, mas desiste na última hora e entrega-se ao amor de uma colega, na tentativa de virar esta página de sua vida.

Fica evidente que não consegue. O casamento termina, é incapaz de voltar à cidade onde morava, nem mesmo para o enterro do pai e procura se refugiar na ligação com Hanna através leitura. Passa a gravar em fita k7 várias obras e enviá-la na prisão. O gesto desconcerta a prisioneira que sente a necessidade de comunicar-se com ele, admitindo para si mesma sua incapacidade e tentar vencê-la. Através da leitura das fitas, começa a aprender a escrever e manda-lha cartas. Cartas que não são respondidas. Michael não quer contato com a Hanna do presente, quer manter uma ponte com a que amou, mergulhando na leitura dos livros. Ele também se aliena da realidade, do conflito de amar uma criminosa nazista.

O filme salta para 1988. Hannah, já idosa, está para ser libertada depois de 20 anos de prisão. Seu único contato com o mundo é Michael. Diante do apelo da assistente social, ele aceita ser responsável por ela, mesmo que relutante. Na prisão, uma semana antes de sua libertação, vai enfim visitá-la para comunicar os arranjos que fez. Diante um do outro, ela toca-lhe a mão, ele retira-a. Ela sente a rejeição. Seus arranjos são frios e mecânicos. Ele pergunta se ela pensa no passado, o passado nos campos de concentração. Ela diz que não. Michael busca em seu olhar, em seu gesto, qualquer sinal que ela tenha compreendido o papel que desempenhou. Talvez assim conseguisse voltar a amá-la, precisava de um sinal de humanidade. Ela não dá nenhum e se despedem, pela última vez.

Só depois de sua morte, quando fica sabendo que ela deixou tudo que tinha para a sobrevivente do holocausto que a denunciara é que Michael fica livre. Consegue perceber novamente a humanidade em Hanna e se permite chorar.

O Leitor é um filme que mostra o efeito de uma mulher experiente sobre um jovem de 15 anos, um efeito que pode ser devastador. Mais do que isso, explora a questão da culpa do horror nazista. Voegelin rejeitava a tese da culpa coletiva, para ele cada alemão fez sua escolha individual e eram responsáveis por ela, assim como Hanna. Michal teve que lidar com o conflito de amar alguém que contrariava tudo que tinha de valor, e este conflito o marcaria por toda sua vida até a libertação final, representada pela cena do cemitério em que começa, enfim, a contar a alguém tudo que viveu.


u© MARCOS JUNIOR 2013