Os Sete Samurais (Schichinin no Samurai, 1954)


Os sete samurais

Uma aldeia de camponeses está ameaçada por um grupo de 40 bandidos que pretende saqueá-la após a colheita. No centro da mesma, os lavradores tentam decidir o que fazer para evitar a catástrofe. Entre suplicar e lutar, duas soluções que parecem desastrosas, resolvem consultar o velho da aldeia que apresenta o caminho: eles devem contratar samurais para defendê-los. Sem dinheiro, devem conseguir samurais que trabalhem apenas por comida. Assim começa a epopéia maravilhosa de Akira Kurosawa no Japão do século XVI.

Lá pelo meio do filme fica patente que o verdadeiro inimigo dos lavradores é seu próprio egoísmo. Não é verdade que possuem apenas arroz em suas propriedades. Ao longo do tempo realizaram saques em guerreiros caídos e possivelmente furtos. Vários aldeões possuem riquezas escondidas mas nenhum pensa em abrir mão do que é seu para se proteger. Este é o maior desafio que os sete samurais, na verdade um deles bastante duvidoso, enfrentam: fazê-los entender que devem colaborar uns com os outros para proteger a aldeia.

O filme possui várias mensagens. A principal dela é o desenvolvimento em uma comunidade do espírito de verdadeira fraternidade. Não por acaso, são os aldeões juntos que provocam as maiores perdas nos inimigos. A principal contribuição dos samurais é treiná-los, deixá-los prontos para se auto-defender.

Também é um filme sobre honra. Quando encontram Kambei, um samurai em decadência, ele está cortando seu cabelo, um símbolo de honra, para vestir-se como um monge e salvar uma criança. O veterano samurai não hesita em despir-se de exteriores para cumprir seu dever e é este sentimento que o leva a aceitar a difícil incumbência de defender os aldeões.

A montagem de uma equipe formada por diferentes personalidades e habilidades foi um dos marcos de os sete samurais. Várias obras beberam na sua fonte, tais como os 12 condenados, 11 homens e um segredo e por aí vai. Kurosawa consegue ao longo da película explorar a personalidade dos sete. Nenhum deles é perfeito, há um jovem totalmente inexperiente, um ex-lavrador completamente alucinado, um especialista em construções mas sem maiores habilidades com armas. O mérito de Kambei é conseguir explorá-los ao máximo no que possuem de melhor, mostrando o verdadeiro papel de um líder.

Outra contribuição dos "7 Samurais" foi a inclusão de alívio cômico para a tensão do filme, principalmente através da interação do lavrador Yohei e o transloucado samurai (?) Kikuchiyo. Este último é um dos grandes personagem do filme. De origem humilde, também era um lavrador, ele ousa considerar-se um samurai desafiando a casta que existia; para ser samurai era necessário também possuir uma linhagem nobre. Usando mais o coração do que a razão, mas dispondo de coragem e instinto de sobra, Kikuchiyo vai conquistando a confiança dos outros samurais e dos aldeões.

Em uma cena que mostra bem o papel de Kikuchiyo, ressentido pela idolatria que o jovem Katsushiro desenvolve em relação ao habilidoso e humilde Kyuzo, Kikuchiyo abandona seu posto e em uma missão suicida consegue capturar uma das três armas de fogo que estavam com os bandidos. Sua impetuosidade custa caro. Os bandidos invadem pelo posto que deixara abandonado e na sequência, um dos samurais perde a vida. Ele fica consternado mostrando o entendimento do erro que cometeu, algo que no início do filme parecia improvável. Kikuchiyo também cresce com a convivência com os companheiros.

Outro mérito dos sete samurais foi mostrar a dura condição de vida dos lavradores e seu desmerecimento em relação aos guerreiros. Kurosawa apresenta seu toque de mestre na cena final em que Kambei diante do túmulo dos samurais mortos e da alegria dos lavradores que voltavam ao cultivo comenta que mais uma vez saíra derrotado pois foram os lavradores que venceram a batalha, não os samurais. Os guerreiros nunca vencem uma batalha pois os beneficiados sempre serão os civis que desfrutarão do sangue que foi derramado para conquistar a paz; uma mensagem para todos os tempos.

Os Sete Samurais é sem dúvida um marco do cinema e um daqueles filmes inesquecíveis, para ser revisto com carinho por muitas vezes. Além de visualmente muito bonito, mesmo em preto e branco, possui uma estória cativante, que pende atenção por mais de três horas. Certa vez Kurosawa afirmou que um bom filme tinha que ter uma estória interessante e prova seu ponto neste filme. Um tapa na cara de muito diretor que faz o chamado "filme de arte" com estórias que espantam o espectador ao invés de instigá-los com fez Kurosawa.

Quotes:

Kukuchiyo: What do you think of farmers? You think they're saints? Hah! They're foxy beasts! They say, "We've got no rice, we've no wheat. We've got nothing!" But they have! They have everything! Dig under the floors! Or search the barns! You'll find plenty! Beans, salt, rice, sake! Look in the valleys, they've got hidden warehouses! They pose as saints but are full of lies! If they smell a battle, they hunt the defeated! They're nothing but stingy, greedy, blubbering, foxy, and mean! God damn it all! But then . . . who made them such beasts? You did! You samurai did it! You burn their villages! Destroy their farms! Steal their food! Force them to labour! Take their women! And kill them if they resist! So what should farmers do?

Kambei: Once more, we have survived.So. Again we are defeated. The farmers have won. Not us.

u© MARCOS JUNIOR 2013