Rashomon (1950) - Akira Kurosawa

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Até que ponto podemos confiar em um testemunho? Como saber o que realmente aconteceu sem estar presente? Como saber a verdade?


O mestre Kurosawa fez um filme intrigante sobre estas questões e no final o espectador fica com um desconforto inevitável, a impossibilidade de saber a verdade sobre o que não presenciou. Principalmente se sua única fonte for o de testemunhas oculares.


Um monge e um lenhador protegem-se da chuva sob um portal abandonado quando um camponês se une a eles. Os dois estão visivelmente perturbados; o lenhador por uma estória que não faz sentido e o monge pela constatação da maldade inerente da condição humana. O lenhador começa a contar o julgamento que presenciaram há três dias atrás e que testemunharam. Nada viram do crime, o assassinato de um samurai que viajava com a esposa, apenas presenciaram o início e o fim da estória. O monge viu o samurai conduzindo sua esposa, o lenhador encontrou o corpo.


O importante para a estória é a narração que o lenhador faz do depoimento da esposa do samurai, do bandido que os atacou e até mesmo do morto que incorpora em uma mulher (em uma cena extraordinária, sem nenhum efeito). Pois os três depoimentos não coincidem.


Ao longo do filme, Kurosawa dá algumas pistas, principalmente pelas palavras do camponês que escuta a estória. Todos mentem, diz ele; todos tentam mostrar o melhor de si e deixar de lado a parte ruim. Em cada narração, a testemunha tenta se mostrar da melhor forma possível, embora, todas confessem o crime. Por isso o lenhador fala que nada faz sentido, por que as testemunhas depõem contra si mesmas em um tribunal assumindo uma culpa que não pode ser de todas ao mesmo tempo. Ou pode? Se é certa que não podem ter matado ao mesmo tempo o samurai, todas possuem suas culpas no episódio e talvez o ato de matar seja a menor delas.


O filme pode ser visto também como uma alegoria para o estudo da História. O que temos do passado são fragmentos de testemunhos, sejam narrações ou documentos oficiais, mas tudo narração. Muitas vezes são absolutamente discordantes, como encontrar a verdade? É possível?


Kurosawa inovou tecnicamente ao contar pela primeira vez uma estória a partir de flashbacks discordantes. Ele mexe com a tendência do espectador de ao assistir um flashback achar que foi o que de fato aconteceu e esquecer a subjetividade de quem está narrando. O mesmo acontece com todos nós ao ler uma narrativa histórica. Temos a tendência de achar que aquilo foi daquela forma mesmo, esquecendo o papel do historiador naquele processo.


O próprio lenhador mente em sua narrativa e é descoberto pelo camponês. Tinha roubado o punhal que pertencera a mulher do samurai, uma arma valiosa por possuir uma pedra preciosa em seu cabo. O monge perde a fé no homem ao ver o camponês roubar o quimono que aquecia um bebê que encontraram no portal. Recupera-a logo em seguida por um ato de amor do lenhador. Ainda resta uma esperança no homem, tênue e frágil, que não pode se confirmar, mas existe.


E é assim que Kurosawa nos deixa. Sem saber no que acreditar e com um fiapo de esperança na redenção do homem. E com um enorme desconforto em relação à condição humana.

u© MARCOS JUNIOR 2013