Reflexos da Inocência - lashbacks of a Fool (2008)


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Chesterton escreveu em Ortodoxia que uma das principais fontes de virtude para a humanidade se encontrava nos contos de fadas. A felicidade, segundo ele, consistia sempre em algo contido, uma situação com limites. Sempre há um "desde que", a pessoa é feliz "desde que não faça isso..". Um símbolo constantemente utilizado nos contos, verdadeiras criações coletivas elaboradas ao longo do tempo, é o cristal. O cristal é um material que pode ser bastante duro e resistente, mas dependendo do golpe quebra em pedaços e nunca mais é concertado.

Um exemplo desta tese é o filme Flashbacks of a Fool, escrito e dirigido pelo criador de video-clip Baillie Walsh, que estreiou com pé direito. A crítica ao filme foi bastante controvertida e na minha opinião o problema deste filme é a falta de compreensão. Na própria sinopse que li a confusão já começava ao afirmar que se tratava de uma estória de vota ao lar depois de vários anos em busca de uma jornada de redenção. Perderam o ponto, o filme trata de causas e consequências, sobre decisão individual e sim, sobre o cristal de Chesterton.

O título brasileiro chegou perto de pegar este espírito com a palavra "reflexos", embora não inteiramente apropriada pois utiliza-se reflexo para uma consequência indireta, distante. O erro maior, entretanto, é a palavra "inocência". Não é a inocência que provocou a desordem de alguns personagens, mas justamente a perda dela.

O filme tem duas partes bem distintas, começando pelos efeitos nos dias de hoje. Joe Scot é um ator famoso, mas decadente, vivendo uma vida de sexo e drogas, sem limite algum. Um mundo monocromático, sem paixão, imerso no tédio de uma vida vazia. Seu resto de consciência moral se resume nos conselhos e reprovações de sua empregada, Eve, que chuta o balde e se prepara para abandoná-lo. É quando recebe um telefonema de sua mãe dizendo que seu companheiro de infância, Boots, faleceu. Começa então o flashback de Joe.

Voltando 25 anos no tempo, Joe é uma adolescente descobrindo a sexualidade em uma pequena aldeia de pescadores na Inglaterra. Possui como vizinha uma mulher casada, com uma filha pequena mas profundamente insatisfeita com a monotonia de sua vida, uma espécie de Madame Bovary da década de 70. Dois movimentos colidem para Joe ao mesmo tempo, a sedução de Evelyn com sua promessa de sexo fácil e a porta do romance que se abre para Ruth, esta sim uma promessa para a vida inteira. A cena que Ruth dubla o clássico do Roxy Music, "If there is somethin" mostra todo o talento de Walsh com o video-clip e dá o tom ao filme. É o momento que Joe guardaria para toda sua vida.

Em um instante, o pobre adolecente é obrigado a fazer uma escolha. Indo para o encontro que iniciaria, de fato, o grande romance de sua vida, é abordado por Evelyn que sozinha em casa o chama para entrar. Alguns segundos de indecisão precedem a decisão fácil de aproveitar as duas ocasiões: ficar com Evelyn e depois ir para o encontro. O problema é que as decisões fáceis nem sempre são as sábias, como logo vai descobrir. Pode parecer que é exigir muito de um jovem deixar passar a oportunidade de viver uma aventura com uma mulher bonita, sedutora e madura, mas talvez seja neste momento que os valores são postos à prova.

Por fim, no dia seguinte, com o futuro romance com Ruth abortado, Joe entrega-se de vez à sua aventura, desta vez com trágicas consequências para muitas pessoas, levando Joe a fugir e nunca mais voltar. Até o momento da morte de Boots, que casara-se com Ruth.

Não é a redenção que Joe busca em sua volta à Inglaterra, mas um pouco de compreensão do vazio que se meteu ou simplesmente a tentativa de voltar a um ponto conhecido, onde a promessa de felicidade era mais real. A redenção, o encontro com a ordem, só possível pelo auto-conhecimento, pode até ser uma consequência, mas Walsh foge do convencional e deixa esta pergunta em aberto. E aqui vejo o grande mérito do filme, a recusa pelo final mais fácil. Fica a dúvida se o que Joe viveu no dia que passou na aldeia que foi criado foi suficiente para dar-lhe uma nova direção em sua vida.


u© MARCOS JUNIOR 2013