Saneamento Básico, o Filme

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Um projeto pode ser algo incrivelmente agregador, mas é preciso que as pessoas se comprometam com ele, que se dediquem a vê-lo concluído. Quando uma liderança consegue este compromisso, reunindo as mais diversas individualidades para um bem comum, o resultado pode ser espantoso. É o que nos mostra o excelente Saneamento Básico, o Filme.

Marina tenta reunir apoio da comunidade para conseguir junto à prefeitura os recursos necessários para uma obra de saneamento que beneficiaria toda sua comunidade. Não por acaso, o filme inicia com uma reunião em frente a igreja, onde tenta em vão comprometer as pessoas em seu projeto. A cena mostra um pouco da origem de nossas mazelas, pois o desinteresse é patente; seu próprio pai, um tocante Paulo José, é o principal descrente da empreitada. No fim, apenas com o apoio do seu marido, o simplório Joaquim _ excelente interpretação de Wagner Moura _ vai apresentar seu pleito à burocracia estatal.

É o retrato do Brasil, onde mesmo as pessoas bem intencionadas como Marina, só conseguem enxergar no estado a solução para seus problemas. O problema é que toda nossa burocracia não é montada para administrar e sim para evitar o roubo, o que muitas vezes faz que importantes recursos sejam literalmente jogados no lixo. Como está prestes a acontecer pois a prefeitura não tem dinheiro na rúbrica de saneamento básico, mas possui 10 mil reais para produzir um filme. Se não for gasto com esta finalidade, deve ser restituído à Brasília.

Nesse ponto Marina foge do conformismo da maioria dos empreendedores brasileiros. Resolve usar os recusos para fazer um filme sobre saneamento básico, com o mínimo de custos, para empregar os recusos na obra, que será parte deste filme.

Munida de uma idéia e força de vontade para realizá-la, vai aos poucos reunindo as pessoas em torno do projeto, gerando o compromisso tão necessário para o sucesso de qualquer empreendimento. Aparece como importante a noção de comunidade, de reunião de pessoas dispostas a usar seu tempo e seus recursos, que no fundo são a mesma coisa, para realizar algo de importante para todos. O estado pode no máximo participar com uma parte do investimento, mas o motor da realiação tem que ser a comunidade.

Não vejo solução para o Brasil enquanto prevalescer a crença que o estado deve resolver os nossos problemas. Enquanto não surgir uma verdadeira idéia de comunidade, de realização coletiva, pouco conseguiremos avançar. O que necessitamos é de uma mudança de pensamento, que necessariamente passará pela mudança cultural, para que tenhamos a compreensão que cabe à própria comunidade solucionar os seus problemas. Para isso precisamos também de um novo modelo de estado, um que seja menos provedor e que torne mais fácil estas associações espontâneas. Ou que pelo menos coloque menos obstáculos.

Saneamento Básico é um filme divertido, ancorado em excelentes atores e um bom roteiro, que mostra um dos nossos problemas básicos, a crença quase messiânica no estado, e que aponta a direção da solução, a comunidade. Pode ser a família, a vizinhança, a rua, talvez o bairro, mas uma reunião de pessoas com suas capacidades, e criatividades, empenhadas em fazer algo para um bem comum. Se cada um ajudar no que pode, o peso a carregar é ínfimo quando comparado ao resultado. Pode ser quase uma utopia falar nisso agora, mas não vejo outra saída. Temos que nos comprometer com soluções locais, desenvolvidas em comunidade, sem depender do estado. Só assim conseguiremos um verdadeiro progresso social.


u© MARCOS JUNIOR 2013