Sunrise: A Tale of Two Humans (1927)


Caminho para redenção


Muitas vezes, ao cairmos, nos perguntamos por que não fizemos diferente, por que na última hora não desistimos de praticar o mal. Principalmente quando percebemos que o prêmio não era tudo o que imaginávamos e que o sofrimento que provocamos era absolutamente desnecessário e pior, que atingia pessoas que realmente amamos. Pois o diretor alemão F. W. Murnau filma uma autêntica obra de arte ao retratar um homem que no momento derradeiro recua e deixa de praticar o ato extremo de maldade, o de retirar uma vida humana.

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O filme conta a estória de um fazendeiro que vivia feliz com sua esposa e seu bebê, iniciando um família, até que uma mulher da cidade surge e se tornam amantes. Há algo na sofisticação, na falta de escrúpulos de mulheres assim que encanta e é capaz de levar homens simples a perder completamente o bom senso. É o que acontece com o protagonista que recebe a proposta definitivamente da amante: matar a esposa e fugirem para a cidade.


O homem reluta mas finalmente acaba cedendo à tentação e visivelmente transtornado leva a esposa para um passeio através do lago, onde pretende afogá-la. A presença do mal no mundo ensina que qualquer homem é capaz de matar, mesmo o mais simples e honesto, mas sempre achei que um homem assim deveria estar fora de si para cometer tal ato. É justamente o que Murnau retrata com absoluta beleza. O filme é mudo, o que só evidencia o extraordinário talento que George O'Brien ao carregar todo seu conflito interior em suas expressões faciais. Ele nos apresenta um repertório completo: alegria, alívio, tristeza, dor, arrependimento, desejo, ódio, sofrimento. Impressionante.


Pois no último momento, quando sua esposa se defende apenas com as mãos junto ao peito, como se fosse orar, e escuta os sinos da Igreja, o fazendeiro consegue romper a ligação com a maldade em seu próprio coração e deixa de praticar o ato torpe. O milagre pode se esconder em pequenas coisas, como o toque de um sino na hora crucial. 


O que se segue é a sua jornada de redenção. Depois de atravessar o lago, seguem até a cidade onde ele mostra todo o arrependimento até conseguir o perdão de sua esposa. Amar é saber perdoar e o clima dramático do filme é quebrado pela redescoberta do amor ou mesmo da sua verdadeira descoberta. Pode ser que só naquele instante, quando esteve a ponto de perder a esposa, tenha entendido de fato a sua importância.

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Felizmente muito poucos chegam a assassinar o outro diante da promessa de uma felicidade absoluta em um novo relacionamento que parece muito mais excitante e sofisticado. Infelizmente muitos chegam a romper os laços e terminar uma família para viver esta aventura. Boa parte se arrepende  e se lamenta porque não recuou no último momento, porque não interrompeu a marcha da insensatez enquanto era tempo. 


O fazendeiro, Murnau não usa nenhum nome no filme, consegue evitar o ato sem volta, mas enquanto se diverte com a esposa na cidade, as imagens da amante pensando no crime que ele deveria estar cometendo mostra que nem tudo acabou, que o mal ainda pode se apresentar se nos abrirmos a ele. O destino ainda reservaria ao fazendeiro uma última provação pois não basta apenas se arrepender do pecado, é preciso repará-lo.


Um filme maravilhoso em todos os aspectos. Arte na sua expressão mais ampla, usando todos os recursos que a tecnologia da época podia fornecer e nos apresentando imagens geniais como a "possessão" do fazendeiro pela amante quando ele decide levar adiante o crime, o sofrimento na Igreja ao ouvir um padre relembrar a responsabilidade que se associa a um casamento ou a mudança que uma simples barba feita consegue provocar. Uma verdadeira aula de cinema, uma arte que estava apenas começando.

u© MARCOS JUNIOR 2013