The General (1926)

Existe filme mudo sem ser do Chaplin!

general


 

O mundo do filme mudo, para a maioria dos brasileiros, se resume a Charles Chaplin, ou nem isso. Era comum em minha infância ver filmes do vagabundo mais famoso do cinema em seções da tarde ou depois do fantástico. Não vejo muita televisão atualmente, mas a impressão que tenho é que não passam mais na frequência de antes. De qualquer forma, resolvi assistir este clássico de Buster Keaton, o maior rival de Chaplin. 

Como pode haver um filme de aventuras com a tecnologia de 1926? Com suas principais sequências filmadas em uma perseguições de trens? Sem efeitos digitais ou uso de miniaturas? Mais ainda, com cenas convincentes e criando suspense contrabalançado por humor, uma fórmula imitada até os dias de hoje. Mas não é só isso, o filme tem cenas memoráveis de natureza humana que nos fazem identificar com o curioso protagonista do filme, Johnyn Gray, o maquinista vivido pelo próprio Keaton.

Como ficamos sabendo logo no incício, Johnny só tem dois amores na vida, a locomotiva “General” e Annabelle, sua namorada. O filme começa em 1861, quando explode a Guerra Civil. Instigado pelo futuro cunhado e o futuro sogro, que correm para se alistar, John faz o mesmo, mas é recusado pois serve mais à causa do sul como maquinista do que como soldado. Uma questão interessante que coloca a necessidade de um esforço de guerra de toda uma sociedade e não apenas dos militares que estão nos campos de batalha.

Só que ninguém explica isso a Johnny que acaba rejeitado pela própria noiva, visto como um covarde. Ainda mais em uma cultura como a sulista que tanto valorizava a questão da honra e da bravura. Um ano se passa e a General é roubada por espiões da união, junto com Anabelle que viajava em um dos vagões para encontrar o pai ferido. Johnny parte em sua perseguição, inicialmente a pé, depois de carro de linha, bicicleta, até conseguir uma outra locomotiva, a Texas. Que obrigação tinha John de recuperar a locomotiva? Não tinha sido recusado pelo próprio Exército? Só que como aprendemos no início do filme, em cena memorável na entrada de casa de Anabelle, Johnny é um homem que se leva a sério. Muitas vezes é incapaz de reparar no caos à sua volta de tão concentrado em um dever, seja de visitar Annabelle ou recuperar a locomotiva.

Em outra cena inesquecível, ele está tão concentrado em colocar lenha na locomotiva que não percebe ter passado por um exército inteiro de sulistas em retirada e depois um da união em peseguição. Está agora em linhas inimigas. E a perseguição de uma locomotiva por outra? Não há como bolar muitas situações com dois veículos que devem obrigatoriamente seguir a mesma linha, ou não? Pois Keaton desafia a lógica e com muita criatividade vais montando sequência após sequência de aventura e humor, com obstáculos, desvios de rota, uso de um canhão, abandono de vagões e etc.

E a situação se inverte. Johnny consegue recuperar a General, e com Anabelle como companheira, deve retornar a suas linhas e de quebra ainda impedir que o trem de suprimentos da união atravesse uma ponte juntamente com o exército, o que seria decisivo para a vitória dos azuis. É interessante como tudo que um grupo de 10 espiões da união fizeram na ida, ele e Anabelle tem que fazer na volta, usando a criatividade para superar a quantidade de braços.

The General é uma autêntica obra-prima e merece ser considerado um dos melhores filmes de todos os tempos. E quer saber? Deixa Chaplin no chinelo! O próprio Keaton colocou lenha na fogueira ao afirmar que por mais simpatia que tenhamos pelo vagabundo, ele não deixa de ser um vagabundo que roubaria se tivesse a oportunidade. Seu herói é de outra natureza, um homem honesto e determinado, capaz de se sacrificar e enfrentar com coragem inúmeros desafios para cumprir o que acredita ser seu dever. 

Uma última reflexão de um filme tão rico. Chesterton dizia que uma sociedade estava em decadência quando as virtudes militares passavam a ser apenas praticadas por militares. Para ele uma sociedade forte é justamente aquela em que os cidadãos praticam estas virtudes. Keaton não era um soldado, mas teve coragem, determinação e senso do dever. Justamente o que faz uma grande nação.

O filme custou muito caro para os padrões da época e foi um relativo fracasso  de bilheteria, o que custou a liberdade artística de Keaton, que considerava esta sua melhor obra. Nenhuma novidade aqui; as grandes obras de arte costumam ser renegadas por sua geração e só alcançam seu valor tempos depois. Nesse particular Keaton está em muito boa companhia.


u© MARCOS JUNIOR 2013