Veludo Azul (1986)

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Veludo Azul é antes de tudo uma estória de amor. Contardo Calligaris escreveu um artigo uma vez defendendo que as estórias de amor mais verossímeis eram as de aventura e não os romances. Estes terminavam sempre no momento que deveria iniciar, o tal "e viveram felizes para sempre". A aventura, aquela em que os protagonistas entre tiros e magias encontram um tempo para um ato de amor seriam mais reais, pois o amor se constrói e se prolonga nas nossas aventuras. Claro que não são tiros e múmias, mas umas férias na praia, um filho, a compra de um carro.

Jeffrey retorna a sua pequena cidade e depara-se com uma orelha humana no meio de um descampado. Leva até um policial, amigo de seu pai que recém enfartara, e no retorno para casa é abordado por Sandy, a filha do policial. Ela lhe conta coisas do caso e ele resolve investigar mais.

Jeffrey teria entrado na aventura sem Sandy? Provavelmente não. O que visualizou, mesmo que inconsciente, foi a possibilidade de viver uma aventura com ela. De outra forma não teria a menor chance, ela tinha namorado. A própria Sandy não cansa de repetir ao longo do filme: "eu nunca deveria ter te colocado nisso...". Ela foi o disparo para a investigação de Jeffrey. Mais do que uma aventura, ele a arrastou para um mistério. Em certo momento ele declara à moça, ele gostava de mistério, e ela era um mistério.

Foi assim que entrou em uma estória caótica envolvendo um bandido perigoso e alucinado, Frank, e uma cantora. Pode ser uma metáfora para a vida. A falta de amor torna o mundo estranho, sem sentido. Sandy diz isso a ele ao falar de um sonho que teve, o amor traz a luz ao mundo. Por isso as cenas envolvendo Frank e Dorothy são sempre escuras, o bandido faz questão de apagar sempre as luzes. "E veio a escuridão" diz ele ao libertar seus instintos.

O que Lynch mostra em seu filme é que existem sempre obstáculos em nossas vidas, mas o amor é um guia seguro para atravessá-la e manter a sanidade. Jeffrey aposta o tempo todo em Sandy e se agarra a esta certeza. Sem o amor, o mundo se torna estranho. E nos corrompe como pessoa. É o que acontece com Dorothy, forçada a conviver com Frank, inicia o processo da própria degradação. Ela constata ao dizer a Jeffrey "ele me passou sua doença".

Jeffrey e Sandy constroem sua estória de amor no meio do caos, do mundo estranho que os circula. Apostam um no outro. Magoam-se, perdoam-se, crescem um com o outro. Mais do que uma estória de enamoramento, é a estória da própria relação. O depois do "e viveram felizes para sempre”.


u© MARCOS JUNIOR 2013