Whiplash (2014)

O perigo de uma idéia

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Uma idéia é uma coisa poderosa, especialmente se acompanhada da convicção que ela está certa. A tragédia é que não  precisa ser uma pessoa necessariamente ruim para se tornar submissa a ela; pode acontecer com qualquer um, até as melhores. Talvez surja daí a expressão “o diabo tem as melhores intenções”, não sei, o fato é que boas pessoas, mas com extraordinária vontade, influenciadas pelas idéias erradas, são capazes de causar muito mal.

O professor Terence Fletcher, em interpretação inspirada de J. K. Simmons, não é um homem ruim. Existem algumas cenas no filme que mostram que ele é uma pessoa gentil, como no diálogo com uma menina e na tristeza ao saber da morte de um ex-aluno. No entanto, ele tem uma idéia perigosa, que o cega para tudo mais. Ele acredita que o verdadeiro talento só é despertado pelo sofrimento, pela prática acima dos limites que um ser humano pode suportar, pela pressão constante e desafiadora. Baseado em uma anedota de veracidade questionável sobre Charles Parker, ele está convencido que o encorajamento é prejudicial à formação de um músico e toda sua realidade se molda a essa verdade. 

A tragédia de Fletcher é, portanto, subordinar a realidade à idéia. Sua preocupação é estudar seus alunos e buscar suas fraquezas, para que possa explorar em processos de humilhação, que os conduzam superar seus limites. A sugestão que possa buscar em seus alunos uma motivação para o aperfeiçoamento lhe é estranha pois não há várias formas de aprender, apenas uma. Só pela humilhação  se forma um grande músico. Todos devem passar pelo mesmo processo que Charles Parker passou; só assim haverá um novo gênio. Fletcher não acredita na diversidade da experiência e dos tipos humanos; para ele, só há um modelo e todos são iguais.

Tratá-lo como um exemplo de bipolaridade é um erro. A bipolaridade é um processo inconsciente, o que não ocorre com Fletcher. Ele não só está consciente do que está fazendo como também segue um plano geral. Ele sabe o efeito que sua oscilação de humor provoca no aluno, sabe que gera um desequilíbrio psicológico capaz de levá-lo ao ódio e é justamente o que quer. Apenas se for odiado pelo aluno este terá força para buscar a perfeição sobre-humana que deseja. 

Só que o filme não está centrado apenas em Terrence Fletcher, tem também Andrew, o jovem baterista. Há quem veja no rapaz o protótipo do jovem sensível que enfrenta o mestre carrasco e apenas quer realizar seu sonho __ não se trata disso. Andrew demonstra uma vaidade acima do comum e aceita todas as condições do professor sem pensar duas vezes, quase como se desejasse tudo aquilo. Comporta-se mal com os irmãos, com o pai e, principalmente, com a namorada, que não acredita no que está vendo. Não é difícil ver Andrew como um Fletcher no futuro, com o agravante que não demonstra fora do palco a mesma sutileza de seu mestre. Enquanto Fletcher mantém seu demônio trancado dentro do estúdio, Andrew leva o seu para todo o lugar.

Whiplash mostra a colisão de dois tipos da modernidade: o ideólogo de bom coração e o revolucionário em busca de uma desculpa. Os dois são figuras corrompidas, mas de maneira diferente. Fletcher deixa-se guiar por uma idéia central que explica todo seu universo, gerando dor e sofrimento que tem seu símbolo não em Andrew, mas no ex-aluno que comete suicídio mesmo obtendo sucesso. Andrew quer uma desculpa para deixar seu orgulho aflorar; é impressionante como seu relacionamento com os outros bateristas deteriora à medida que vai se aperfeiçoando.

Por fim, o jazz. O filme não se trata exatamente da música, que aparece apenas como um veículo para a temática exposta aqui nessas linhas. Poderia ser um jogador de tênis, um estudante de direito, mas calhou de ser o jazz, ou uma visão bem particular dele. O filme exagera a individualidade do estilo, desprezando por completo a harmonia de uma banda. Em nenhum momento os músicos interagem entre si ou demonstram qualquer interesse em estudar juntos. Não há colaboração, apenas competição. O talento de Andrew é associado com a rapidez no instrumento e a precisão matemática da batida, nunca com a delicadeza que o jazz tanto exige. O filme peca um pouco nesse aspecto e deixa de fazer uma aula sobre o estilo para fazer uma caricatura, salvando apenas o momento que Terrence toca piano, descontraído, em um bar. Talvez tente mostrar que justamente essa despersonificação da música acabe por distorcê-la, mas acaba saindo um pouco dos trilhos por causa disso. De qualquer forma, foi o melhor filme da série que concorreu ao Oscar em 2015. Apesar da safra não ter sido muito inspirada, é um filme que merece ser visto e revisto. E depois escutar uma boa Big Band para lembrar o que é realmente o jazz. 

I don't think people understood what it was I was doing at Shaffer. I wasn't there to conduct. Any fucking moron can wave his arms and keep people in tempo. I was there to push people beyond what's expected of them. I believe that is... an absolute necessity. Otherwise, we're depriving the world of the next Louis Armstrong. The next Charlie Parker. I told you about how Charlie Parker became Charlie Parker, right?



u© MARCOS JUNIOR 2013