Beatles For Sale (1946) - The Beatles 

O que nós habituamos a chamar de beatlemania começou a dar sinais de esgotamento no natal de 1964. Durante um ano, incluindo as apresentações históricas do quarteto no Ed Sullivan Show, duas turnês pelos Estados Unidos, o lançamento do filme A Hard Day’s Night, fizeram com a que a previsão de Brian Epstein fosse acertada: eles se tornariam maiores que Elvis Presley. Entretanto, a intensidade dos acontecimentos para os Beatles deixaram marcas, como geralmente ocorre em transições abruptas: a banda foi para os estúdios de Abbey Road completamente exausta. A missão era entregar um album para o natal, como fariam até 1969.

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Nos três primeiros albuns, Lennon e McCartney basicamente poliram composições que criaram antes mesmo de estourarem nas paradas britânicas, misturando-as com covers dos tempos do Cavern Club. O filão tinha acabado e era preciso começar cada canção do início. O lado bom é que a exaustão não significa que as composições serão mais pobres pois essa mistura de sucesso, intensidade e esgotamento, nas mãos de bons compositores, pode virar tesouro. Foi o que aconteceu em Beatles For Sale, considerado por muitos a obra fraca da história da banda. Neste caso discordo da banca, acho-o mais consistente e melhor do que seus três antecessores.

Beatles For Sale começa um alargamento da temática de Lennon e McCartney. Até então suas músicas eram uma sucessão de odes ao amor e à juventude, sendo I Wanna Hold Your Hand talvez o exemplo mais bem acabado dessa dinâmica. Tudo era alegria nas letras da dupla, tudo virava dança, música e prazer; parecia que nada poderia dar errado no universo dos Beatles. Tudo começaria a mudar no novo trabalho. As três canções de Lennon que abrem Beatles for Sale são de outra natureza, dando uma toada para a maior parte das composições do disco. No Reply era o desespero de um jovem que não encontra respostas para o abandono do seu amor “This happened once before/ when I come to your door/ no reply”. Não há introdução na música, Lennon começa já com a primeira estrofe, mostrando o sentido de urgência, pontuado pelos violões e a batida delicada de Ringo, que também atingia outro grau de maturidade com seu instrumento. Pela primeira vez não há solução para um impasse em uma música dos Beatles. Não há respostas. O incômodo continua com  I’m a Loser, outro soco no otimismo. Em um ritmo country, Lennon canta a constatação da perda, de não ter valorizado o que tinha. Reparem em como George pontua os versos de Lennon com extremo bom gosto e noção de efeitos. A trilogia termina com Baby’s in Black, um triângulo amoroso em que um vértice apenas ama e não é retribuído: “I think of her, but she thinks only of him”.  O espírito de que algo está muito errado na promessa de alegria sem fim do amor é completado no Lado B com I Don’t Want to Spoil the Party, outro country de Lennon. O album também significou o auge do comando de John nas composições da banda. A partir daí, Paul e George passariam a contribuir mais na criação das canções. 

Em Beatles For Sale, Paul contribui  com duas músicas, a bonita I’ll Follow the Sun, que ele canta com uma voz delicada, dobrada no refrão, com George se afirmando nos dedilhados que influenciariam gerações de músicos pop. O destaque, entretanto, ficaria para a maravilhosa What You’re Doing, um tema explorado sobre um riff circular de George, com uma batida inspirada de Ringo e mostrando uma de suas principais virtudes, o extraordinário senso de ritmo, que na essência é a principal habilidade que um baterista deve ter. A temática segue a direção dada por Lennon e desloca a parte ativa para a garota, que agora não se destaque pela indiferença, mas por brincar com os sentimentos do narrador “ Please stop your lying, you’ve got me crying, girl/ Why should it be so much to ask of you/ What you’re doing to me?”. Desde a introdução de Ringo, passando pelos solos de George, um riff de influência havaiana, os coros bem colocados, to arranjo primoroso de Paul, tudo contribui para firmar o talento do baixista dos Beatles. 

Para completar o album, a banda recorreu a 6 covers, evidenciando suas influências. Fica patente que o recurso era para cumprir o prazo, não havia como completar as gravações com material próprio. Os destaques ficam para Rock’n’Roll Music, do grande ídolo de George, Chuck Berry, e os covers de Perkins, que serviam de veículo para Ringo cantar (Honey Don’t) e Gerge (Everybody trying to be my Baby), que encerra o album.

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Fazendo uma ligação com os albuns anteriores, o grande hit do album, Eight Days a Week, esse sim uma canção otimista que celebra o amor ingênuo de juventude, marca da trajetória da banda até então. Além de elevar a fórmula desenvolvida ao longo de She Love’s You, From me to You e I Wanna Hold Your Hand a sua forma final. 

Beatles for Sale foi o primeiro grande salto nas composições da banda. Se até então predominava o talento cru, a inspiração sem controle, a novidade, agora a dupla Lennon e McCartney arregaçariam cada vez mais as mangas para bolar temas mais complexos e mais ricos. Instrumentalmente a banda mostrava uma marcante evolução desde Please Please Me. Ringo cada vez mais seguro na bateria e começando a fazer escola, George cada mais confiante nos solos, Paulo se tornando um mestre no baixo e John aprendendo a controlar sua voz para acentuar nos momentos certos. O tom dissonante foi o fraco cover de Mr Moonlight, marcada pelo exagero da interpretação vocal de Lennon. A beatlemania ainda duraria algum tempo até o filme Help!, do verão seguinte, mas a transição estava começando. Os Beatles iriam agora conquistar os ambientes da alta cultura. 

u© MARCOS JUNIOR 2013