Darkness on the Edge of Town (1979) - Bruce Springsteen

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Em 1975, Bruce Springsteen atingiu o estrelado com  Born to Run. Seguiu-se um longo período de batalhas judiciais  para se livrar do antigo contrato e gravar seu quarto album, o que contribuiu para amadurecer idéias que constituiriam Darkness on the Edge of Town. Embora não tenha repetido o sucesso do antecessor, o disco é mais consistente, tanto pela temática quanto pela qualidade sonora. O resultado foi um album de músicas encorpadas, com um vigor que apenas era sugerido em Born to Run, além de uma  reflexão sobre a chamada ‘working class’ , uma classe média baixa composta por trabalhadores assalariados das fábricas e lojas de serviços. Springsteen se propunha a tornar seu grande intérprete no rock, cantando com alma a desilusão de homens e mulheres que trabalhavam dia após dia e não conseguiam ver um futuro melhor. O mundo lhes parecia sem sentido e única solução que o trovador consegue oferecer é algo da herença cristã, que surge espaçada pelas músicas. É preciso ter em mente que Bruce fora educado como católico, mas repudiava o moralismo que vinha no pacote. Durante sua vida tentou romper com esses laços, mas nunca conseguiu  e Darkness é um exemplo. Era como se ele tentasse se libertar mas não conseguisse na última hora. Vejam estes versos de Badlands:

I believe in the love that you gave me

I believe in the faith that can save me

I believe in the hope

And I pray that some day it may raise me

Above these badlands


A tríade de São Paulo ( fé, esperança e caridade), aparece como única tábua para manter o náufrago boiando em uma realidade opressora. 

Há uma curiosa simetria em Darkness, que se perde na era do CD. O album abre ambos os lados com músicas marciais, que introduziam o tema, a furiosa Birdlands no lado A e a intrigante The Promised Land, no lado B,  sobre uma terra prometida que nunca chegava. Ambos os lados se encerram com ritmos tristes, lamentos frustrados, Racing in the Street(lado A) e a música título(lado B). Outras 6 inspiradas composições formam um album coeso, que tem uma alternância de rocks vigorosos e baladas cativantes, mostrando que a vida é um alternância de momentos de revolta e momentos de desilusão. O homem moderno era escravo do trabalho e pouco sobrava para se dedicar às coisas que realmente importam na vida, como a arte e o amor. 

Em Adam Raised a Cain, Springsteen retoma o tema bíblico do pecado original. Somos todos marcados por uma insuficiência ontológica, parece dizer, o que torna a vida muito dura. Somos marcados pelo pecado de Adão, e Caim assassinando Abel é o símbolo da nossa existência. A música tem uma entrada genial de guitarra, mostrando um nervosismo que dá o tom da angústia que Bruce transmite. Um solo de guitarra mais longo que o usual mostra um talento natural e uma sensibilidade para melodias e riffs. 

Há espaço para o romance em Darkness, mas o amor está limitado pela falta de sentido em uma vida só de trabalho. Em Candy’s Room, temos a menina pobre que atrai, por sua beleza, os ricos da cidade, mas que ama o protagonista trabalhador. Em Racing in the Street são duas almas que se unem em sua revolta e alienação. Em um mundo cinzento, até o amor é contaminado. 

Darkness é um produto muito bem acabado, com destaque para os arranjos. Teclados e o sax sempre inspirado do parceiro Clarence Clemons preenchem os vazios e ligam as estrofes. Há pontes suaves, solos de guitarras  de Bruce e uma maravilhosa bateria de Max Weinberg, dando o peso que o album precisava. Springsteen trocou a possibilidade de hits pelo conjunto, pois as canções precisavam não só mostrar o desajuste com a América dos anos 70, período de pessimismo e uma concepção de trabalho alienante, mas passar esse sentimento. Bruce Springsteen consegue tudo isso e passa com louvor pelo teste de suceder um grande sucesso, com uma album maduro, apresentando-se não mais como uma novidade, mas como alguém que veio para ficar e fazer história. 

Dessa forma, Darkness consegue não só ser superior ao maravilhoso Born to Run, mas até seu grande sucesso, Born in the USA. O segredo desse album foi ter costurado um disco coeso, com temática bem definida e, sobretudo, muita alma nas canções. O rock tem a honestidade e uma certa revolta como premissas, justamente os pontos altos desse trabalho. 


I've done my best to live the right way 

I get up every morning and go to work each day 

But your eyes go blind and your blood runs cold 

Sometimes I feel so weak I just want to explode 

Explode and tear this town apart 

Take a knife and cut this pain from my heart 

Find somebody itching for something to start 


(The Promised Land)

u© MARCOS JUNIOR 2013