Shout! (2013) - Gov’t Mule

Poucas bandas são tão respeitadas no cenário musical como o Gov't Mule e seu líder Warren Haynes. O homem não para. Seja tocando com o Allman Brothers, em carreira solo ou participando dos mais variados projetos, ele é incansável. Quem já foi em um dos seus shows, sabe que ele não desce do palco com menos de três horas tocando; sempre em altíssimo nível. Só dá um pausa quando entra em estúdio para gravar, como acontece em seu novo lançamento, o album Shout!, o décimo da banda.

Ao contrário dos demais discos do Mule, este possui uma temática mais definida: o descontentamento com o mundo descortinado pela crise financeira de 2008. Haynes tenta capturar esses fragmentos do fim do sonho de crescimento econômico sem fim, de progresso interminável. Suas canções tratam da inquietação, da desolação, perda do otimismo, refletindo em vários aspectos da vida: econômico, amoroso, existencial. 

Buscando uma forma de inovar, uma das características de seu espírito inquieto, Haynes gravou o disco duas vezes. A primeira, como um tradicional algum do Mule. A segunda, com um vocalista convidado em cada faixa. Para terem uma idéia da moral que ele possui na indústria musical, estamos falando de gente como Steve Winwood, Elvis Costello, Glenn Hughes, Dr John, David Mathews, Grace Potter. Uma verdadeira constelação.

Outra novidade é a estréia de Jorgen Carlsson no baixo e compartilhando as composições com Wayne. Seu estilo é mais próximo do baixista original da banda, o falecido, e inesquecível, Allen Woody. O resultado é um baixo mais agressivo, sobressaindo nas faixas como Woody costumava fazer; um grande acerto do Mule. Danny Louis, o tecladista, toca mais guitarra nesse album, dividindo a carga com Haynes e trazendo mais peso para as canções mais rock'n'roll.

Outro grande mérito do Mule é passear por diversos estilos que se encontram nas raízes do rock, coisa que não costuma dar certo, especialmente quando tentado por bandas com menos talento. O resultado costuma ser uma espécie de colcha de retalhos que termina em um disco sem unidade. Talvez por isso a banda tenha optado por seguir uma mesma temática e com isso garantindo que o disco não ficasse parecendo uma jukebox em modo shuffle. As canções se seguem com naturalidade, como deve acontecer em um bom album. Além do talento em todos os estilos: rock, funk, reggie, soul. Um show de boa execução, arranjos primorosos e muito feeling.

Meus destaques fica em primeiro lugar para When The World Gets Small, a melhor do disco, com solos desconcertantes e profundamente melódicos, com espaço para todos os músicos, um dueto de guitarra com teclado de interessante sutileza, uma verdadeira gema. Depois, sem ordem, para o reaggie de Scared to Live, o baladão Forsaken Savior, que critica o isolamento e crescente alienação dos mais ricos ("pretend that people aren't rioting in the street) e o southern rock de Done Got Wise (" some people are all they're ever going to be").

Concluindo, a banda acertou a mão e gravou seu melhor album desde The Deep End, a homenagem a Allen Woody que teve cada faixa gravada com um baixista diferente. Com duas décadas na estrada, o Mule continua mostrando que ainda pode inovar e se manter um banda de alto nível, sem precisar viver do passado. Não é pouca coisa quando se trata de música nos dias de hoje.

u© MARCOS JUNIOR 2013