Esportes


Messi X Cristiano Ronaldo


Dois lances evidenciaram bem a minha birra com o Barcelona, e por tabela com o Messi. E não estou aqui a dizer que o Barcelona não é um excelente time e que o argentino não é um craque de bola. A questão é de outra natureza.

O fenômeno que me chama a atenção é uma evidência da miopia atual. Tudo no mundo passa a se dividir em o bem absoluto e o mal absoluto, fruto de uma visão ideológica oriunda da política, mais precisamente na dicotomia radical. É tão entranhado no nosso comportamento que mesmo as pessoas que não dão a menor bola para política ou ideologia se comportam assim. Primeiro se classifica o sujeito, depois se julgam os atos. So o sujeito é bom, o ato é bom; e assim por diante. Não existem matizes, zonas sombrias, circunstâncias em que boas pessoas praticam atos vis e más pessoas praticam atos bons.

O Barcelona, e por extensão seu maior craque, já foram classificados como mocinhos da história, em algum modelo Hegeliano. Tudo que faz ou deixa de fazer é um ato superior. O Barcelona não tem interesses econômicos como os demais clubes e sim interesses sociais que apenas por acaso se transformam em lucro. Seus jogadores? São santos. Demônios são seus adversários de Madrid, todos vis, dentro e fora do campo. Comportamentos que são tolerados no bom sujeito, são inadmissíveis para os rivais. O contrário também acontece, um ato classificado por baixaria de uma adversário se torna virtude para o nosso time.

Vejam o que aconteceu no fim de semana com o Barcelona e o Real Madrid, mas invertando os atores.

Imaginem se o Messi tivesse feito um gol de calcanhar, tocando a bola no canto do goleiro com vários marcadores entre ele e a linha de fundo. Gênio.

Agora imaginem se Cristiano Ronaldo aproveita-se de uma barreira em formação e o goleiro abraçado na trave para bater a bola para o gol quase vazio. Canalha! Infame! Como o juiz não anula esse gol? Depois que começa a armar a barreira o cobrador deve esperar pela autorização. Quantos jogadores já não receberam cartão amarelo por fazer exatamente o que Messi fez?

O problema é que as duas jogadas foram protagonizadas por sujeitos errados. O que fazer? Simples, diga que as duas jogadas se equivalem e desloque a questão para outro ponto: qual dos dois gols foi mais bonito? Como assim? Como chamar de golaço um chute para um gol vazio sem barreira? Por que não dizer as coisas as claras, que o Barcelona foi beneficiado pela arbitragem em mais de um lance e que Messi teve uma atitude no mínimo anti-desportiva?

O Globo Esporte foi incapaz de sugerir que pelo menos o atacante tenha sido “malandro”. Afinal, não combina com sua imagem. Não, se o Messi, o Messi!, fez aquilo, é porque a jogada foi válida. E foi golaço. Ponto final.

Enquanto o Barcelona tiver esse tipo de suspensão de julgamento torcerei contra ele com todas as minhas forças. Torço assim por um repúdio que tenho à infâmia e à hipocrisia. Por isso digo sempre que a forma como as pessoas em geral tratam o Barcelona é um sintoma de uma doença, uma doença do espírito.

Fevereiro, 2013

Primeira vez, a gente nunca esquece!



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Um dos itens da minha lista de coisas para fazer aqui na América era ir em um jogo da NFL, a liga de futebol americano. O problema é que a temporada regular dura de setembro a dezembro; ou seja, se deixasse passar o final do ano, teria que esperar 9 meses para poder ir em um jogo.

Não dava, né? Ingressos para Saints e Panthers na mão, proa apontada para New Orleans e saímos eu, meu pai e meu filho para o Mercedes Benz Superdome para a última partida da temporada. Infelizmente os dois times estavam já eliminados, mas para nós tudo era festa.

Depois de 240 milhas atravessando o Mississippi e os pântanos da Louisiana, em um impressionante elevado de mais de 40 milhas, chegamos no engarrafamento para chegar no estádio. Essa parte foi bem parecida com o Brasil, inclusive com os motoristas que furam a fila de carros na maior cara de pau. Algum sufoco para estacionar (35 dólares em um edifício garagem ao lado do Superdome) e entramos com uns 40 minutos de atraso. Tudo bem, um jogo dura mais de 3 horas!

A primeira impressão é que temos muito que avançar para poder fazer, com rotina, um evento esportivo dessa categoria. Sempre fui um frequentador do Maracanã, mas a distância de organização é abissal. Tudo pensado nos mínimos detalhes, desde a parte de publicidade, sistema de som, lugares marcados, lojas, banheiros, etc. Alguns anos de estudo na área me mostram que a grande questão é de gestão e fica patente o que uma administração profissional é capaz de fazer. Enquanto estivermos sujeitos aos amadores que comandam nosso futebol teremos eventos de terceira categoria.

O que dizer de um campeonato em que dois times se enfrentam já eliminados e o estádio está quase lotado, com 80 mil lugares? Quando lembro que Fluminense e Vasco, então segundos e terceiros lugares na tabela arrastaram pouco mais de 10 mil para o engenhão…

Visão com campo excelente, bons lugares, assistimos o jogo com todo conforto. O Superdome é um estádio novo, construído depois do Katrina, completamente climatizado. Tudo limpo, conservado.

Quando chegamos o Saints perdia de 10 x 0. Vimos 3 td do saints, que virou para 24 x 13, mas depois sua defesa mostrou porque terminou como a pior. Do campeonato? Não, da história da NFL! Só assim para o melhor ataque do campeonato ficar fora dos playoffs. Final de jogo: 44 x 38 para o Panthers.

Bem, o resultado foi o que menos importou. O negócio era ver aquele clima de um jogo de futebol americano, curtir a experiência de ir ao estádio ver a partida, coisa que no Brasil não sabemos o que é. Nossa cultura é de ir para uma guerra onde o que importa é a vitória do time; se perder, a sensação é de que não valeu a pena.

Chega a ser paradoxal que no país onde tudo que importa é a vitória, a experiência de ir ao jogo seja tão independente do resultado.

Algum congestionamento para sair do estádio, mais 240 milhas de volta, com um pit stop no mac donalds, e chegamos em casa. Tudo no mesmo dia, saímos as sete e meia da manhã e retornamos as oito e meia da noite.

Agora é esperar os tais 9 meses para ir ver o Saints novamente.

Enquanto isso, mais um item para riscar: ir a um jogo da NBA!


Dezembro, 2012

Power Ranking, rodada 30

Inspirado no futebol americano, vou fazer a partir de agora o meu power ranking, que leva em consideração o momento de cada time e não a classificação do campeonato. 


1. Atlético - MG ( - )

Ok, foi um tropeço, mas não o suficiente para tirar o galo da posição.


2. São Paulo ( - )

Foi dominado pela surpreendente equipe da Chapecoense, mas escapou com um empate. 


3. Cruzeiro ( - )

Tudo bem que o Palmeiras é outro Palmeiras, ainda mais com Prass no gol. Mas esperava-se mais no Mineirão. 


4. Internacional ( - )

Enfrentar a organizada e esforça equipe do Flamengo no Maracanã tem sido difícil nos últimos tempos. Mantêm a posição por enquanto.  

5. Goiás (1 - ↑ )

O Goiás vem crescendo com regularidade. 

 6. Grêmio (1 ↑ )

Importante vitória que coloca o time gaúcho na briga pela Libertadores. 

7. Santos (2  - ↓ )

Grande decepção da rodada.

8. Corinthians ( - )

Cumpriu a obrigação, mesmo assim com dificuldade.

9. Flamengo ( - )

Uma vitória para dar alívio para a Copa do Brasil. 

10. Fluminense ( - )

Um jogo horrível e uma vitória importante. Só. 

11. Palmeiras ( - )

Segurou o líder em Belo Horizonte e por pouco não saiu com a vitória. Outro Palmeiras. 

12. Chapecoense ( - )

Deu azar. Poderia ter saído com a vitória. 

13. Atlético-PR  ( - )

Saindo do sufoco. 

14. Vitória ( - )

Tá feia a coisa, mas não fez feio contra o Corinthians fora de casa. 

15. Coritiba (2 ↑)

Gangorra do brasileirão. 

16. Criciúma (1 - ↓ )

Sinal de alerta, mas a derrota fora de casa para o Flu não pode ser considerada uma surpresa. 

17. Figueirense (1 ↓)

Está caindo nas últimas rodadas.

18. Sport (- )

Em crise, caindo a cada rodada. 

19. Botafogo ( - )

Tá feia a coisa para o Botafogo. Muito feia mesmo.

20. Bahia ( - )

Segurou o Galo, não é pouca coisa. 


Futebol x Futebol

Como tenho assistido muito futebol americano, comecei a refletir um pouco sobre o que faz um esporte popular em um determinado país. Não é segredo que os americanos simplesmente não conseguem compreender que o restante do mundo, inclusive a Europa, tenha o futebol como esporte mais popular, a ponto de seu evento maior, a Copa do Mundo, rivalizar com as Jogos Olímpicos. Aliás, dizem que a época do mundial é quando os Estados Unidos ficam estarrecidos com a locura do "resto do mundo".

Mas porque a diferença? Por que no Brasil temos a paixão pelo futebol bretão e os irmãos do norte são apaixonados pela bola oval?

Se pensarmos no nosso futebol, temos algumas características:

- Um jogo isolado é imprevisível. Não se trata apenas do time pior conseguir ganhar do time melhor, mas que um time pode ganhar um jogo jogando pior do que o perdedor! Para um americano, isso deve soar incompreensível. Como pode um time jogar pior e ganhar o jogo? Como fica o merecimento? Não seria uma injustiça? No futebol americano um time pior pode ganhar o jogo, mas necessariamente terá jogado melhor naquela partida.

- Estatísticas valem muito pouco. É fácil advinhar o ganhador de um jogo no futebol americano sem ver o placar. Basta pegar as estatísticas do jogo, jardas percorridas, corridas, posses de bola, etc. No futebol se um time chutou 1 bola no gol e o outro 20, o que chutou uma pode ter ganho. Aliás, pode ganhar sem chutar uma única bola no gol; basta ter um gol contra.

- No futebol um jogo completamente desequilibrado pode ser decidido em um único lance. Para que isso aconteça no futebol americano é necessário que o jogo seja equilibrado. Caso contrário, o resultado do jogo será construído ao longo de toda a partida.

- Um único jogador é capaz de vencer uma partida praticamente sozinho. Aliás, é capaz de ganhar uma copa! Coloque um jogador excepcional em um time, com jogadores esforçados e temos a Argentina de 86. Junte Romário e Bebeto e temos o Brasil de 94. No futebol americano, por melhor que seja, um jogador não consegue vencer sozinho. O jogo de equipe é fundamental. Cada jogador tem um papel a desempenhar e o nível de especialização chega ao absurdo. Tem jogador que nunca tocou e nem tocará na bola.

- Estratégia. É fundamental no futebol americano. No nosso, nem tanto. Técnicos medíocres, jogando na velha tática da padaria (defesa em bolo, ataque em massa), já ganharam campeonatos. Estratégia? Bola para o mato que o jogo é de campeonato.

Refletindo sobre tudo isso, não começo a pensar se o nosso futebol não é popular justamente porque é muito parecido com a vida real. Nem sempre o melhor vence. Nem sempre um bom trabalho é recompensado. Injustiças acontecem o tempo todo. Lances isolados podem definir um destino, colocar tudo a perder ou concertar o que está quebrado. Estatísticas? O impenderável pode destrui-las todas.

Já o futebol americano talvez seja o que melhor reflita a vida coorporativa tão cara aos americanos. A estratégia é fundamental para vencer. Há a divisão do trabalho, a especialização. O trabalho em equipe é chave para o sucesso. As estatísticas apontam o caminho a ser percorrido. O trabalho bem feito é recompensado no final.

São duas formas de ver a vida que se espelham na relação do indivíduo com o esporte. Ou não?

Power Ranking - Semana 29

Inspirado no futebol americano, vou fazer a partir de agora o meu power ranking, que leva em consideração o momento de cada time e não a classificação do campeonato. 

1. Atlético - MG ( - )

O Galo continua firme com uma vitória apertada, mas importante. Ainda mais que o Chapecoense vinha muito bem.

2. São Paulo (1 ↑)

Recuperou-se com uma vitória mais do que obrigatória contra o ameaçado Coritiba. 

3. Cruzeiro (1 ↑)

Foi uma vitória sofrida, mas importante. Ainda mais fora de casa contra uma equipe que vinha se recuperando no campeonato. 

4. Internacional (2 ↓)

O Corinthians vinha mal, e o colorado jogava em casa embalado pelos últimos resultados. Viu passar mais uma chance de se aproximar do Cruzeiro e vai consolidando uma fama de falhar na hora decisiva. 

5. Santos ( - )

O Santos só não subiu porque os times que estavam logo a sua frente também venceram. Precisa de alguns resultados consecutivos para entrar entre os quatro do campeonato. 

6. Goiás ( - )

Enfrentou um time superior e perdeu preciosas oportunidades de vencer a partida. O empate acabou sendo um castigo. 

 7. Grêmio ( - )

Não dá para reclamar muito no resultado. Pelo menos estancou a queda das últimas semanas. 

8. Corinthians ( 2 ↑)

O timão vai consolidando a fama de Bolsa Família do futebol, tirando pontos dos ricos para distribuir aos clubes menos favorecidos. 

9. Flamengo (1 ↓)

Perdeu de um time que costuma apanhar em Curitiba. 

10. Fluminense (1 ↑)

Uma vitória para espantar a crise. Será que agora vai?

11. Palmeiras (2 ↓)

Não foi adversário para um Santos empolgado. 

12. Chapecoense ( - )

Perdeu para o melhor time do campeonato fora de casa pelo placar mínimo. Não dá para descer ainda. 

13. Atlético-PR  ( - )

Importante vitória contra a Flamengo, mantendo a tradição.

14. Vitória (1 ↑)

Perdeu para o líder do campeonato em uma falha de marcação. Ficaria no mesmo lugar se o Coritiba não tivese levado uma sapecada. 

15. Criciúma ( 1 ↑ )

Sinal de alerta, mas a derrota fora de casa para o Flu não pode ser considerada uma surpresa. 

16. Figueirense (2 ↑)

Uma goleada na hora certa. 

17. Coritiba (3 ↓)

Tomou uma paulada. O que mais caiu. 

18. Sport (1 ↓)

Tudo bem que foi fora de casa, mas contra o Botafogo não dá para considerar um resultado tão bom assim. Perdeu a posição mais pelo desepenho do Figueirense do que por uma má apresentação. 

19. Botafogo ( - )

Para sorte sua, o Bahia perdeu. Não segura a lanterna do Ranking. Por enquanto.

20. Bahia ( - )

No caso do Bahia, não tinha como perder, não é?


Power Ranking - Semana 28

Inspirado no futebol americano, vou fazer a partir de agora o meu power ranking, que leva em consideração o momento de cada time e não a classificação do campeonato. Essa é a primeira aproximação para avaliar a rodada que está começando.



1. Atlético - MG


A vitória contra o São Paulo e os últimos resultados mostram que é o time com melhor futebol atualmente.



2. Internacional


Recuperou-se de uma inesperada e humilhante derrota para o Chapecoense vencendo o Fluminense. Fica na posição pelo péssimo desempenho dos seus concorrentes diretos na perseguição ao Cruzeiro.



3. São Paulo


A derrota para o Atlético, apesar de ser um resultado normal, o coloca temporariamente em terceiro.



4. Cruzeiro


Algo vai mal no líder. Pode ser a oscilação normal de um campeonato longo, somado com os desfalques por convocações. Mas nem os cruzeirenses arriscam dizer que o time está jogando bem.



5. Santos


Vinha recuperando bem, mas derrapou feio contra o limitado Criciúma. 



6. Goiás


Aos poucos o alviverde vai se consolidando como um time confiável, ciente de suas limitações.


 


7. Grêmio


Quando parecia que o time do Felipão ia invadir a zona da libertadores, o time começou a se complicar. 



8. Flamengo


O time vinha até fazendo bons jogos, mas falhando em momentos decisivos. As duas últimas vitórias, especialmente uma com autoridade sobre o líder, colocam o time da gávea de volta à primeira página.



9. Palmeiras


Não é pouco o que o verdão fez nas últimas cinco rodadas. Muitos já o davam como rebaixado e o time vem ganhando jogos prováveis e improváveis.



10. Corinthians


Quando mais se espera do timão ele não corresponde. Parece que algo não vai bem dentro do time e a torcida começa a cobrar mais pesado.



11. Fluminense


Já são algumas rodadas sem vencer e um distanciamento para a zona da libertadores. Um futebol que atualmente só pode ser classificado de mediano. Esperava-se mais.



12. Chapecoense


Outro time que vem crescendo e saindo da confusão.



13. Atlético-PR


Importante vitória contra a Figueirense, mantendo um pescoço de distância para o rebaixamento.



14. Coritiba


Outro que vinha arriscando uma recuperação mas foi presa fácil em Goiania. 


 


15. Vitória


Bons resultados na última rodada, vai dando força para o Vitória lutar contra o rebaixamento.



16. Criciúma


A vitória sobre o Santos surpreendeu e rendeu algumas posições ao ameaçado time catarinense.



17. Sport


Vem muito mal nas últimas rodadas, abaixo de suas possibilidades. 



18. Figueirense


Derrotado pelo Atlético, perdeu a classificação e vê a zona de rebaixamento chegando.



19. Botafogo


A vitória sobre o Corinthians deu um alento ao Botafogo. Nada mais que isso, por enquanto.



20. Bahia


Com a derrota em casa para a Chapecoense o Bahia vai estacionando como pior time do campeonato.


Frustrações Olímpicas

Um pouco mais sobre os Jogos de Londres. Antes uma pequena digressão.

Para mim nosso desempenho nos jogos sempre foi de altos e baixos. Aprendi isso  à base de muita frustração e surpresas. A primeira Olimpíada que acompanhei foi a de Los Angeles, onde chegamos perto de ganhar uma série de medalhas de outro, um tanto beneficiado pelo boicote do leste europeu. E nem foram tantas medalhas assim, foram 8. Mas ver o Joaquim Cruz vencer o Sebastian Coe foi inesquecível, assim como a frustração com o prata de Ricardo Prado, então recordista mundial do 400 metros medley.

Seul já foi meio frustrante, especialmente pelo basquete masculino, que vinha da mítica vitória sobre os Estados Unidos no Pan, e pelo prata de Joaquim Cruz, nossa maios esperança e pela seleção de futebol que foi crescendo na competição e tinha tudo para ganhar o outro.

Barcelona foi uma verdadeira ducha de água fria, apenas 3 medalhas. Valeu pelo outro no volei, superando nosso complexo no esporte de ser sempre uma segunda força.

Foi em Atlanta que nos sentimos realmente bem pela primeira vez. Era praticamente uma medalha por dia. Claro que teve a entrada do volei de praia, mas mesmo assim um salto de 3 para 15 medalhas não pode ser colocado apenas na conta do novo esporte. Passamos a ganhar medalhas na natação, no hipismo, quase conseguimos no tennis. Parecia que enfim alcançaríamos novo patamar.

Aqui começa o problema das expectativas. Se ganhamos 15 em Atlanta, para Sydney passamos a exigir 20. Tínhamos bons motivos para isso, como nossos campeões mundiais Roberto Scheidt e Rodrigo Pessoa. Guga jogando o fino, o volei de praia, a seleção feminina de volei jogando de igual para igual com Cuba e Russia. A imagem da Olimpíada infelizmente foi a do cavalo do Rodrigo Pessoa refugando o obstáculo no caminho para levar o ouro.

De qualquer forma, o patamar de dois dígitos de medalhas se confirmou, embora proporcionalmente nosso número de ouros não seja bom. Parece que falta alguma coisinha para subir no degrau mais alto do pódio.

Então porque a choradeira generalizada sobre nossas campanhas olímpicas? O problema é que políticos, burocratas do esporte e mídia colocam nossas atletas acima de suas reais possibilidades. Somos convencidos a cada ciclo olímpico que temos mais chances do que realmente temos, o que sempre gera uma enorme frustração. A afirmação do COB de que a meta eram de 15 medalhas passou quase despercebida, rodapé de jornal.

O PAN ainda piora ainda mais a situação e o grande exemplo é Tiago Pereira. Suas 20 medalhas no torneio continental se transformaram em uma única olímpica. Para mim, o PAN só serve para mostrar que realmente nossos atletas de alto nível evoluíram uma barbaridade em 20 anos; o problema é que não temos atletas de alto nível em número suficiente.

O modelo de investir no atleta de alto rendimento, coisa que não existia até o final da década de 90 chegou no seu limite. Não adianta enfiar mais dinheiro que não vai sair mais resultado do que isso que temos. O que precisamos é ter mais atletas de alto nível e isso só se faz pela massificação do esporte no país.

Como fazer isso? A primeira resposta é sempre a mesma, dinheiro. Pois eu acho que pode colocar o dinheiro que for no Ministério dos Esportes, não vai dar em nada. Não é verdade que o brasileiro só pensa em futebol, uma grande parte não dá a mínima para nosso esporte mais praticada, só que não dá a mínima para nenhum outro esporte. Nosso problema é cultural.

É fácil falar que o brasileiro só liga para os outros esportes em época de Olimpíadas, mas a pergunta deve ser invertida, por que o brasileiro só se liga em esportes em época de Olimpíadas? O que tem de diferente?

Pensem nisso. 


Agosto, 2012

Estádios cada vez menores



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Na última década um triste fenômeno acometeu a maioria dos times brasileiros, o de buscar os chamados calderões para mandar suas partidas. Inspirados no Boca e seu mítigo La Bombonera, muitos clubes, mesmo os de massa como o Corinthians, preferem jogar partidas decisivas em pequenos estádios com a torcida mais presente.

Acho um triste espetáculo que contrasta as grandes conquistas dos times brasileiros em torneios nacionais e internacionais em grandes arenas lotadas com gente literalmente saindo pelo ladrão. Basta lembrar que o Santos de Pelé preferiu jogar suas decisões de mundiais no Maracanã, o maior estádio do Brasil.

Hoje o Palmeiras anunciou que vai jogar a primeira partida da decisão da Libertadores em Barueri. Corinthians e Santos deixaram de lotar o Morumbi nas semi para jogar na Vila Belmiro e Pacaembu. O mesmo se deu com Vasco, que pelo menos não tinha opção do Maracanã, e Corinthians.

Há dois anos atrás louvei a atitude do Vasco de fazer seus jogos da Série B no Maracanã. O resultado foi fantástico. Jogos lotados, a mística de volta e um título comemorado como se fosse o brasileiro. Resgatou o orgulho vascaíno ferido pelo rebaixamento e colocouo time em um patamar que se mantém até hoje.

Sei dos custos dos grandes estádios, mas quando a espectativa é de lotar a coisa muda de figura. Será que o Palmeiras não consegue lotar o Morumbi para uma final de Libertadores? Duvido! Morumbi para o São Paulo é jogar em casa contra os outros paulistas? Só se for agora, pois durante toda sua história não foi assim. Corinthians, Palmeiras e Santos sempre jogaram no maior estádio paulista contra o tricolor como se fosse campo neutro.

O tamanho do espetáculo diminui os atores. Os clubes deveriam pensar nisso.


Junho, 2012

A Tragédia do Sarriá

Eu assisti esse jogo ao vivo em um quarto de hotel nos Estados Unidos, quando tinha quase 9 anos de idade. Estávamos retornando de um ano fora do Brasil e já naquela época tinha conseguido ver todos os jogos pela televisão. Se o mundialito de 81 tinha sido minha primeira experiência com o futebol, foi o mundial da Espanha que sedimentaria essa paixão. Até hoje, quando me perguntam porque sou Flamengo, respondo a mais pura verdade: porque o Zico jogava no Flamengo. 


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Falar da seleção de 82, e particularmente daquele jogo no Sarriá, é tratar de uma série de lugares comuns. Como a esmagadora maioria dos brasileiros, nunca mais tinha visto esse jogo, sempre associado a um verdadeiro crime com o futebol, uma tragédia. O problema é que ao deixar de lado a realidade, vamos nos convencendo do que queremos acreditar. A tragédia do Sarriá foi um crime sim, mas, como vou demonstrar, um crime praticado por todos nós torcedores que resolvemos expurgar nossos demônios interiores sobre quem não tinha culpa, em um processo que mostra que o choque de realidade não quer dizer que ela seja aceita. O que aconteceu nos dias e meses que se seguiu aquela derrota mostra como uma acontecimento esportivo normal foi se ampliando a ponto de se tornar algo que absolutamente não foi. A realidade naquele dia perdeu. Depois de se mostrar, foi coberta do que o filósofo Eric Voegelin chamaria de símbolos opacos, camadas e mais camadas de mitos e imposturas, a ponto de se tornar uma realidade para cada um de nós.


Antes de rever o jogo, anotei as percepções que eu tinha  daquele jogo. Foram elas:


- A seleção perdeu porque jogou de salto alto. Ao invés de defender, quis ganhar o jogo.


- O momento decisivo do jogo foi o passe errado de Cerezo, o grande culpado pela derrota.


- Quando empatou o jogo, era hora de retrancar. Faltou humildade de dar chutões.


- O Brasil amarelou e jogou uma péssima partida naquele dia.


- O Zico foi caçado em campo pelo Gentile.


- O juiz foi decisivo ao não dar o penalti sobre Zico.


- A época do futebol arte já tinha passado. Era preciso jogar pragmático, para vencer.


De cara me chama atenção algo que é absolutamente normal em jogos da seleção brasileira. Todos os fatores levantados se referem ao nosso time, como se o adversário não existisse. Cada vez mais eu me convenço que enxergamos na seleção os nossos próprios defeitos e aproveitamos as grandes derrotas para expurgá-los. Quando terminou a partida, o comentarista Márcio Guedes disse: é uma pena, uma grande seleção, que encantou a todos, está sendo eliminada da copa. O Brasil deve receber esses jogadores com muito carinho, eles fizeram uma grande campanha. 


Foi justamente o que não aconteceu. O brasileiro virou a cara para esse time, elegeu uma série de vilões, e fez seu expurgo pessoal, projetando na seleção seus próprios demônios. Não foi a seleção que entrou de salto alto, fomos todos nós. Eu, com toda sabedoria dos meus 9 anos, já considerava a vitória no jogo e na copa como certa. Tínhamos o melhor time do mundo! Se o Telê falasse que iria entrar para jogar na retranca, explorando os contra-ataques, iria ser duramente criticado por todos. Todos nós queríamos um show da seleção, todos queríamos ver o futebol arte. Em uma hipocrisia gigantesca passamos a acreditar que na verdade queríamos a copa e foi a seleção que nos traiu querendo jogar bonito. Acho que o país inteiro entrou em surto depois do jogo. 


Toda minha lista de verdades caiu quando revi o jogo no youtube. Toda. Inteira. Foi exatamente o oposto de tudo que eu acreditei ao longo de mais de 30 anos, tudo pela falta de humildade de questionar o meu próprio conhecimento, de rever a partida, de fazer uma análise racional. O que eu considerava verdade era exatamente o oposto. Mentiras em cima de mentiras. O que aconteceu no Sarriá naquele dia? Nada de anormal, simplesmente um jogo de futebol em que o favorito, provavelmente o melhor time, perdeu. Acho interessante que sempre que defendemos o futebol em relação aos outros esportes, falamos que a incerteza do resultado é apaixontante, saber que nem sempre o melhor ganha. Foi assim que o Flamengo ganhou um tri-campeonato em cima de um Vasco que era muito melhor, ou que o Inter superou o Barcelona em 2006, ou que o Grêmio venceu aquele excelente time da Portuguesa de 1996. Mas quando acontece contra nós, a coisa muda um pouco de figura, não é?


O Brasil não jogou de salto alto. Em nenhum momento fez firula, podem assistir o vídeo do jogo. Sempre que teve a bola, buscou a objetividade e com consciência tentou o empate. O problema é que a equipe italiana era muito traiçoeira, fortíssima no contra-ataque, o que fazia dela especialmente perigos


a quando tinha o resultado a seu favor. A grande desvantagem do Brasil naquele dia era que na maior parte do tempo, esteve em desvantagem. Aquela seleção italiana tinha dificuldades em fazer o primeiro gol (como demonstrou na primeira fase), mas depois de abrir o placar era mortífera no contra-ataque. Na final, contra a Alemanha, ficou muito claro. Do 1 x 0 para o 3 x 0 foi um pulo.


Uma equipe normal, enfrentando esse excelente time italiano, depois de tomar 1 x 0 aos cinco minutos de jogo, estaria correndo enorme risco de tomar uma goleada. O Brasil não perdeu porque era uma grande equipe, ele deixou de perder feio porque era uma grande equipe. Buscar um resultado contra a Itália era um feito e tanto, duas vezes era quase impossível. Três era impossível mesmo.


Pois aos cinco minutos, em erro de marcação do Júnior, a Itália fez o primeiro. Ao invés de entrar em desespero, o time foi buscar o resultado com consciência, sabendo que se tomasse mais um a vaca deitava no brejo. Serginho perde um gol feito aos 10, mas aos 13, em excelente jogada do Zico, Sócrates ficou na cara do gol para empatar a partida. Aliás, sobre o Zico, cabe um reparo. Ele jogou muito bem aquela partida e não foi parado com violência. Gentile tomou o cartão amarelo logo aos 10 minutos e a partir daí teve que necessariamente marcar sem bater, e foi o que fez. O penalti no Zico não deixou de ser marcado, o problema é que o bom juiz israelense, que coibiu qualquer violência durante o jogo, marcou uma mão do galinho na ajeitada da bola. Infelizmente não temos o excesso de câmaras que existem hoje e não deu para ver se realmente ajeitou ou não. Mesmo assim o grande erro de arbitragem, daqueles que decidem a partida, não se deu naquele momento. Ocorreu no final do jogo e foi contra nós. Um gol legal da Itália foi anulado quando ela vencia por 3 x 2, o que decretaria o fim das chances brasileiras.


Dos 13 minutos aos 23, foi o tempo que tivemos efetivamente no controle do resultado. Foi o período mais longo em que a Itália tinha contra si. Sempre tivemos na cabeça que os italianos eram excelentes nos contra-ataques, e eram, mas o Brasil era talvez ainda mais mortífero, como mostrou contra a Argentina. Todos os três gols saíram de jogadas de contra-ataque, culminando com aquela entrada magistral do Júnior. A Itália sabia que não poderia ir de qualquer jeito. Muito provavelmente o jogo prosseguiria até perto do seu final com os dois times se respeitando muito e evitando correr riscos demasiados, para só no final a Itália partir para cima.


Aí veio o erro. Escolhemos o Cerezo para cristo, mas o erro tem que ser compartilhado. A bola não foi interceptada antes de chegar na zaga, ela foi interceptada entre três jogadores brasileiros. Procurem no youtube. A bola passa pelo Falcão que deixa para o Luizinho. Paulo Rossi entre no meio de Luizinho e Júnior para roubar a bola. Esse tipo de lance acontece várias vezes e o normal é o zagueiro dar um chutão para a lateral quando percebesse o atacante. O erro de Cerezo foi que o passe foi ruim, mas teve também uma desatenção para impedir que o Rossi chegasse na bola. Dava para fechar o caminho.


Depois desse gol, fiquei observando a atuação do Cerezo. Ele não errou mais nada. Ele sabia da importância do lance, colocar a Itália no seu jogo mais forte, mas não se abalou. Sem aquele lance, a sua atuação estaria no nível das demais, concorrendo para ser o melhor jogador do Brasil na Copa. Infelizmente ficou com a maior parte da culpa, nosso processo de crucificação, e foi praticamente banido da seleção brasileira, como normalmente acontece em Copas do Mundo (vide Dunga, Roberto Carlos, Júlio César), a despeito de ter jogado uma barbaridade ao longo de toda década de 80 na Roma e Sampdória. Ganhou vários títulos, inclusive o único escudetto da Samp. Em 1992 (dez anos depois!), na final da Champions contra o Barcelona, teve direito a um marcador especial, mesmo tendo 37 anos! No ano seguinte, com 38, no São Paulo, foi maestro do time fantástico do Telê contra o Milan, ganhando o título de melhor jogador da final do Mundial de Clubes. No entanto não servia para o Brasil. Foi convocado de novo em 85 mas a pressão da imprensa, particularmente a carioca, foi tão grande que nem entrou em campo. Toninho Cerezo pagou um preço gigante por um único erro e fomos nós que impusemos essa condenação. Quem nunca viu esse fantástico jogador não tem idéia do que é um cabeça de área e fica aí aplaudindo Luis Gustavo, Paulinho, Ramires e Hernanes. 


Bem, aos 23, o Brasil estava novamente em desvantagem. Juntou seus cacos e buscou o resultado. Novamente sem desespero, guardando contra o contra-ataque mortal da Itália, que veio nos início do segundo tempo. A gente lembra da bola perdida por Serginho, mas o gol mais feito daquela tarde no Sarriá foi o que, incrível, Paolo Rossi perdeu na cara do Waldir Peres. Era o 3 x 1 que mataria a partida. Só para lembrar que existia um adversário em campo, o Brasil não estava jogando contra o vento.


Com muita paciência, o time controlou o jogo e foi tendo chances, até que aos 23 minutos do segundo tempo, Falcão recebe um passe de três dedos do Júnior. Cerezo passa que nem uma flexa, arrastando dois marcadores e deixando a entrada da área livre para Falcão avançar e empatar a partida. Começava aí os 6 minutos em que o Brasil teve o resultado a seu favor. Agora vem outra grande mentira, que o Brasil não soube se retrancar para segurar o resultado.


Nesses 9 minutos, não tivemos nenhum contra-ataque italiano. O Brasil foi duas vezes ao ataque, ambas em bolas roubadas no meio. Em uma delas, foi praticamente um dois contra um, com Éder(que jogou sua pior partida da Copa) errando o passe que deixaria Paulo Isidoro na cara do Zoff. Esqueçam aquela balela que o Brasil partiu para ganhar o jogo, não foi bem assim. Tanto que aos 29 minutos, o Brasil tomaria seu gol com 11 jogadores dentro da área, em cobrança de escanteio. Uma bola que foi afastada para fora da área, desvio em Luizinho e sobra para Paulo Rossi. Um golpe de sorte, na hora crucial da partida. Jogos decisivos, disputados em alto nível técnico, geralmente são decididos em um instante, em uma bola que bate na trave, ou em um desvio sem querer, um erro bobo. A sorte não sorriu para o Brasil naquele dia.


Como disse antes, buscar uma terceira igualdade contra a Itália era tarefa impossível. Esqueçam toda aquela organização, não dava mais tempo. O Brasil partiu de qualquer jeito, tomou um gol erradamente anulado aos 42, e teve uma grande defesa do Zoft, um dos melhores da partida, aos 46 em cabeçada do Sócrates, em cima da linha. Não era dia do Brasil.


Em resumo, o Brasil perdeu um jogo de elevado nível técnico, em que jogou bem. Infelizmente houveram dois erros que permitiram que a Itália jogasse em suas melhores condições (no contra-ataque), o que equilibrou a partida. O time não era invencível, como nenhum é, o que ficou evidente naquela tarde no Sarriá. Erros acontecem em uma partida de futebol e se terminasse 2 x 2 seria a Itália a analisar a falha na marcação no empate de Falcão. Aquela seleção tinha idade para ser a espinha da próxima copa, mas ao mesmo tempo que foi endeusada, foi crucificada. Quando a realidade e a percepção entram em choque, o filósofo Rene Girard explica que um bode expiatório é necessário para evitar a explosão da tensão. Infelizmente Cerezo e Telê Santana pagaram o preço, e mesmo Zico foi condenado junto. Era preciso algumas cabeças para poder conviver bem que estávamos todos errados em muitas coisas. Aquela seleção tinha um meio-campo fantástico, mas tinha problemas sérios na defesa e no ataque. Leandro, um dos meus ídolos do futebol, jogou uma copa muito ruim. Estava nervoso e nitidamente não estava preparado para aquela disputa. Júnior alternou grandes momentos com outros péssimos. No jogo contra a Itália, faltou uma grande defesa de Valdir Peres, como Zoft fez. Não importa, a Itália fez uma grande partida, assim como o Brasil, mas as circunstâncias do jogo deixaram o time o tempo inteiro correndo atrás do placar.


Se a seleção brasileira não fosse tão boa, teria perdido aquele jogo por 2 ou 3 a zero. Jogamos contra uma campeã do mundo e cometemos 2 erros cruciais, praticamente dando 2 gols para os italianos. Mesmo assim fomos capazes de buscar o empate e o jogo foi decidido em um golpe de sorte. Coisas do futebol. Em 2010, a Alemanha jogou um excelente futebol, ganhando de Argentina, Inglaterra e Uruguai. Perdeu as semi para a Espanha. Ao invés de buscar culpados, entendeu que era parte do futebol e prosseguiu no trabalho. Com o mesmo treinador e mesma base, está novamente na final de uma copa. Carregando suas cicatrizes e mesmo que perca para a Argentina, sabe que fez o certo. Nós, em 82, traímos uma seleção que amávamos e a condenamos por ter jogado um bom futebol. Se isso não é um comportamento patológico, eu não sei que é. Infelizmente aquela derrota fez muito mal ao futebol brasileiro e o resultado foi uma seleção em 90 e 94 sem meio-campo. Ah, mas ganhou a copa. Pois é, mas sem meio-campo. A coisa prosseguiu e chegamos ao futebol de hoje em que os bons jogadores (cada vez mais raros) são atacantes e os fisicamente fortes são zagueiros, como o meio termo se dividindo entre laterais e cabeças de área. Olhem para o Brasil e onde está um jogador de meio campo criativo? Não existe. O melhor que temos por aqui é o Conca, que nem na seleção argentina tem vaga. Antes deles, destacaram-se dois jogadores praticamente aposentados: Pet e Deco. Tudo porque nos convencemos que talento não ganha jogo, e que tudo que importa é a vitória. Quando conjugamos 82 com 94, fechamos o quadro completo: tá vendo? É preciso jogar feio para ganhar.


Só tem um problema, por mais que evitemos, nossa memória afetiva se prende ao time de 82 e não aos vitoriosos de 94 e 2002. Ninguém fica no youtube vendo os gols e jogos desses times, o que enfurecia Dunga e Parreira, provavelmente Felipão. Todos eles tentaram provar depois que estavam certos, que o pragmatismo era o caminho para título. E foi na derrota que essas seleções mostraram seu valor. Pragmatismo também perde jogo, e quando perde não deixa nenhuma lembrança. Só cinzas.

Pelo fim da polêmica do Brasileiro de 1987

Esta polêmica entre Sport e Flamengo já se arrastou demais. Está na hora de dar uma solução definitiva, e de bom senso.

É direito do Sport pedir o título? Claro que é. A CBF é quem reconhece o título brasileiro e ela, de fato, provocou o ridículo cruzamento entre módulos amarelos e verde em 1987. O argumento que não era justo tirar o módulo amarelo da disputa do campeonato não procede. Em 1987 simplesmente não iria ter campeonato brasileiro, a CBF tinha reconhecido de público que não tinha condições de custear a disputa. Daí a solução do clube dos 13.

A insistência e até virulência com que os dirigentes do Sport rechaçam qualquer tentativa de divisão de título só mostra uma coisa: que de fato o Sport não foi o campeão. Pode ser por direito, mas se fosse de fato não precisaria estar agora gritando tanto e mostrando decisões judiciais.

A decisão atual também não é boa para o Sport. Explico: tirando talvez, os jornais recifenses, a grande maioria da imprensa nacional coloca como campeão o Flamengo com um asterisco. O asterisco vem com a explicação "A CBF considera o Sport campeão...". Ou seja, o Sport não figura no quadro de campeões, entra como um asterisco, no fim da página.

Não basta passar a vida bradando que é campeão, título reconhecido apenas por seus torcedores. É preciso ter reconhecimento nacional, e isso não tem. Talvez imagine que, quando toda a geração que viu o que aconteceu em 1987 desaparecer, possa virar campeão de fato. Acho a hipótese, no mínimo, arriscada.

Quanto foi, no campeonato, Sport x Vasco? Sport x São Paulo? Cruzeiro? Santos? Corinthians? Grêmio? Internacional? Fluminense? Não houve. Pode um time ser campeão brasileiro sem jogar nem uma vez com estes times? Por isso a necessidade de decisão judicial, de ficar bradando que o título é seu. Quem tem não precisa ficar mostrando para todo mundo.

Os dirigentes do Sport precisam entender que a solução de bom senso só pode ser uma: dividir o título. Longe de diminuir o clube, o tiraria do asterisco, do fundo de tabela, da alcunha de "campeão da CBF". Seu título deixaria de ser colocado em segundo plano pela imprensa esportiva, e até pelos torcedores dos outros clubes.

Aí sim poderia ser considerado campeão de fato e de direito. Por que de fato, o Flamengo é. Disputou um campeonato considerado nacionalmente como o campeonato brasileiro, e venceu depois de uma semi-final espetacular contra o grande time do ano: o Galo.

Negar isso é querer viver na irrelevância. Como vive o título do Sport.


u© MARCOS JUNIOR 2013