A Tragédia do Sarriá

Eu assisti esse jogo ao vivo em um quarto de hotel nos Estados Unidos, quando tinha quase 9 anos de idade. Estávamos retornando de um ano fora do Brasil e já naquela época tinha conseguido ver todos os jogos pela televisão. Se o mundialito de 81 tinha sido minha primeira experiência com o futebol, foi o mundial da Espanha que sedimentaria essa paixão. Até hoje, quando me perguntam porque sou Flamengo, respondo a mais pura verdade: porque o Zico jogava no Flamengo. 


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Falar da seleção de 82, e particularmente daquele jogo no Sarriá, é tratar de uma série de lugares comuns. Como a esmagadora maioria dos brasileiros, nunca mais tinha visto esse jogo, sempre associado a um verdadeiro crime com o futebol, uma tragédia. O problema é que ao deixar de lado a realidade, vamos nos convencendo do que queremos acreditar. A tragédia do Sarriá foi um crime sim, mas, como vou demonstrar, um crime praticado por todos nós torcedores que resolvemos expurgar nossos demônios interiores sobre quem não tinha culpa, em um processo que mostra que o choque de realidade não quer dizer que ela seja aceita. O que aconteceu nos dias e meses que se seguiu aquela derrota mostra como uma acontecimento esportivo normal foi se ampliando a ponto de se tornar algo que absolutamente não foi. A realidade naquele dia perdeu. Depois de se mostrar, foi coberta do que o filósofo Eric Voegelin chamaria de símbolos opacos, camadas e mais camadas de mitos e imposturas, a ponto de se tornar uma realidade para cada um de nós.


Antes de rever o jogo, anotei as percepções que eu tinha  daquele jogo. Foram elas:


- A seleção perdeu porque jogou de salto alto. Ao invés de defender, quis ganhar o jogo.


- O momento decisivo do jogo foi o passe errado de Cerezo, o grande culpado pela derrota.


- Quando empatou o jogo, era hora de retrancar. Faltou humildade de dar chutões.


- O Brasil amarelou e jogou uma péssima partida naquele dia.


- O Zico foi caçado em campo pelo Gentile.


- O juiz foi decisivo ao não dar o penalti sobre Zico.


- A época do futebol arte já tinha passado. Era preciso jogar pragmático, para vencer.


De cara me chama atenção algo que é absolutamente normal em jogos da seleção brasileira. Todos os fatores levantados se referem ao nosso time, como se o adversário não existisse. Cada vez mais eu me convenço que enxergamos na seleção os nossos próprios defeitos e aproveitamos as grandes derrotas para expurgá-los. Quando terminou a partida, o comentarista Márcio Guedes disse: é uma pena, uma grande seleção, que encantou a todos, está sendo eliminada da copa. O Brasil deve receber esses jogadores com muito carinho, eles fizeram uma grande campanha. 


Foi justamente o que não aconteceu. O brasileiro virou a cara para esse time, elegeu uma série de vilões, e fez seu expurgo pessoal, projetando na seleção seus próprios demônios. Não foi a seleção que entrou de salto alto, fomos todos nós. Eu, com toda sabedoria dos meus 9 anos, já considerava a vitória no jogo e na copa como certa. Tínhamos o melhor time do mundo! Se o Telê falasse que iria entrar para jogar na retranca, explorando os contra-ataques, iria ser duramente criticado por todos. Todos nós queríamos um show da seleção, todos queríamos ver o futebol arte. Em uma hipocrisia gigantesca passamos a acreditar que na verdade queríamos a copa e foi a seleção que nos traiu querendo jogar bonito. Acho que o país inteiro entrou em surto depois do jogo. 


Toda minha lista de verdades caiu quando revi o jogo no youtube. Toda. Inteira. Foi exatamente o oposto de tudo que eu acreditei ao longo de mais de 30 anos, tudo pela falta de humildade de questionar o meu próprio conhecimento, de rever a partida, de fazer uma análise racional. O que eu considerava verdade era exatamente o oposto. Mentiras em cima de mentiras. O que aconteceu no Sarriá naquele dia? Nada de anormal, simplesmente um jogo de futebol em que o favorito, provavelmente o melhor time, perdeu. Acho interessante que sempre que defendemos o futebol em relação aos outros esportes, falamos que a incerteza do resultado é apaixontante, saber que nem sempre o melhor ganha. Foi assim que o Flamengo ganhou um tri-campeonato em cima de um Vasco que era muito melhor, ou que o Inter superou o Barcelona em 2006, ou que o Grêmio venceu aquele excelente time da Portuguesa de 1996. Mas quando acontece contra nós, a coisa muda um pouco de figura, não é?


O Brasil não jogou de salto alto. Em nenhum momento fez firula, podem assistir o vídeo do jogo. Sempre que teve a bola, buscou a objetividade e com consciência tentou o empate. O problema é que a equipe italiana era muito traiçoeira, fortíssima no contra-ataque, o que fazia dela especialmente perigos


a quando tinha o resultado a seu favor. A grande desvantagem do Brasil naquele dia era que na maior parte do tempo, esteve em desvantagem. Aquela seleção italiana tinha dificuldades em fazer o primeiro gol (como demonstrou na primeira fase), mas depois de abrir o placar era mortífera no contra-ataque. Na final, contra a Alemanha, ficou muito claro. Do 1 x 0 para o 3 x 0 foi um pulo.


Uma equipe normal, enfrentando esse excelente time italiano, depois de tomar 1 x 0 aos cinco minutos de jogo, estaria correndo enorme risco de tomar uma goleada. O Brasil não perdeu porque era uma grande equipe, ele deixou de perder feio porque era uma grande equipe. Buscar um resultado contra a Itália era um feito e tanto, duas vezes era quase impossível. Três era impossível mesmo.


Pois aos cinco minutos, em erro de marcação do Júnior, a Itália fez o primeiro. Ao invés de entrar em desespero, o time foi buscar o resultado com consciência, sabendo que se tomasse mais um a vaca deitava no brejo. Serginho perde um gol feito aos 10, mas aos 13, em excelente jogada do Zico, Sócrates ficou na cara do gol para empatar a partida. Aliás, sobre o Zico, cabe um reparo. Ele jogou muito bem aquela partida e não foi parado com violência. Gentile tomou o cartão amarelo logo aos 10 minutos e a partir daí teve que necessariamente marcar sem bater, e foi o que fez. O penalti no Zico não deixou de ser marcado, o problema é que o bom juiz israelense, que coibiu qualquer violência durante o jogo, marcou uma mão do galinho na ajeitada da bola. Infelizmente não temos o excesso de câmaras que existem hoje e não deu para ver se realmente ajeitou ou não. Mesmo assim o grande erro de arbitragem, daqueles que decidem a partida, não se deu naquele momento. Ocorreu no final do jogo e foi contra nós. Um gol legal da Itália foi anulado quando ela vencia por 3 x 2, o que decretaria o fim das chances brasileiras.


Dos 13 minutos aos 23, foi o tempo que tivemos efetivamente no controle do resultado. Foi o período mais longo em que a Itália tinha contra si. Sempre tivemos na cabeça que os italianos eram excelentes nos contra-ataques, e eram, mas o Brasil era talvez ainda mais mortífero, como mostrou contra a Argentina. Todos os três gols saíram de jogadas de contra-ataque, culminando com aquela entrada magistral do Júnior. A Itália sabia que não poderia ir de qualquer jeito. Muito provavelmente o jogo prosseguiria até perto do seu final com os dois times se respeitando muito e evitando correr riscos demasiados, para só no final a Itália partir para cima.


Aí veio o erro. Escolhemos o Cerezo para cristo, mas o erro tem que ser compartilhado. A bola não foi interceptada antes de chegar na zaga, ela foi interceptada entre três jogadores brasileiros. Procurem no youtube. A bola passa pelo Falcão que deixa para o Luizinho. Paulo Rossi entre no meio de Luizinho e Júnior para roubar a bola. Esse tipo de lance acontece várias vezes e o normal é o zagueiro dar um chutão para a lateral quando percebesse o atacante. O erro de Cerezo foi que o passe foi ruim, mas teve também uma desatenção para impedir que o Rossi chegasse na bola. Dava para fechar o caminho.


Depois desse gol, fiquei observando a atuação do Cerezo. Ele não errou mais nada. Ele sabia da importância do lance, colocar a Itália no seu jogo mais forte, mas não se abalou. Sem aquele lance, a sua atuação estaria no nível das demais, concorrendo para ser o melhor jogador do Brasil na Copa. Infelizmente ficou com a maior parte da culpa, nosso processo de crucificação, e foi praticamente banido da seleção brasileira, como normalmente acontece em Copas do Mundo (vide Dunga, Roberto Carlos, Júlio César), a despeito de ter jogado uma barbaridade ao longo de toda década de 80 na Roma e Sampdória. Ganhou vários títulos, inclusive o único escudetto da Samp. Em 1992 (dez anos depois!), na final da Champions contra o Barcelona, teve direito a um marcador especial, mesmo tendo 37 anos! No ano seguinte, com 38, no São Paulo, foi maestro do time fantástico do Telê contra o Milan, ganhando o título de melhor jogador da final do Mundial de Clubes. No entanto não servia para o Brasil. Foi convocado de novo em 85 mas a pressão da imprensa, particularmente a carioca, foi tão grande que nem entrou em campo. Toninho Cerezo pagou um preço gigante por um único erro e fomos nós que impusemos essa condenação. Quem nunca viu esse fantástico jogador não tem idéia do que é um cabeça de área e fica aí aplaudindo Luis Gustavo, Paulinho, Ramires e Hernanes. 


Bem, aos 23, o Brasil estava novamente em desvantagem. Juntou seus cacos e buscou o resultado. Novamente sem desespero, guardando contra o contra-ataque mortal da Itália, que veio nos início do segundo tempo. A gente lembra da bola perdida por Serginho, mas o gol mais feito daquela tarde no Sarriá foi o que, incrível, Paolo Rossi perdeu na cara do Waldir Peres. Era o 3 x 1 que mataria a partida. Só para lembrar que existia um adversário em campo, o Brasil não estava jogando contra o vento.


Com muita paciência, o time controlou o jogo e foi tendo chances, até que aos 23 minutos do segundo tempo, Falcão recebe um passe de três dedos do Júnior. Cerezo passa que nem uma flexa, arrastando dois marcadores e deixando a entrada da área livre para Falcão avançar e empatar a partida. Começava aí os 6 minutos em que o Brasil teve o resultado a seu favor. Agora vem outra grande mentira, que o Brasil não soube se retrancar para segurar o resultado.


Nesses 9 minutos, não tivemos nenhum contra-ataque italiano. O Brasil foi duas vezes ao ataque, ambas em bolas roubadas no meio. Em uma delas, foi praticamente um dois contra um, com Éder(que jogou sua pior partida da Copa) errando o passe que deixaria Paulo Isidoro na cara do Zoff. Esqueçam aquela balela que o Brasil partiu para ganhar o jogo, não foi bem assim. Tanto que aos 29 minutos, o Brasil tomaria seu gol com 11 jogadores dentro da área, em cobrança de escanteio. Uma bola que foi afastada para fora da área, desvio em Luizinho e sobra para Paulo Rossi. Um golpe de sorte, na hora crucial da partida. Jogos decisivos, disputados em alto nível técnico, geralmente são decididos em um instante, em uma bola que bate na trave, ou em um desvio sem querer, um erro bobo. A sorte não sorriu para o Brasil naquele dia.


Como disse antes, buscar uma terceira igualdade contra a Itália era tarefa impossível. Esqueçam toda aquela organização, não dava mais tempo. O Brasil partiu de qualquer jeito, tomou um gol erradamente anulado aos 42, e teve uma grande defesa do Zoft, um dos melhores da partida, aos 46 em cabeçada do Sócrates, em cima da linha. Não era dia do Brasil.


Em resumo, o Brasil perdeu um jogo de elevado nível técnico, em que jogou bem. Infelizmente houveram dois erros que permitiram que a Itália jogasse em suas melhores condições (no contra-ataque), o que equilibrou a partida. O time não era invencível, como nenhum é, o que ficou evidente naquela tarde no Sarriá. Erros acontecem em uma partida de futebol e se terminasse 2 x 2 seria a Itália a analisar a falha na marcação no empate de Falcão. Aquela seleção tinha idade para ser a espinha da próxima copa, mas ao mesmo tempo que foi endeusada, foi crucificada. Quando a realidade e a percepção entram em choque, o filósofo Rene Girard explica que um bode expiatório é necessário para evitar a explosão da tensão. Infelizmente Cerezo e Telê Santana pagaram o preço, e mesmo Zico foi condenado junto. Era preciso algumas cabeças para poder conviver bem que estávamos todos errados em muitas coisas. Aquela seleção tinha um meio-campo fantástico, mas tinha problemas sérios na defesa e no ataque. Leandro, um dos meus ídolos do futebol, jogou uma copa muito ruim. Estava nervoso e nitidamente não estava preparado para aquela disputa. Júnior alternou grandes momentos com outros péssimos. No jogo contra a Itália, faltou uma grande defesa de Valdir Peres, como Zoft fez. Não importa, a Itália fez uma grande partida, assim como o Brasil, mas as circunstâncias do jogo deixaram o time o tempo inteiro correndo atrás do placar.


Se a seleção brasileira não fosse tão boa, teria perdido aquele jogo por 2 ou 3 a zero. Jogamos contra uma campeã do mundo e cometemos 2 erros cruciais, praticamente dando 2 gols para os italianos. Mesmo assim fomos capazes de buscar o empate e o jogo foi decidido em um golpe de sorte. Coisas do futebol. Em 2010, a Alemanha jogou um excelente futebol, ganhando de Argentina, Inglaterra e Uruguai. Perdeu as semi para a Espanha. Ao invés de buscar culpados, entendeu que era parte do futebol e prosseguiu no trabalho. Com o mesmo treinador e mesma base, está novamente na final de uma copa. Carregando suas cicatrizes e mesmo que perca para a Argentina, sabe que fez o certo. Nós, em 82, traímos uma seleção que amávamos e a condenamos por ter jogado um bom futebol. Se isso não é um comportamento patológico, eu não sei que é. Infelizmente aquela derrota fez muito mal ao futebol brasileiro e o resultado foi uma seleção em 90 e 94 sem meio-campo. Ah, mas ganhou a copa. Pois é, mas sem meio-campo. A coisa prosseguiu e chegamos ao futebol de hoje em que os bons jogadores (cada vez mais raros) são atacantes e os fisicamente fortes são zagueiros, como o meio termo se dividindo entre laterais e cabeças de área. Olhem para o Brasil e onde está um jogador de meio campo criativo? Não existe. O melhor que temos por aqui é o Conca, que nem na seleção argentina tem vaga. Antes deles, destacaram-se dois jogadores praticamente aposentados: Pet e Deco. Tudo porque nos convencemos que talento não ganha jogo, e que tudo que importa é a vitória. Quando conjugamos 82 com 94, fechamos o quadro completo: tá vendo? É preciso jogar feio para ganhar.


Só tem um problema, por mais que evitemos, nossa memória afetiva se prende ao time de 82 e não aos vitoriosos de 94 e 2002. Ninguém fica no youtube vendo os gols e jogos desses times, o que enfurecia Dunga e Parreira, provavelmente Felipão. Todos eles tentaram provar depois que estavam certos, que o pragmatismo era o caminho para título. E foi na derrota que essas seleções mostraram seu valor. Pragmatismo também perde jogo, e quando perde não deixa nenhuma lembrança. Só cinzas.

u© MARCOS JUNIOR 2013