Bíblia

O Livro de Isaías

O profeta e a consciência do povo hebreu


"Vossas mãos estão cheias de sangue:

lavai-vos, purificai-vos!

Tirai da minha vista vossas más ações!

Cessai de praticar o mal,

aprendei a fazer o bem!" (1-16)


Um dos traços da condição humana é o eterno conflito entre a a vontade e a consciência. Nem tudo que desejamos fazer é certo e isso constitui para nós uma tensão permanente, que se reproduz no nível civilizacional pela relação sempre conflituosa entre a classe política e a classe sacerdotal.

Enquanto os políticos exercem o poder imanente, a classe sacerdotal constitui não do poder transcendente, mas sua representação; é a intérprete e consciência dos governos, sempre lembrando que o poder mundano deve ser exercido em conformidade com as leis divinas.

Israel não foi exceção. Quando Iahweh fez o pacto com Abraão e Israel se tornou o povo escolhido, uma obrigação se estabeleceu. E como toda obrigação, surge uma consciência, uma lembrança de uma promessa feita.

A história de Israel não é a de uma civilização que se submeteu inteiramente ao pacto com seu Deus. Constantemente se rebelou, flertou com a adoração de outros deuses, teve saudade da escravidão no Egito e muitas vezes esteve próxima de romper o pacto. E se não o fizeram, muito se deve ao papel dos profetas.

Pode-se dizer que o profeta era a consciência não só dos governantes, mas do próprio povo judeu. Eram homens que ousavam cobrar publicamente os reis e juízes em suas traições à Iahweh. Assim como cobravam o povo, que reclamava da dureza de sua condição material e suspiravam pela vida melhor que deixaram no êxodo.

Isaías foi um dos principais profetas de Israel. Viveu em uma época em que o emaranhado de clãs e tribos, que formavam o povo judeu, viviam constantemente ameaçados pelos Impérios de sua época, como o Egípcio e o Assírico. Os reis, imersos no pragmatismo político, buscavam alianças e ameaçavam abandonar a aliança.

Foi uma época de corrupção moral, simbolizada por Jerusalém, tema da primeira parte do livro de Isaías. Nele, profetiza sobre o terrível destino que teria a cidade. No plano simbólico mostra que o pecado sempre termina em sofrimento. Trata-se da consciência de Israel chamando-a ao dever.

Um povo ingrato, manifestava-se pela hipocrisia. Oferendas conviviam lado a lado com a prática do mal, apesar da exteriorização do custo à Iahweh, prevalecia a iniquidade. Jerusalém simbolizava, como uma prostituta, a corrupção do povo de Deus. Isaías profetizava a queda de Jerusalém ao mesmo tempo que afirmava que de lá viria a lei e a palavra de Iahweh, antecipando o calvário.

"Como se transformou em prostituta, a cidade fiel?

Sião, onde prevalecia o direito, onde habitava a justiça,

mas agora, povoado de assassinos"

Isaías profetizava também sobre o destino dos reinos estrangeiros, particularmente sobre a queda da Babilônia e a conversão do Egito. Mostrava que o poder mundano era insignificante diante do poder de Iahweh. Completava com o anúncio do Apocalipse e o triunfo final de Israel.

A segunda parte é uma mensagem de consolação, o que muito explica a sobrevivência de Israel independente de sua situação pragmática. Nenhuma outra civilização teve destruída suas instituições, perdido seu território e existência como estado e sobrevivido como o povo hebreu. O sofrimento da terra será compensado com a justiça que se aproxima. A única exigência é a fé na aliança firmada. 

Isaías trata também da relação de Israel com os outros povos, profetizando sobre o que estaria por vir. Por mais poder que tivessem os reis terminariam por se prostar ao Deus único de Israel. A universalidade da mensagem monoteísta surge em tensão permanente à própria aliança. Poderia a salvação vir para todos e não apenas para o povo escolhido? Poderia Israel ser apenas o precursos da mensagem de Deus e não seu único destinatário?

"Assim Babilônia, a pérola entre os reinos,

o adorno e o orgulho dos caldeus,

será como Sodoma e Gomorra,

que foram reduzidas a ruína por Deus." (13:19)

A vinda do messias também era um dos temas do profeta. Deus se manifestaria na terra através do símbolo do cordeiro sofredor.

" Eis o meu servo que eu sustento,

o meu eleito, em quem tenho prazer.

Pus sobre ele o meu espírito,

ele trará o direito às nações. " (42:1)

A terceira parte retoma o tema da corrupção moral de Israel, a queda na idolatria. Anunciava um segundo êxodo pois na época Israel estava dominado pela Babilônia e a relação especial do povo hebreu com Iahweh. O julgamento se aproximava e o destino das almas seria definido.

O livro de Isaías, o primeiro dos chamados profetas maiores, cumpre todos os papéis de um verdadeiro profeta. Mostra o que está por vir, contraria os reis e o povo com sua lembrança da aliança, evoca o papel consolador do Deus único.

Se o mundo ocidental nunca perdoou Israel por ter trazido ao mundo a consciência ao nível civilizacional, como apontado por ninguém menos do que Adolf Hitler, coube aos profetas fazer o mesmo com o povo hebreu. Não por acaso os profetas foram perseguidos e muitos terminaram muito mal. 

Se papel, entretanto, foi fundamental para que a aliança com Iahweh não fosse perdida no tempo e chegasse ao nosso tempo praticamente intacta.

Isaías talvez tenha sido o maior deles e o livro atribuído a ele é um dos mais belos de toda a Bíblia, tanto em estilo como na profundidade de sua mensagem.

" O justo perece e ninguém se incomoda,

os homens piedosos são ceifado,

sem que ninguém tome conhecimento.

Sim, o justo foi ceifado,

vítima da maldade,

mas ele alcançará a paz:

os que trilharam o caminho reto

repousarão sobre o seu leito."  (57:1-2)



Livro de Ruth - Bíblia

By Marcos Jr

[15 de Junho de 2013]

Resumo

Conta a história de Ruth e sua sogra Noemi, que viúvas se ajudam para tentar sobrevir na difícil situação que se encontravam. Ruth conhece Booz, um parente distante de Noemi, um homem importante, chefe de um clã, ao coletar respingos em suas terras. Ele se apaixona pela jovem viúva mas tem que enfrentar uma dificuldade, pela lei havia um outro parente que teria a primazia em resgatá-la, ou seja, contrair segundas núpciais

Pontos Principais

  • solidariedade entre pessoas que nada tem a oferecer umas as outras;
  • honestidade, trabalho e fé;
  • fidelidade, cuidar dos idosos desamparados; foi o ato de Ruth para com Noemi que a elevou aos olhos de Booz
  • garantia de perpetualidade;
  • providência divina.

Aplicações Pessoais

  • Nos momentos difíceis ter fé na providência divina
  • quando as coisas estiverem dando errado, trabalhar com honestidade e aguardar
  • lembrar que temos que cuidar dos nossos, especialmente dos necessitados

Citações

Por que encontrei furor a teus olhos, de modo que te interesses por mim, que não passo de uma estrangeira? (2:10)

Bendito seja Iahweh, que não te deixou sem alguém que possa te resgatar, que o seu nome seja célebre em Israel! Ele será para ti um consolador e um apoio na velhice, pois quem o gerou é tua nora, que te ama, que para ti vale mais do que sete filhos (4:13-15)

E disse ele: Bendito sejas por Deus, minha filha; este teu novo ato de piedade excede o primeiro, pois não procuraste jovens, pobres ou ricos.


Carta aos Hebreus

Uma nova aliança



Existe muita polêmica sobre a autoria de Paulo sobre a carta aos hebreus. O estilo é tão diferente das demais que muitos estudiosos consideram que seria outro o autor, mas isso é outra estória. É sempre bom ter em mente que os diversos livros da Bíblia foram escritos para públicos diferentes, embora possam ser compreendidos por qualquer um. Nesse caso em particular, Paulo se dirigia aos hebreus, povo que conhecia muito bem por ter sido um sacerdote judeu. Sem entrar em polêmicas de autoria, o que importa mesmo é a mensagem.

Para entender o texto deve-se considerar que os hebreus, na época de Cristo, aguardavam o Messias prometido pelos profetas. A base da lei era o código mosaico e Moisés era, e ainda é, a figura central da religião judaica. Jesus Cristo era visto como um falso Messias, uma espécie de agitador que distorcia o texto sagrado a ponto de desfigurá-lo. A pior acusação dos judeus aos cristãos era de negarem Moisés.

Paulo sabia de tudo isso pois tinha sido um dos principais perseguidores de sua época. Após sua conversão em Damasco, e do tempo de exílio para meditação, compreendia bem a resistência que teria de vencer. A carta aos Hebreus tinha como principal objetivo mostrar que Jesus não tinha vindo para derrubar Moisés, mas para dar prosseguimento à mensagem de Deus, celebrando uma segunda aliança, dessa vez não circunscrita a Israel, mas à toda humanidade.

Essa aliança era superior à anterior pois fora construída pelo sacrifício do sacerdote, o próprio Jesus, e não pelos ritos externos que caracterizavam a fé judaica de então. No novo contrato, apenas o próprio sacrifício era aceito na relação com Deus, um sacrifício do orgulho próprio, dos bens materiais, dos vícios. A base da relação passava a ser a caridade, o amor ao próximo; os ritos e sacrifícios de animais muito comuns na época não tinham nenhum sentido para Deus. Era no próprio espírito que se forjava a nova aliança.

Paulo tem o cuidado de citar inúmeras passagens do velho testamento e mostrar como a vinda de Jesus dava comprimento ao que havia sido dito. Frequentemente usa a razão para seus argumentos, como ao comparar a punição que um pai dá aos filhos para educá-los com os castigos divinos. É um trabalho de um homem de fé, mas também de um doutor da lei.

O texto é extremamente poético e inspirado. É um convite para que os hebreus dessem o passo necessário para ingressar na nova aliança, para abrir seu coração para Jesus e para Deus. Para isso teriam que aceitar que Jesus não tinha vinda falar apenas com os hebreus, mas com toda a humanidade. Aceitar Jesus exigia um primeiro sacrifício do orgulho, de não se mais um povo eleito, de fazer parte de toda uma História de queda e redenção.


Junho, 2012

Epístola aos Gálatas


Uma das questões centrais de uma religião são seus ritos, suas práticas estabelecidas. Isso era muito presente no tempo de Jesus entre os judeus e Paulo bem o sabia como ex-rabino. A religião hebráica havia se tornando uma fonte exterioridades, tomando o lugar da verdadeira fé. Para os hebreus, tudo era a Lei, que na época era representada pela lei mosaica.

Na epístola aos Gálatas, Paulo vem reforçar mais uma vez sua missão cristã e sua conversão. Não era pelas obediência aos códigos religiosos, muitos já afastados da verdadeira ligação com Deus, que os homens seriam salvos; mas pela prática dos ensinamentos de Cristo. Dessa forma ele coloca aos gálatas uma oposição entre fé e a Lei. Não a lei de Deus, mas a lei que resumia o rigor religioso separado da divindade.

cremos em Cristo Jesus para sermos justificados pela fé em Cristo e não pelas obras de Lei, porque pelas obras da Lei ninguém será justificado.

Paulo argumenta que a promessa feita a Abraão referia-se à sua descendência e não aos seus descendentes. Esta descendência era Cristo. Os verdadeiros filhos de Abraão são os que tem, como ele, a fé no coração. O papel da Lei, centro do velhos testamento, foi guadar e tutelar um povo rude e bárbaro até que tivessem condições de receberem a fé.

Paulo quebra a noção de que a salvação era uma prerrogativa do povo judeus, fruto da aliança com Deus. A salvação era para todos.

Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; pois todos vós sois um só em Cristo Jesus.


Poucos se dão conta dessa formidável frase do apóstolo dos gentios; do avanço que era para sua época. Igualava os judeus aos gregos (que representavam os não judeus), escravos e homens livres, homem e mulher. Essas coisas só começaram a ser compreendidas pelos homens muitos séculos depois; e não por acaso que a penetração do cristianismo se deu primeiro pelos mais humildes a ponte de ser chamado de religião de mulheres e escravos.

Por fim, Paulo coloca também a questão do espírito e a carne. Antecipando o que veríamos cada vez mais presente em nossa vida hoje, exortava para que nos guiássemos pelo espírito e não pela carne. A liberdade não poderia ser um pretexto para a carne, mas, pela caridade, a forma de nos colocar a serviço uns dos outros. Uma mensagem que vai contra tudo que a modernidade nos apresenta onde ser livre parece ser dispor de todos os prazeres materiais sem sentir culpa. Conclui:

LO que o homem semear, isso colherá: quem semear na sua carne, da carne colherá corrupção; quem semear no espírito, do espírito colherá a vida eterna.




Gênesis

Uma vez um grande amigo meu definiu a Bíblia como o manual do fabricante. Nunca esqueci essa definição, que por sinal veio a minha mente várias vezes enquanto lia o primeiro de seus livros, Gênesis.

Nos últimos anos tenho me dedicado algum tempo à leitura da Bíblia. Não estou lendo os livros na ordem, nem segundo alguma indicação. Nem mesmo aleatoriamente. Na verdade meu método é simples, leio os livros à medida que algo me inspira a ler um livro em particular. No caso da Gênesis, foi uma explicação do Olavo de Carvalho sobre a árvore do Conhecimento do Bem e do Mal.

Dos livros que li, talvez a Gênesis seja o que mais se aproximou da definição do meu dileto amigo. É simplesmente uma coletânea sobre a condição humana. Já escutei argumentos que a Bíblia não pode ser considerado um livro religioso porque tem tudo de ruim que um homem pode fazer. Pois eu inverto a questão, talvez seja um livro religioso, até mesmo santo, por justamente conter tudo de ruim que um homem pode fazer. Só que não justifica nenhum desses pecados, pelo contrário, há uma nítida pedagogia moral que caminha no sentido das virtudes, culminando nas chamadas virtudes cristãs.

Mas o Gênesis ainda está muito longe da chegada de Cristo; ainda temos o homem em seus primórdios.

Boa parte da incompreensão de sua leitura está no aspecto literal da coisa, esquecendo que trata-se de um livro de experiências de fé e religiosidade. A preocupação com a exatidão histórica e científica não é seu principal foco, embora haja uma nítida preocupação com um esboço de sequência histórica, algo talvez inédito na humanidade.

No Gênesis temos de tudo um pouco: assassinatos, incestos, prostituição, vingança, fanatismo, poligamia, estupro, e por aí vai. Desde a queda de Adão, passando pela morte de Abel, terminando com José, poderoso no Egito. Aliás, é interessante que em troca dos alimentos que por sua atuação o governo egípcio guardara para os sete anos de carestia, José tenha escravizado quase todo o país. Talvez seja a primeira mostra do quanto custa a ajuda do Estado!

Comprou assim José, para o Faraó, todos os terrenos do Egito, pois os egípcios venderam, cada qual, o seu campo, tanto os impelia a fome, o país passou às mãos do Faraó. Quantos aos homens, ele os reduziu à servidão, de uma extremidade a outra do território egípcio.

O Gênesis é interessante porque realmente retrata a condição humana. Praticamente não escapa ninguém, todos têm seus pecados, mas conseguem se sobressair ao meio em que vivem, mostrando que o homem sempre pode superar a si mesmo e ao mundo ao seu redor. O próprio José que chega ao Egito como escravo, consegue se tornar o segundo homem do país, atrás apenas do Faraó. Um dos seus méritos foi nunca ter se revoltado, ao contrário ter no próprio esforço, e na abertura para a intervenção divina, encontrado os meios para superar sua condição. Mais ainda, mesmo em uma época rude, como todo poder que tinha, foi capaz de perdoar os irmãos que o tinham vendido.

Olhando para os tempos de hoje, onde se procura a toda hora colocar nos outros ou na situação a culpa pelos próprios fracassos, o Gênesis é um sonoro tapa na cara. Outro exemplo de perdão, o de Esaú a seu irmão Jacó, que o enganara obtendo junto ao pai os direitos de primogenitura.

Não se pode esquecer que esses fatos narrados no Gênesis, e na Bíblia, não são defendidos pela religião cristã ou judaica, ao contrário, são muitas vezes punidas por Deus. Daí seu aspecto pedagógico, Deus vai através da história realizando o ensino moral. Se no início a poligamia era tolerada, logo se torna uma anátema. Assim como o olho por olho de origem babilônica se torna o evangelho do perdão.

Os livros da Bíblica são tão ricos, e com tantos significados, que podem ser lidos dos mais variados pontos de vista. Um livro religiosos, um livro de sabedoria, um livro histórico (ainda que imperfeito), um livro pedagógico, uma coleção de estórias e arquétipos da condição humana. Quem vive no Ocidente e nunca parou para ler seriamente suas páginas, não tem como compreender a verdadeira natureza da sua própria cultura.

O Gênesis é o começo dessa estranha estória, como definiu com muita propriedade Chesterton. A mais estranha estória já contada sobre a terra. Uma estória que começa com a aliança entre um Deus único com o homem, representado por Abraão e o povo hebreu. A eles foi dada a missão de conduzir o homem para o caminho do bem, para junto de Deus.

E mais uma vez os homem falhariam. Mas essa é outra história.



u© MARCOS JUNIOR 2013