Carta aos Hebreus

Uma nova aliança



Existe muita polêmica sobre a autoria de Paulo sobre a carta aos hebreus. O estilo é tão diferente das demais que muitos estudiosos consideram que seria outro o autor, mas isso é outra estória. É sempre bom ter em mente que os diversos livros da Bíblia foram escritos para públicos diferentes, embora possam ser compreendidos por qualquer um. Nesse caso em particular, Paulo se dirigia aos hebreus, povo que conhecia muito bem por ter sido um sacerdote judeu. Sem entrar em polêmicas de autoria, o que importa mesmo é a mensagem.

Para entender o texto deve-se considerar que os hebreus, na época de Cristo, aguardavam o Messias prometido pelos profetas. A base da lei era o código mosaico e Moisés era, e ainda é, a figura central da religião judaica. Jesus Cristo era visto como um falso Messias, uma espécie de agitador que distorcia o texto sagrado a ponto de desfigurá-lo. A pior acusação dos judeus aos cristãos era de negarem Moisés.

Paulo sabia de tudo isso pois tinha sido um dos principais perseguidores de sua época. Após sua conversão em Damasco, e do tempo de exílio para meditação, compreendia bem a resistência que teria de vencer. A carta aos Hebreus tinha como principal objetivo mostrar que Jesus não tinha vindo para derrubar Moisés, mas para dar prosseguimento à mensagem de Deus, celebrando uma segunda aliança, dessa vez não circunscrita a Israel, mas à toda humanidade.

Essa aliança era superior à anterior pois fora construída pelo sacrifício do sacerdote, o próprio Jesus, e não pelos ritos externos que caracterizavam a fé judaica de então. No novo contrato, apenas o próprio sacrifício era aceito na relação com Deus, um sacrifício do orgulho próprio, dos bens materiais, dos vícios. A base da relação passava a ser a caridade, o amor ao próximo; os ritos e sacrifícios de animais muito comuns na época não tinham nenhum sentido para Deus. Era no próprio espírito que se forjava a nova aliança.

Paulo tem o cuidado de citar inúmeras passagens do velho testamento e mostrar como a vinda de Jesus dava comprimento ao que havia sido dito. Frequentemente usa a razão para seus argumentos, como ao comparar a punição que um pai dá aos filhos para educá-los com os castigos divinos. É um trabalho de um homem de fé, mas também de um doutor da lei.

O texto é extremamente poético e inspirado. É um convite para que os hebreus dessem o passo necessário para ingressar na nova aliança, para abrir seu coração para Jesus e para Deus. Para isso teriam que aceitar que Jesus não tinha vinda falar apenas com os hebreus, mas com toda a humanidade. Aceitar Jesus exigia um primeiro sacrifício do orgulho, de não se mais um povo eleito, de fazer parte de toda uma História de queda e redenção.


Junho, 2012

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