Boécio

boecio


A Consolação da Filosofia

Boethius_and_Philosophy


Um dos problemas de quem deseja se iniciar na filosofia é saber por onde começar. Se buscar um conselho na academia brasileira, provavelmente vai parar em algum livro de história da filosofia; pior, em um livro da Marilena Chauí. Não me levem a mal, existem excelentes livros de história da filosofia, como os de Giovani Reale, mas não são livros de filosofia. É o mesmo que começar a estudar qualquer ciência com a história daquela ciência; o normal é o contrário, depois que se toma gosto pela matemática é que alguns se interessam pela história da matemática.

O problema da história da filosofia é que longe de ter alguma idéia do que seja filosofia, você provavelmente vai terminar com uma relacão de autores e obras, pensamentos competamente díspares, métodos diversos e nenhuma unidade. No máximo estará adquirindo cultura filosófica e vai poder sair dizendo frases e pensamentos sem ter realmente idéia do que significam, como se articulam, nem para que servem . Vai ter a impressão que a filosofia é uma ciência totalmente abstrata sem aplicação prática, que os filósofos se equivalem e que trata-se de uma grande salada onde todo mundo fala sobre tudo. Foi como comecei e por isso sei bem onde tudo isso vai dar. Um filósofo autêntico, ou um bom professor de filosofia, vai lhe indicar algum livro realmente de filosofia, preferencialmente em linguagem clara e sem tecnicismo, mas que consiga captar sua unidade. Um desses livros é A Consolacão da FIlosofia, de Boécio.

Boécio foi um senador do século VI, nos finalmentes do Império Romano, que é injustamente condenado à morte e aguarda sua excecução em uma cela.  Confortado pela musa dos poetas, escreve suas lamentações e sofrimentos. É quando surge a Filosofia, sua enfermeira, que toma o lugar da musa e passa a conversar com ele, refletindo sobre os problemas da existência humana e seu propóstio. Dá-se então um maravilhoso diálogo entre uma alma atormentada pela injustiça da existência mundana, um de nós, com a Filosofia, que procura colocar este sofrimento em um contexto maior onde a aparente injustiça se encaixe em uma ordem que transcende nossa existência e que revela a perfeição da obra divina.

O livro I trata justamente das lamentações de Boécio e o início do diálogo com a filosofia. Como enfermeira da alma, ela mostra que o primeiro passo para a cura é entender e expressar a própria doença, o que Boécio faz com toda sua amargura. Ela o conforta ensinando que é a incapacidade do homem de conhecer a natureza de si mesmo e das coisas a seu redor que gera sua infelicidade; portanto é papel a filosofia fazê-lo conhecer a ordem em que vivemos e libertar o homem de sua ignorância.

O livro 2 trata do papel do destino, ou seja, das coisas que nos acontecem, boas ou ruins. A essência de sua atuação é a mudança e sempre estarão nos acontecendo ventos favoráveis e desfavoráveis, muitas vezes em aparente aleatoriedade. O sofrimento não vem das coisas em si, mas das nossas falsas espectativas e incapacidade de perceber que a busca da felicidade fora de nós mesmos é um erro. O homem precisa se conhecer e viver para sua integridade se quiser se libertar das coisas que acontecem com ele, ou seja, do domínio do destino. O destino na verdade é um instrumento divino para ajudar o homem no seu caminho de volta para Deus, fazendo-o vencer e superar seu próprio desconhecimento.

No livro 3, o tema é o propósito das coisas e especialmente do homem. Retomando um tema caro a Platão e Aristóteles, a filosofia argumenta que o destino final do homem é a felicidade verdadeira e não o que normalmente se considera como felicidade. Ela cita cinco falsas felicidades: riqueza, posição, poder, fama e prazer. Longe de ser um verdadeiro bem, são falsas realizações, que afastam o homem da felicidade justamente por se assemelhar a ela, mas devido à sua temporalidade, acabam levando-o apenas ao sofrimento e infelicidade. O fim de todas as coisas é o supremo bem, a combinação de todas as virtudes, ou seja, Deus.

“Acaso existe algum homem que possua uma felicidade tão perfeita que não se queixe de algo? A felicidade terrestre traz sempre consigo preocupações e, além de nunca ser completa, sempre tem um termo.”

O livro 4 trata da infelicidade do homem. A injustiça que observa e experimenta é ilusória e entendida desta forma apenas por sua incapacidade de ver o quadro completo da sua própria existência. Através da sedução dos prazeres efêmeros o homem passa da virtude ao vício em um processo destrutivo que ao invés de libertá-lo o conduz a prisão de sua existência material. Apenas a bondade é capaz de o guiar no caminho da verdadeira liberdade pois o livra do medo de tudo que possa acontecê-lo de ruim pois entende que ao homem de bem apenas acontece o que é melhor para ele, por pior que esta coisa pareça na hora. A bondade eleva o homem acima do nível da humanidade, enquanto a maldade o rebaixa ao nível dos animais. É pelo conhecimento da própria natureza que o homem se torna efetivamente humano, essa é sua essência. A natureza do homem, portanto, é ser bom. A sua incompreensão da justiça divina é consequência de sua incapacidade de contemplar a ordem divina; por isso não entende que a felicidade do mau consiste em ser punido e sempre que consegue o prazer que ambiciona termina mais infeliz do que era antes, mesmo que inicialmente aparente o contrário. Deus não deixa nada sem punição devida, da mesma maneira que sempre o bem será recompensado. 

Finalmente, o livro 5 trata de uma questão complicada que sempre angustiou o homem, a questão do livre arbítrio. Como se pode conciliar a imagem de um Deus que tudo controla e tudo sabe com a liberdade do homem? Como podemos ser livres se nossas ações são pré-determinadas? A filosofia argumenta com Boécio que a confusão do homem sobre essa questão deriva dos limites de sua razão, que não consegue atingir a inteligência divina. O processo de conhecimento do homem começa pelos sentidos, passa pela imaginacão até chegar no uso da razão e finalmente na inteligência. As duas primerias, o homem compartilha com os demais animais, a razão é sua exclusiva e a intelgência é divina. As superiores englobam as inferiores, mas as inferiores não garentem as superiores. O processo de passagem da razão para a inteligência é justamente a ascenção do homem em direção a Deus. A idéia do tempo, como sucessão de acontecimentos sobre uma espécie de linha, com passado, presente e futuro, é produto do limite de sua razão e de sua existência finita. Deus, que é infinito, e estå fora da escala do tempo, não está sujeito a esta sucessão, para Ele tudo é um eterno presente por isso experimenta no presente o que o homem já fez, está fazendo e o que fará. 

A consolação a filosofia é um livro de introdução à filosofia pois consegue captar a unidade da filosofia e transmiti-la com uma linguagem poética e compreensível. A filosofia é o uso da razão para compreender a ordem da existência e este conhecimento é fundamental para que o homem tenha a consolação para viver este mundo. Lendo este livro e meditanto sobre ele, o leitor vai se vacinar para toda mistificação que veio depois, principalmente na chamada filosofia moderna, que se perdeu em raciocínios abstratos, em círculos e sobre problemas criados pelos próprios pseudo-filósofos que pouco ou nada se conectam à realidade. Vai entender que muito do que vemos hoje como novidade já tinha sido refutado por Sócrates, Platão e Aristóteles há mais de dois mil anos e que o núcleo da filosofia está lá, embora muitos outros filósofos, como Boécio, tenham prosseguido nos trabalhos dos verdadeiros pais da filosofia e nos iluminado sobre o verdadeiro alcance do que estavam dizendo. Filosofia é o conhecimento, por via da razão, da ordem divina. O que não se encaixar nisso, é outra coisa, embora use o mesmo nome e até mesmo um título acadêmico. Quer estudar filosofia? Comece por A Consolação da Filosofia, livro inteiramente escrito na prisão, em que o autor busca no uso dar razão a luz sobre seu próprio sofrimento. Evitará perder muito tempo, entender um monte de coisa errada, ter um sacrifício danado para limpar a mente de tanta besteira, como eu tive que fazer. Agradeço ao falecido professor José Munir Nasser por ter nos deixado essa valiosa dica, que embora tarde, chegou em tempo para mim. 


u© MARCOS JUNIOR 2013