Olavo de Carvalho

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Filosofia e seu inverso

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Afinal, o que é filosofia? Se tem uma área do conhecimento em que parece não haver consenso, é justamente a definição do que seja filosofar. O filósofo mais odiado do Brasil, especialmente pelos acadêmicos, Olavo de Carvalho coloca sua colher neste assunto e não tem receio de mostrar com toda clareza que lhe é peculiar o que seja a verdadeira filosofia.

Para tanto, ele utiliza do contraste, mostrando o que não é filosofia, ou melhor, mostrando o contrário da filosofia, justamente o que se faz nas universidades espalhadas para o mundo. Já surge sua primeira tese: a profissionalização foi um desastre para a própria filosofia. O resultado são departamentos que são incapazes de produzir nem filosofia nem filósofos, no máximo historiadores da filosofia, o que é coisa bem diferente.

Para Olavo, a filosofia é uma técnica de educação da alma com vista ao supremo bem, que identifica como a realidade suprema. A anti-filosofia seria a colocação de obstáculos para impedir este processo, como o a desconstrução de textos a tal ponto que se rompa a ligação do texto com a realidade a que se refere, prática muito comum na USP. Retoma a proposta socrática, em que a filosofia surge da reflexão dos problemas reais que se apresentam ao filósofo e não em abstrações sem ligação com a realidade.

Filosofia é ter consciência do que se conhece, em outras palavras, é coincidir a unidade de conhecimento com a unidade de consciência. Para isso defende o método confessional, em que o filósofo confessa a todo momento o que realmente sabe e o que lhe falta, assim como seus erros. Que busca em um processo de anamnese entontrar a experiência fundadora em que o problema se colocou para ele. Exatamente o que faz Santo Agostinho em sua autobiografia.

O livro é uma coleção de textos que estavam espalhados em seu curso do Seminário de Filosofia e artigos em jornais e revistas, especialmente o Diário do Comércio. São textos que exploram o assunto em diferentes ângulos e em diferentes graus de profundidade. O resultado é uma reflexão sobre a filosofia e as imposturas da modernidade, que nasceram com o iluminismo.

Resgata grandes figuras brasileiras como Mário Ferreira dos Santos e o Padre Landislaw, e apresenta nomes ignorados pela medíocre cultura brasileira como Eric Voegelin, Paul Friedlander e outros. Mostra os erros de gente como Descartes e Kant, responsável por boa parte da confusão que se tornou a filosofia de hoje.

A filosofia não é um fim em si mesmo; é antes uma técnica, um método. Um poderoso instrumento para se chegar à verdade, à essência das coisas. Rejeita os falsos divórcios entre ciência e filosofia, fé e filosofia, fé e razão; uma construção que tem como base a necessidade da burocracia acadêmica e não alguma razão ontológica.

A Filosofia e Seu Inverso consiste em um excelente livro de introdução ao estudo da filosofia pois tem os méritos de mostrar o que seja filosofar e apontar as armadilhas e erros que se espalharam pela modernidade. Quem começar por aqui, terá um bom primeiro passo para realmente aprender a filosofar. Há os que começam lendo Marilena Chauí. Que Deus lhes proteja!


Apoteose da Vigarice

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Diagnóstico de uma doença espiritual

Em 2005, Olavo de Carvalho imigrou para os Estados Unidos, onde se tornou correspondente do Diário do Comércio. Brasileiros nessa função, representando diversos jornais, sempre houveram, mas com capacidade para refletir sobre o que estava vendo ao invés de ficar repetindo reportagens do New York Times e mais frequentemente da CNN, lembro apenas do Paulo Francis _ custa até a crer, mas já tivemos um vigarista do estirpe de Paulo Henrique Amorim nessa função.

Apoteose da Vigarice reúne vários artigos e editoriais escritos neste período, dando continuidade à dimensão jornalística de sua obra, depois de ter sido expulso do Globo pelo pecado de ser conservador ou direitista demais para os padrões do jornalismo brasileiro. Conhecido também como filósofo, crítico cultural e até mesmo polemicista, rótulo que nunca aceitou, Olavo de Carvalho começou um trabalho que influencia uma nova geração de pensadores, que está apenas começando a aparecer no debate público. Olavo possui uma cultura e uma capacidade de pensamento infinitamente acima de seus colegas de profissão, e isso se mostra na sua obra mais popular, como jornalista. Em Apoteose, ele comenta os acontecimentos de 2005, o primeiro ano do segundo governo Bush, marcado pelos acontecimentos do Katrina, decisões polêmicas da suprema corte americana, aumento da presença militar no Iraque e denúncias envolvendo lideranças republicanas como o representante Tom De Lay. Já no Brasil vivíamos a explosão dos escândalos do mensalão.

No entanto, a grande personagem do livro é a mídia brasileira, que invariavelmente limitou-se a reproduzir as opiniões dor jornalões americanos, sem o menos espírito crítico e escondendo do público brasileiro o outro lado dessas delicadas questões. Trata-se de uma manifestação de um mal diagnosticado por Julien Benda em A Traição do Intelectuais: o desejo dos jornalistas de terem razão foi muito superior ao desejo de descobrir a verdade. A vigarice do título refere-se justamente aos chamados formadores de opinião, que nada mais são do que pseudo-intelectuais traidores, no melhor espírito descrito por Benda. 

Se nos Estados Unidos esse quadro é alarmante, no Brasil chega ao ponto de uma patologia espiritual disseminada em toda uma classe. Lá ainda dá para se argumentar que a mídia tende a favorecer a esquerda, mas aqui o objetivo é mostrar que apenas um lado é legítimo, que existe um monopólio da virtude por um dos lados.

Um livro que possui duas finalidades distintas. A primeira é mostrar o outro lado, uma narrativa que não se leu em lugar nenhum em 2005, mas que esteve de alguma forma presente no debate americano, nem que fosse pela rádio e pela Fox News. A segunda finalidade, talvez a principal, é evidenciar através do contraste das narrativas, a completa impostura de grande parte do jornalismo brasileiro. 

A impressão que se tem é que no futuro a obra jornalística de Olavo de Carvalho será a principal fonte para não só resgatar fatos históricos, mas para estudar a desordem moral da classe pseudo-intelectual brasileira, uma verdadeira apoteose da vigarice. 

Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão

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(Dialética Erística)

Arthur Schopenhauer


"Daí vem que, em regra geral, aquele que entabula uma discussão não se bate pela verdade mas por sua própria tese pro ara et focis (no interesse próprio) e procede per fas et per nefas e, como acabamos de demonstrar, não poderia fazê-lo de outra maneira."

Schopenhauer escreveu este texto curto sobre a Dialética Erística, como forma de se opor a Hegel e sua dialética como a própria evolução da humanidade. Trata-se de um texto inacabado, que reduz a dialética a uma disputa de indivíduos que desejam apenas vencer o adversário no campo da discussão, independente da verdade.

O filósofo Olavo de Carvalho apresenta uma introdução que explica como o texto se coloca em relação a dialética de Aristóteles, que Schopenhauer pretendeu estender, e os erros na interpretação desta base filosófica.

Dentro da pobreza da discussão intelectual no Brasil, Olavo coloca a edição deste livro como 'um empreendimento de saúde pública'. Acrescenta:

"Privado de debates sérios há quase meio século, nosso público se tornou vítima inerme de sofistas e charlatães, que hoje imperam não somente na política __ onde sua presença é mal sem remédio __, como também nos altos postos da vida intelectual, de onde deveriam ser banidos a pontapés."

Olavo seleciona exemplos atuais para mostrar a aplicação dos estratagemas apresentados por Schopenhauer, mostrando a importância de reconhecer a falsidade intelectual de muitos pensadores brasileiros.

Um dos estratagemas apresentados, que achei bastante interessante, é a manipulação semântica, uma das principais armas utilizadas pelo discurso de esquerda. Trata-se de escolher palavras ou expressões pejorativas para designar opiniões que quer refutar. Muito do politicamente correto encontra-se ali. Aliás, explica o obsessão dos socialistas em controlarem o uso da linguagem e definir palavras e seus significados.

É um livro para ser lido várias vezes e ser colocado na estante na parte de consulta freqüente. É uma obra fundamental para aqueles que lutam contra a impostura intelectual existente no debate atual, uma vacina para não ser surpreendido em discussões em que o objetivo do adversário é um embate pela vitória, independente do surgimento de uma verdade.

A introdução escrita por Olavo chama atenção para a função da dialética como um instrumento investigativo, que se completa com a utilização da lógica. A perversão de seu significado leva ao abismo entre o mundo real e o conhecimento, uma das raízes do grande mal que é a ideologia.

Embora Schopenhauer tenha se equivocado enormemente na interpretação do discurso aristotélico, mostrou grande senso de observação e escreveu um texto que não perdeu sua força pela passagem do tempo, ao contrário, só ganhou importância devido a cada vez maior manipulação intelectual, um dos males da modernidade.


O Imbecil Coletivo

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O Imbecil Coletivo - Atualidades Inculturais Brasileiras

Olavo de Carvalho(1996)


Sim, do mesmo modo que a Alemanha havia encontrado a sua máxima vocação literária na prosa filosófica, a Inglaterra na poesia lírica, a Itália no verso épico, a Espanha na narrativa picaresca, a Rússia no romance, a França no jornalismo de idéias, o Brasil encontrara a expressão perfeita da sua personalidade intelectual no jornalismo da falta de idéias.

Olavo de Carvalho é um filósofo brasileiro, estudioso de Aristóteles, que escreve regularmente em sites e jornais. Seus detratores o chamaram de filósofo "auto-entitulado", por não ter um diploma de filosofia, como se fosse preciso um para filosofar. É uma rara expressão dos valores conservadores e cristãos, motivo suficiente para ser visto como um câncer a ser retirado da vida intelectual brasileira.

"Imbecil Coletivo" é o terceiro livro de uma série, iniciada por "A nova era e a revolução cultural" e que prosseguiu com "O jardim das aflições". Segundo o próprio autor, "cada um deles pode ser compreendido sem os outros dois. Mas difícil é, por um só deles, captar a fundo o pensamento geral que orienta a trilogia inteira".

Dentro da trilogia, este livro descreve, através de exemplos, "a extensão e a gravidade de um estado de coisas _ atual e brasileiro", junto com os outros dois procura situar a cultura brasileira na história das idéias do ocidente.

É uma reunião de notas, retiradas do noticiário cultural brasileiro, entre 1992 e 1996, ligadas por um tema único: "a alienação da nossa elite intelectual, arrebatada por modas e paixões que a impedem de enxergar as coisas mais óbvias".

E com grande maestria, e argumentos sólidos, Olavo coloca a nú a intelectualidade brasileira, mostrando suas contradições e a falta de reflexão das próprias idéias que processam. Mostra também como a redução da vida intelectual ao jornalismo serve para limitá-la profundamente e empobrecê-la. O jornalismo tornou-se a régua para adequar o pensamento brasileiro, e os resultados são tenebrosos.

Através desta obra, Olavo mostra seu próprio pensamento, e antecipa muitas discussões que estão sendo travadas nos dias atuais, 10 anos depois.

A leniência e, principalmente, a responsabilidade dos intelectuais no aumento da violência no Rio de Janeiro, através da glamourização do banditismo, é discutida anos antes de "Tropa de Elite" gerar debates parecidos através dos jornais.

De Capitães da Areia até a novela Guerra sem Fim, passando pelas obras de Amando Fontes, Marques Rebelo, João Antônio, Lêdo Ivo, pelo teatro de Nelson Rodrigues e Chico Buarque, pelos filmes de Roberto Farias, Nelson Pereira dos Santos, Carlos Diegues, Rogério Sganzerla e não-sei-mais-quantos, a palavra-de-ordem é uma só, repetida em coro de geração em geração: ladrões e assassinos são essencialmente bons ou pelo menos neutros, a polícia e as classes superiores a que ela serve são essencialmente más.

O entranhamento do intelectual no estado brasileiro, e sua conseqüente subserviência também é retratado. Em busca da segurança dos cargos públicos, como funcionário públicos, eles param de pensar e tratam de repetir banalidades pelos canais da imprensa escrita.

A principal causa deste estado de coisas para Olavo é o efeito nocivo das idéias marxistas, principalmente pela adesão da classe intelectual às idéias de Antônio Gramsci. Qualquer exame de idéias é feito por eles de forma a priori, antes de ler os argumentos. É o que alertava o próprio Partido Comunista Brasileiro, na época em que se podia pensar:

Trata-se do hábito de raciocinar dentre de esquemas fixos. Este "método" de raciocínio se limita a apanhar os fatos e enquadrá-los dentro do esquema pré-determinado. Exemplo é o esquema "revolucionário x reacionário". Segundo este esquema, tudo o que temos a fazer é classifica as pessoas, os atos e os fatos em "revolucionários" ou "reacionários" (...) Como poderemos compreender a realidade, mantendo esta atitude? (1962)

Hoje, o esquema se divide em "progressista x reacionário", tendo em vista que a revolução socialista agora segue a pregação de Antônio Gramsci em que a revolução deve ser feita por vias democráticas, com conquista do aparelho cultural e do estado, sem explicitar os objetivos. Foi assim, aderindo a este "método", que um Caio Prado Jr, comunista de inegáveis qualidades, se transformou em um Emir Sáder. O próprio pensamento marxista se empobreceu.

Um livro para ser lido com calma, são quase 600 páginas, de muita riqueza argumentativa e no próprio uso da linguagem. Olavo mostra tudo que nossos intelectuais parecem não ter, cultura, uso correto do idioma, capacidade de refletir. Por isso o livro incomodou muita gente. E foi nos protestos contra a obra que Olavo demonstrou sua própria tese, nenhum de seus argumentos foi contrastado ou combatido, o coro foi na direção da classificação de sua pessoa em reacionário, e o uso de termos que ele próprio adiantou, a título irônico de sugestão, na contra-capa do livro.

Realmente, algo vai muito mal no pensamento intelectual brasileiro.


Janeiro, 2007

u© MARCOS JUNIOR 2013