Papa Francisco

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Exortação Apostólica Evangeli Gaudium

O grande risco do mundo atual, com sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada dos prazeres superficiais, da consciência isolada.


Nos últimos dias surpreendi-me com a repercussão da primeira exortação apostólica de Jorge Bergoglio, o papa Francisco. Vi gente boa criticando o texto e colocando-o como a confissão de que o comunismo estaria no topo da igreja, ou mesmo que seria o triunfo de Rosseau sobre a tradição católica, a rendição da Igreja ao mundo e que o novo caminho proposto pelo papa levaria a derrocada final do cristianismo. A Igreja estaria abandonando suas raízes para se curvar ao mundo, realizando finalmente o que imaginam que o Vaticano II propôs, a submissão  à modernidade. O jesuíta Francisco na verdade estaria pela teologia da libertação, essa praga que tomou conta de boa parte dos religiosos na América Latina.

Evitei ler estes textos, limitando aos breves comentários de twitter e chamadas de blogs e matérias na imprensa. Que qualquer texto de um papa seja deturpado pelos que odeiam a igreja não é novidade; mas que alguns dos católicos ataquem o papa com tanta virulência chamou-me atenção. No livro Socrates Meets Jesus, de Peter Kreeft,  Sócrates acorda nos nossos dias e passa a questionar alunos e professores de uma universidade fictícia em Boston, onde coincidentemente o autor é professor de filosofia. O grego se espanta ao saber de um aluno que ele lê a Bíblia de acordo com suas próprias convicções, aceitando ou rejeitando o que está lendo à medida que encontra eco nas próprias idéias, sem chegar efetivamente a compreender a mensagem. O  Sócrates fictício alerta que todo livro deve ser lido de acordo com as convicções de quem escreveu, para que possa ser entendido e então ser criticado de acordo com as convicções do leitor. Não teriam esses comentaristas feito o mesmo com o texto de Bergoglio? Não estariam eles lendo exatamente o que queriam ler, que o papa é uma espécie de comunista ou pelo menos um progressista? Com essas dúvidas na mente, e a recomendação de Kreeft no coração, tratei de fazer o que todo mundo deve fazer diante de um texto polêmico, lê-lo. E interpretá-lo de acordo como o que Bergoglio pensa e não com o que penso.

Bergoglio já tinha publicado uma encíclica mas o texto era 90% de Ratzinger, o papa Bento XVI, de modo que esta exortação é seu documento mais importante até agora, e por isso mesmo tem que ser lido com toda atenção. Chama-se Evangeli Gaudium (A Alegria do Evangelho) e tem como objetivo principal anunciar uma nova etapa na ação evangelizadora da Igreja, apropriada ao mundo atual. Pronto, está dada a senha: o papa se rendeu à modernidade! Esquecem-se que uma ação educadora não pode ser fixa para todos os tempos _ razão aliás para o próprio Cristo usar tanto as parábolas, evitando que sua formulação se tornasse o produto de uma época e lugar específicos _ mas que deve ser adequada ao público que quer atingir e a situação da comunicação. Por isso Bergoglio não usa a palavra renovação ou revolução e sim nova etapa, deixando claro que tudo que se passou faz parte de uma evolução natural, que existe um forte ligação de passado, presente e futuro.

Retomando um tema tratado anteriormente pelo Padre Vieira, Bergoglio vai tratar da evangelização. No entanto, enquanto Vieira se dedicou a investigar porque a palavra de Deus encontrava tanta dificuldade para chegar nos homens, o papa coloca sua ênfase na ação prática, o que se deve fazer para que a evangelização seja eficaz. Mostra os problemas que a Igreja vive hoje, um diagnóstico que vai no centro das questões e se bem entendido é simplesmente um chamado ao bom combate, um chamado a todos os católicos. Se considerarmos que só se chama para combater quem não está combatendo, a carta é também um grande puxão de orelha. Aos sacerdotes? Também. Mas principalmente aos fiéis.

Retomo novamente ao Peter Kreeft e seu livro. Depois de ler o novo testamento, Sócrates tem uma grande pergunta, que confessa ter vergonha de formular de tão ridícula, mas que não pode deixar de fazer. A pergunta é surpreendente e vai no coração do que Bergoglio tem a nos dizer: onde estão os cristãos? Os alunos riem dele, estão em todos os lugares dizem, são a maior parte da população. Então como podem estar vivendo a vida que estão vivendo? Como pode um cristão ser tão parecido com o não-cristão? Como não é possível diferenciá-los a não ser que se pronunciem? Como podem parecer todos tão igualmente tristes?

Para Bergoglio “o Evangelho, onde resplandece glorioza a Cruz de Cristo, convida insistentemente à alegria". Essa mensagem está em todos os seus discursos mas só agora, ao ler sua carta, entendo a importância dessa alegria. Se um homem tem fé em Jesus Cristo, e acredita em seu evangelho, não tem como ser triste no mundo. É simples mas nunca pensei sobre esse prisma. A figura que Bergoglio combate é a do religiosos sisudo, sempre a apontar os pecados dos outros, e lamentar esse mundo, vivendo uma vida quase que sofrimento e expiação. “ Há cristãos que parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem Pásca”. Como pode esse alguém convencer que sua fé é autêntica? Que Cristo é real e está conosco? Parem e pensem. Se vem um sujeito com cara de poucos amigos e começa a recitar versículos da Bíblia falando nesse outro mundo tão extraordinário que herdarei se aceitar a salvação, como pode ele não estar irradiando alegria? Se ele se concentra mais em apontar meus pecados e chamar minha atenção do que em me mostrar o caminho, como posso crer na conversão? O mundo não é uma punição que deve ser superada rapidamente para herdar uma vida eterna, ele é parte de nossa própria existência e também merece ser amado. Cristo fala no reino de Deus, mas também do reino de deus neste mundo. Se a Carta tem um espírito espreitando todas as suas linhas, esse espírito é o de G. K. Chesterton, que entendeu como ninguém a alegria do cristianismo e o papel da Igreja.

O bem tende sempre a comunicar-se. Toda a experiência autêntica de verdade e de beleza procura, por si mesma, a sua expansão (...) Consequentemente, um evangelizador não deveria ter constantemente uma cara de funeral.

Não sei se Bergoglio leu Chesterton pois o fato de dois autores falarem a mesma coisa não significa necessariamente que um copiou do outro, mas que podem estar se referindo a mesma verdade. Duas biografias escritas pelo inglês são essenciais para entender como o inglês percebeu a questão que o papa coloca: São Tomás de Aquino, que trata da alegria e de como Tomás entendeu que o cristão não pode virar as costas para o mundo; e São Francisco de Assis, que mostra como o santo entendeu que a Igreja não podia ficar estacionada esperando que os cristãos a buscassem, mas que tinham que peregrinar até as pessoas comuns. A carta do papa trata justamente desses dois temas, a alegria e a evangelização. Ou de como o segundo não pode acontecer sem o primeiro.

Bergoglio lembra que a principal atribuição da Igreja tem caráter missionário, pois foi essa a ordem de Cristo aos seus apóstolos. Ele reclama de um caráter mais administrativo que o catolicismo tomou, perdendo essa chama de novidade, de chegar no coração das pessoas. Se foi possível conquistar uma Roma pagã e materialista nos primeiros séculos da era cristã, por que não se consegue o mesmo nos dias de hoje? A igreja deixou este espírito missionário pelo caminho e abraçou-se a um mal conservadorismo, tentando preservar sua forma e poder e não a essência da pregação. Assim tornou-se prisioneira de uma idéia de manter intacta o que justamente deveria estar sempre mudando. Mais que lugar por um passado perdido de glórias, quando foi a verdadeira luz do mundo, a exortação de Francisco é pelo retorno ao espírito missionário dos primeiros mártires. 

a causa missionária deve ser (...) a primeira de todas as causas. Que sucederia se tomássemos realmente a sério essas palavras? Simplesmente reconheceríamos que a ação missionária é o paradigma de toda a obra da Igreja. 

Trata-se de um chamado do papa não só aos sacerdotes, mas principalmente aos católicos. Onde está a alegria na adversidade? Falar em triunfo de Rosseau é uma bobagem, a mensagem é justamente o contrário. Bergoglio critica a idéia que o homem tem que atingir certas condições materiais para ser alegre; ao contrário, tem que ser alegre para que a providência possa agir e melhorar sua condição. Rejeita, portanto, a idéia de que o meio social é uma prisão, que o meio condiciona o homem. Através a fé sincera o homem adquire meios espirituais para superar suas condições. A segunda grande questão que coloca a todos os católicos é a perigrinação, a evangelização. O que os católicos estão fazendo para expressar sua fé? Para dar um testemunho de como sua alegria tem na conversão sua fonte? Por que os católicos aceitaram a imposição da cultura moderna de viver sua fé de maneira privada, como se a religião não tivesse seu campo público? O papa coloca apropriadamente: “sair da própria comodidade e ter a coragem de acançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho”.

Há uma necessidade imperiosa de evangelizar as culturas para inculturar o Evangelho”. A modernidade trouxe novos e flexíveis meios de se comunicar com as pessoas, mas onde está a mensagem cristã? Por que os autores não colocam mais Cristo em suas obras? Onde estão os grandes temas cristãos? Por que as pessoas comuns ao escreverem em seus blogs e redes sociais escondem sua fé com medo talvez de afastar seus leitores? Por que o católico aceitou que religião não se discute e prefere se esconder de possíveis conflitos? O diagnóstico que Bergoglio apresenta é de uma igreja acovardada e acomodada. O fiel se limita em sentar no seu banco da missa e cumprir sua obrigação; os sacerdotes fazem suas pregações e cumprem suas obrigações. Para o papa isso é muito pouco, isso é a própria morte da igreja. O católico tem obrigação de estudar, compreender cada vez mais sua fé e principalmente deve entender que faz parte desse espírito missionário. O sacerdote tem que ter a Igreja no centro de sua vida e não como uma atividade secundária.

Não se enganem, a carta do papa é um puxão de orelhas e um chamado; um chamado para o bom combate, de evangelizar a cultura. Os católicos devem abandonar seu âmbito privado e não ter medo de publicamente defender sua fé, enfrentando o escárnio de alguns e desprezo de outros; mesmo que seja dos amigos. Não é possível que os primeiros cristãos tenham enfrentado Roma em todo seu poderio  e o cristão de hoje tenha medo das pragas da cultura moderna, como o politicamente correto. A ressurreição também é isso, lembra Bergoglio, é nascer novamente. Não é a primeira vez que a Igreja é dada como derrotada, um ponto que Chesterton aponta no livro O Homem Eterno; e todas as vezes ela ressurgiu ainda mais forte. O mesmo vai acontecer agora, e os católicos tem um dever com a fé que abraçaram.

Algumas análises do papa causam desconforto no público conservador, especialmente dos liberais que sentem calafrios ao ouvir o papa falar de desigualdades sociais, opção preferencial pelos pobres, absolutismo do mercado financeiro. Puro desconhecimento da doutrina social da Igreja, que sempre criticou o capitalismo desvinculado da moral, coisa que aliás o próprio Adam Smith alertou. Novamente recorro a Chesterton que em um conto policial do padre Brown coloca um comunista discutindo com um financista. O financista esquece o termo comunista e pergunta como se chama aquele que ama os pobres; o padre Brown responde inocentemente que são os santos. Todos riem e dizem que trata-se do comunista, que retruca que eles não se dizem amantes dos pobres mas apenas que estes tenham a justa renumeração por seu trabalho.  O padre coloca a questão central com toda a propriedade: mas não deixam que ele seja dono deste mesmo trabalho. A carta lembra essas coisas mas não assume a defesa da ideologia da esquerda, ao contrário, coloca o endividamente público como um obstáculo: “ a dívida e os respectivos juros afastam os países das possibilidades viáveis da sua economia, e os cidadãos do seu real poder de compra”. Quem conhece um pouco de economia sabe que o papa está tratando da inflação que acompanha o descontrole do orçamento do estado, com suas terríveis consequências para os mais pobres. Vai além e trata também da questão dos juros baixos para incentivar o consumo: “ os mecanismos da economia atual promovem uma exacerbação do consumo, as sabe-se que o consumismo desenfreado, aliado à desigualdade social, é duplamente daninho para o tecido social”. 

Um pressuposto errado é achar que o comunismo seja repleto de mentiras; se assim fosse jamais chegaria onde chegou. O diabo não consegue seu sucesso apenas falando mentiras, mas misturando algumas mentiras na verdade, daí sua força persuasiva. O comunismo acerta quando fala do desconforto da desigualdade social, dos problemas da acumulação de riqueza e por isso pode parecer que ao tratar dos mesmos aspectos o papa esteja justificando o comunismo. Longe disso, condena veementemente as ideologias, especialmente quando coloca os quatro princípios para construção de uma ordem social mais justa: o tempo é superior ao espaço; a unidade prevalece ao conflito; a realidade é mais importante que a idéia; e o todo é superior à parte. Nenhuma sociedade justa pode ser construída sobre o ódio, uma rejeição ao esquema dialético da luta de classes e um retorno ao conceito originário de dialética em Aristóteles, justamente de absorver a verdade nos confrontos. “Com corações despedaçados em milhares de fragmentos, será difícil constuir uma verdadeira paz social”.

Se Bergoglio trata os pobres com uma especial atenção é porque segue justamente o exemplo do Cristo, que sempre os colocou em um lugar especial em sua pregação. O que não O impediu de ser duro com eles em diversas situações. Não se trata de exaltar a pobreza mas lembrar que a aceitação de Deus significa colocar o próximo como imagem deste mesmo Deus, ou seja, de praticar para com eles o amor com todas as forças, através da caridade que Paulo tanto chamou atenção. Os pobres são justamente esses irmãos mais fragilizados, que mais precisam da atenção de todos. Não se trata de defender o ideário de esquerda; o papa critica severamente o assistencialismo, que deve ser visto apenas como solução temporária, e especialmente o populismo, que conhece tão bem. Afirma que a maior discriminação que sofrem os pobres não é de natureza material, mas de falta de cuidados espiritual. Clama que os cristãos participem da política, um dos campos que os crentes abandonaram por não acreditarem em sua eficácia.  Ele lembra que a política tem um alto propósito que é zelar pelo bem comum e a sua corrupção é um flagelo para toda a sociedade; portanto os cristãos tem uma obrigação de se ocupar dela e promoverem este propósito. 

A dignidade de cada pessoa humana e o bem comum são questões que deveriam estruturar toda a política econômica, m as às vezes parecem somente apêndices adicionados de fora para completar um discurso político sem perpectivas nem programas de verdadeiro desenvolvimento integral.

Com essa carta, Bergoglio disse definitivamente a que veio e não foi para conduzir a igreja à rendição diante da cultura moderna; ao contrário, é um chamado de guerra. É preciso evangelizar a cultura, mas para isso é preciso que os cristãos do mundo inteiro entendam que a fé no Cristo não pode ser vista como tristeza mas com muita alegria; que todos devem ressaltá-la e dar testemunho que é justamente pela aceitação do amor divino que esta alegria encontra sua fonte. Quem está apostando que o papa é uma ovelha negra dentro da igreja está apostando no cavalo errado. Há uma continuidade entre João Paulo II, Ratzinger e Bergoglio. A Igreja precisa ir a luta, mas estarão os católicos dispostos a ela?

Em cada momento da história, estão presentes a fraqueza humana, a busca doentia de si mesmo, a comodidade egoísta e, enfim, a concupiscência que nos ameaça a todos. Isto está sempre presente, sobre uma roupagem ou outra; deriva mais da limitação humana do que das circunstâncias. Por isso, não digamos que hoje é mais difícil; é diferente. Em vez disso, aprendamos com os Santos que nos precederam e enfrentaram as dificuldades próprias do seu tempo. 

 


Sobre o Céu e a Terra - Bergoblio e Skorka

Para uma parte do mundo contemporâneo, especialmente na intelectualidade, a religião é vista como algo a ser superada, uma expressão do atraso. Não sei de onde surgiu uma idéia que há um confronto entre razão e fé, sendo que esta última se caracteriza por alguma espécie de obscurantismo. Ao mesmo tempo, os religiosos tendem a ser vistos como ignorantes e apartados das questões da realidade contidiana, cabendo a uma nova classe sacerdotal estabelecer os parâmetros de certo ou errado, ou mesmo da inexistência desse parâmetro. Afinal, o que tem a religião a dizer sobre o mundo?

 Em 1995, duas figuras religiosas de renome na Argentina, o cardeal Jorge Bergoglio e o Rabino Abraham Skorka, publicaram um diálogo em que eles tratando dos mais variados temas, desde questões de fé até questões polêmicas da atualidade como casamento de pessoas do mesmo sexo, aborto, divórcio, etc. Dividido em 20 tópicos, Sobre o Céu e a Terra, trata exatamente das duas ligações essenciais do homem, com a transcendência e com a imanência, Deus e o próximo.

Há um considerável esforço de ambas as partes de entender o ponto de vista do próximo, buscar as convergências e também ressaltar as diferenças, tudo em um clima de profunda tolerância que só uma verdadeira amizade pode proporcionar. Bergoglio, o agora Papa Francisco, e Skorka, dão acima de tudo uma lição de profundo respeito ao próximo, e só isso já vale a leitura do livro. Nenhum deles que provar sua razão, apenas expor seu entendimento e se abrir para um verdadeiro debate de idéias.

Mas não é só isso, os dois dão uma aula de cultura e uso da razão para dar suporte a suas crenças, mostrando que ignorância é achar que religiosidade é sinal de atraso. Há muito a aprender para quem tem o coração aberto e Bergoglio e Skorka mostram o caminho para o entendimento baseado no desejo comum de se conhecer, remetendo a Aristóteles que abriu sua Metafísica com uma frase absolutamente sublime: “ o homem tem por natureza o desejo de conhecer”. Se dermos espaço para nosso desejo natural, as barreiras entre nós se tornam praticamente inexistentes. É o amor à verdade que concentra o grande potencial de entendimento humano.

Em particular para os católicos, é um excelente livro para conhecer o que o Papa pensava sobre os mais diversos assuntos, sem o filtro que sua condição atual pode mascarar. Naquele momento, Francisco estava muito mais livre para expressar seu pensamento, inclusive nos pontos mais polêmicos. Adianto que vai decepcionar muita gente: por incrível que pareça, o Papa é católico. 




u© MARCOS JUNIOR 2013