A antropologia clássica em Orgulho e Preconceito

O livro de Jane Austen apresenta dois exemplos excelentes para o entendimento da pessoa na visão antropológica clássica, principalmente de Aristóteles.

Na pessoa existe a inteligência, a principal distinção do homem para o animal. Pela inteligência se reconhece o bem, é onde se faz o questionamento ético em função do que cada um reconhece como o certo e o errado.

Ligado a inteligência, como uma importante manifestação, existe a linguagem. O homem é capaz de se comunicar ao mesmo tempo em que pensa e, dessa forma, dar vazão aos seus pensamentos.

Outra manifestação da pessoa é a vontade. É uma função intelectual, a forma como que nos inclinamos para o bem conhecido pela inteligência. É o ato de querer. Uma pessoa que reconhece a leitura como algo importante, portanto como um bem, pode decidir se dedicar a ela e resolver ler regularmente. Estabeleceu-se a vontade no sentido que os clássicos a consideravam.

Mas o homem não é apenas razão, é também sentimentos. Não se deve confundir sentimentos com desejos. Os sentimentos constituem uma área intermediária entre o sensível e o intelectual. É o amor, o ódio, a tristeza, a esperança, o desespero, etc. É importante entender que os sentimentos não podem ser controlados em sua origem, ninguém escolhe por quem vai se apaixonar ou odiar. Mas os clássicos acreditavam que pela ação da inteligência era possível e desejável educá-los, e aí estaria a essência da felicidade.

Por fim temos a ação. Que pode ser desde a simples contemplação (muito importante para os gregos) ou qualquer ato em função da inteligência, da vontade, da linguagem, dos sentimentos ou dos desejos.

Os dois personagens principais de Orgulho e Preconceito mostram que a desarmonia entre estas manifestações da personalidade causa um desarranjo na individualidade do homem.

Darcy aparece no livro como um homem racional. Sua inteligência mostra que Elizabeth não é uma escolha possível por sua condição social e, principalmente, pela vulgaridade da família da moça. Surge o sentimento de amor. Pela ação da inteligência estabelece a vontade de eliminar este sentimento. O sentimento, no entanto, é maior do que sua vontade e termina por declarar seu amor. Suas palavras demonstram toda a desarmonia entre inteligência, vontade e sentimentos:

__ Em vão tenho lutado comigo mesmo; nada consegui. Meus sentimentos não podem ser reprimidos e preciso que me permita dizer-lhe que a admiro e amo ardentemente.

É interessante notar que Austen descreve como o orgulhoso cavalheiro diante do amor por Elizabeth se expressa de forma trôpega, assim como seus atos são descuidados. É o retrato de uma personalidade que não consegue resolver o conflito entre a razão e os sentimentos.

Darcy só alcança a paz quando muda seu próprio entendimento do que seja o bem. Compreende que as razões que o faziam opor-se à jovem eram fruto de seu orgulho; eram uma fraqueza. Quando sua inteligência permite que considere aquele amor um bem toda sua personalidade se ajusta.

Elizabeth possuía desde o início um preconceito contra ele. Era um sentimento forte, que ofuscava sua própria inteligência. Baseada nele estabeleceu a vontade de odiá-lo, o que fica evidente em várias passagens do livro. Quando escuta acusações contra Darcy em nenhum momento duvida delas, pois estão de acordo com sua vontade.

Quando lê uma carta com os motivos de Darcy percebe que haviam indícios, desde o início, que mostravam que ele era inocente nas acusações. Através da inteligência, percebe que estava errada, que seus sentimentos para ele eram motivados por seu preconceito. Ao entender este sentimento consegue eliminá-lo, por ação de sua vontade. Com a harmonia que passa a experimentar surge o amor por seu pretendente, e encontra finalmente a felicidade.

A literatura é uma fonte rica para entender e pensar sobre nossa própria humanidade. É uma obra de ficção, mas os autores, principalmente os grandes, baseiam-se na realidade, nas próprias experiências e sentimentos para criar seus ricos personagens. Como é o caso de Darcy e Elizabeth

(Outubro 2007)

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