A incrível arte de não fazer nada


Os pensamentos desarranjados têm a mesma relação para o cérebro que os vômitos para o estômago, a asma para os pulmões e qualquer outra maleita para o seu órgão correspondente. (William Lawrence)

Estou desde o dia 11 em Manaus com dois dos meus filhos. Quando me perguntam o que ando fazendo, responde de pronto: nada. Essa resposta nos dias de hoje é quase uma afronta, um escárnio. Como pode alguém ficar sem fazer nada?

Na verdade confesso que minto. Não fico propriamente sem fazer nada. Estou lendo bastante, escrevendo minhas coisas, assistindo aulas no youtube (a última foi uma palestra de lançamento do maravilhoso livro Hereges do Chesterton), assistindo NBA e NFL, conversando com amigos. Se contasse isso toda vez que respondesse a pergunta sobre o que estou fazendo, muitos responderiam: ou seja, nada! Pois é, por isso omito as premissas e vou direto para a conclusão.

Existe um certo consenso _ cuidado com eles! _ de que estas atividades equivalem a não fazer nada. Creio que se você não sai de casa e interage com a sociedade é o mesmo que estar no ócio. Tento argumentar que tive conversas magníficas com Chesterton, Stephen Hawking, São Tomás de Aquino mas não adianta. Sou quase um vagabundo.

Curioso que ainda me falta tempo! Pode? Tenho uma série de atividades para fazer mas ainda não encontrei tempo. Mas como, se encontro tempo para livros e escrever no blog? Pois é, para mim nenhuma destas atividades é complementar, coisas que fazemos quando sobra tempo; ao contrário, são coisas essenciais, que preciso fazer para manter minha sanidade!

Se a leitura tem a capacidade de me tirar da zona de conforto e me fazer refletir sobre um monte de coisas, ela termina por de certa forma desarranjar meus pensamentos. É na hora de escrever que coloco tudo em uma certa ordem e mantenho minha mente arejada. Este é um dos grandes motivos que escrevo este blog. Cada post que escrevo é, além de uma breve meditação, uma arrumação da casa. Uma classificação e organização das idéias e pensamentos.

A vida é composta por expansões e consolidações. Tem horas que estamos em um ritmo alucinado expandindo nossos horizontes e realizações. O problema é que não podemos ficar assim indefinidamente, a expansão é desorganizadora por natureza (e aí está o problema no nosso slogan da bandeira, não há progresso com ordem). Se não nos cuidarmos, levamos um tombo daqueles.

Em algum momento temos que parar e organizar todas as nossas conquistas. Consolidar o que conquistamos. Depois da fase do progresso, vem a fase da ordem. Organizar tudo para se preparar para novos saltos. Se prestarmos atenção, é uma constante da natureza, uma condição da nossa existência. Faço isso diariamente, quando escrevo. E faço ocasionalmente, quando tenho um período destes, como aqui em Manaus.

Geralmente pensamos nossas férias como uma série de atividades a serem realizadas e terminamos esgotados. É uma postura. De minha parte planejo também para minhas férias ficar à toa, ler livros, ver filmes, pensar. Coisas que são meio difíceis no dia a dia. Ou que não consigo realizar na intensidade que gostaria.

Sei que a semana que vem será o exato oposto, chegando em um país diferente e arrumando um lar. Tudo bem, esta parada foi essencial. Estarei com minha mente arejada, meu espírito harmonizado e tranquilo. Pronto para mais uma expansão da vida. Exatamente por isso tinha planejado esta parada em Manaus. Deus foi tão bom que ainda a extendeu!

E tem gente que não acredita em milagres! Tudo bem, os milagres acreditam em você!


u© MARCOS JUNIOR 2013