A pequena Michele e o aborto

Confesso que não queria escrever sobre a pequena Michele, o bebê que foi abandonado pela mãe em um rio poluído de Belo Horizonte e terminou falecendo na UTI de um hospital com infecção generalizada e edema cerebral.

Fico imaginando aquela equipe de médicos e enfermeiras que tentou de todas as formas salvar a menina. O seu nome foi dado pelos funcionários da UTI. Não consigo pensar neste nefasto acontecimento sem sentir profunda tristeza; a morte de uma criança, um bebê, é diferente. Ali não podemos deixar de pensar em toda uma vida que haveria pela frente, com seus dramas, suas conquistas, vitórias e fracassos.

Mas lendo o artigo de André Petry na Veja da última semana em que defende que se houvesse a legalização do aborto tal fato não teria acontecido resolvi escrever o que penso. Seria essa a única solução para evitar um fato desses? Será que não existem soluções melhores?

Sei lá, não sou ninguém para julgar. Um pessoa que faz um coisa dessas encontra-se fora de qualquer conceito de normalidade. Desespero, dor, ódio. Tudo isso deve ter passado pela cabeça dela, e coisas que nem imaginamos. Mas este é uma caso extremo, e assim acho que deve ser tratado.

O que não concordo é a afirmação do autor que "legalizar o aborto, além de tudo, também é forma de tratar as brasileiras com alguma igualdade".

Quer dizer que quando se mostrar que a quantidade de homicídios praticados por pessoas de classe mais baixa são superiores ao de classes mais altas devemos tirar o homicídio do código penal? E permitir o furto e o roubo? Ser tolerantes com o tráfico de drogas?

Não existem outras soluções? Acompanhamento social? Um programa para entrega do bebê para adoção?

Quando morava no interior do Pará abandonaram um bebê no esgoto da cidade. De manhã foi noticiado pela imprensa. Na hora do almoço uma pessoa que trabalhava comigo já estava dando entrada no processo de adoção. E não se sabia ainda se o recém-nascido sobreviveria!

Argumentam que deve-se levar em conta o país em que vivo. Acompanhamento social e programas são coisas de países ricos. E quanto sairia para a saúde pública uma rede oficial de abortos? Todos os médicos seriam obrigados a praticá-lo? Mesmo contra suas convicções? Este mesmo país, para os que advogam que o aborto seria uma solução mais prática, não consegue distribuir preservativos a todos. E se nem dá conta da quantidade de esterilizações que é solicitado, dará conta da quantidade de abortos? Com que qualidade? E dará o necessário acompanhamento psicológico?

Vivemos num estado que arrecada quase metade do que é produzido no país. E não consegue dar conta de necessidades básicas como educação e saúde. Uma rápida lida nos jornais mostra isso, o estado está voltado para a economia, para ser o grande ator econômico. Está preocupado em fazer concorrência com empresas privadas, e participar ativamente do mercado. E o resultado está aí, políticas sociais que se resumem em distribuição de esmola.

A pequena Michele não merecia ser jogada dentro de um rio para morrer. Ninguém merece um destino destes. Não foi lhe dada uma chance de viver, por pior que lhe fosse essa vida.  Em minhas dúvidas e questionamentos estarei sempre a favor dessa chance, por menor que seja.

(Outubro 2007)

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